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Folha de S. Paulo - 1995

São Paulo - Brasil

 

Placar do momento: 9 a 3

02/07/95

 

Rubens Ricupero

Terminados os 12 meses do primeiro tempo, o placar favorece o real por 9 a 3. Vejamos por quê:

1) O Brasil voltou a ter uma moeda que é instrumento de troca e reserva de valor: ninguém está tentando se desfazer do real, comprando imóveis ou outros bens a fim de fugir da perda de valor da moeda.

2) A inflação continua em baixa, fechando o primeiro semestre em cerca de 10%, o que não se via há quase 20 anos.

3) O crescimento está de volta, com mais de 9% no primeiro trimestre, o que é até excessivo, porque aquece a demanda.

4) O investimento, que havia mergulhado ao abismo dos 14% do PIB, cresce novamente e atinge os 17% (o que é ainda insuficiente).

5) Os investimentos estrangeiros (indústria automobilística, por exemplo) retornaram, e até os fluxos financeiros (empréstimos, Bolsas) se recuperam, após o susto da crise mexicana.

6) Evitamos o automatismo da dolarização e, depois de um começo complicado, consolidamos sem traumas o sistema de bandas e a atualização gradual do câmbio.

7) A desindexação progressiva da economia ingressa na fase decisiva de eliminação de um dos fatores maiores de realimentação inflacionária.

8) As reformas constitucionais da ordem econômica avançam com velocidade e maiorias além da expectativa na Câmara e no Senado.

9) A mentalidade mudou para melhor no Congresso e no país, as pessoas sentem mais autoconfiança, superou-se o baixo astral.

Contra nós registro até agora três tentos:

1) Não foi ainda possível levar avante a reforma dos impostos, da divisão do bolo da receita e das atribuições entre União, Estados e municípios, e a da Previdência Social.

2) Sem tais reformas, que reduzirão o tamanho e o peso morto do governo na economia e a tendência ao déficit, não resta outra alternativa para combater o aquecimento da demanda além da restrição do crédito e os juros altos, de um lado, e o adiamento dos investimentos necessários (repressão orçamentária), do outro.

3) A demanda alta e o câmbio inicialmente valorizado fizeram reaparecer os déficits comerciais no momento em que a crise mexicana tornou duvidoso financiá-los com recursos de fora. O governo não teve outro remédio a não ser o de restringir importações menos essenciais, mal menor a ser tolerado apenas enquanto durarem as circunstâncias desfavoráveis.

Terminou o primeiro tempo, mas aí acaba a semelhança com o futebol. Não haverá agora intervalo para o descanso, e o segundo tempo será seguido de um terceiro, quarto e várias prorrogações.

Tivemos um bom começo, mas é só isso: o início do princípio da reconstrução econômica. Não haja ilusões: sem reforma tributária, fiscal, previdenciária, não existe possibilidade de crescer de forma saudável e equilibrada como no Chile.
O professor Bacha, que sempre teve visão estratégica clara do plano, ensinou-me não ser verdade que só se pode manter baixa a inflação com as reformas constitucionais. Com pouco crédito, juro alto e repressão fiscal, a inflação não sobe, mas a economia também não cresce, o desemprego aumenta, os problemas sociais não se resolvem.

O presidente Scalfaro lembrou no Congresso a lição de De Gasperi: a política não exige apenas paciência, a política é paciência. Em outras palavras, o tempo é ingrediente indispensável, o que talvez tenha sido esquecido por alguns companheiros que se impacientam antes da hora, não compreendendo que pode haver derrotas e até recuos táticos, mas que chegaremos lá, se não nos dispersarmos nem perdermos o rumo.

De minha parte, sinto orgulho e gratidão por ter pertencido um dia a esta esplêndida equipe do real, reunida com coragem por Fernando Henrique Cardoso quando ninguém (nem mesmo este servidor) queria ser ministro da Fazenda. A intuição política do presidente Itamar Franco, ao perceber que era necessário e possível ter um plano de estabilização o quanto antes, a inteligência, ousadia e competência coordenadora de Fernando Henrique possibilitaram o que parecia um milagre: vencer a inflação num ano eleitoral em que tudo conspirava contra nós.

Dizíamos na época que, ao contrário da sabedoria convencional, não era a revisão que viabilizaria o real, mas o inverso, o real é que iria criar as condições para mudar a mentalidade e o país e, assim, mudar a Constituição. Dizíamos que, longe de ser expediente eleitoral, o real tinha vindo para ficar. Aos leitores, aos brasileiros em geral, que vêem os fatos e conhecem a realidade do real _melhor do que um ano atrás, mas menos boa, esperamos, do que daqui a um ano_ corresponde dizer se estamos ou não ganhando a partida.
 

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