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Folha de S. Paulo - 1995

São Paulo - Brasil

 

A crise de identidade do socialismo

15/07/95

 

Rubens Ricupero

O congresso dos ex-comunistas em Roma acaba de confirmar de forma espetacular o que é cada vez mais evidente desde a desintegração da URSS: não existem, ao menos neste momento, alternativas radicais de política econômica.

O consenso em torno da economia de mercado, a ``convergência sistêmica" em direção aos postulados do liberalismo, não tem precedentes neste século e chega a produzir crises de identidade ideológica que afetam por igual esquerda e direita.

A confusão havia atingido uma dimensão surpreendente na campanha eleitoral francesa, em que os socialistas, defensores de uma política de baixa inflação e ``franco forte" alinhado ao marco alemão, tiveram de resignar-se à apropriação pela direita da bandeira da luta contra o desemprego.

Na Inglaterra, lady Thatcher não esconde a preferência pelo reformismo do novo líder do Labour, Tony Blair, em detrimento do conservantismo açucarado de Major. Na Espanha, a social-democracia se encaminha à rejeição eleitoral de uma política responsabilizada pela mais alta taxa européia de desemprego.

Não se tinha visto ainda, porém, como acaba de ocorrer na Itália, o líder principal do maior partido oriundo do comunismo, proclamar que está pronto a aceitar a ``revolução liberal" do mercado.

Sob as bênçãos de Pierre Mauroy, representante da Internacional Socialista, e de Lionel Jospin, do socialismo francês, Massimo D'Alema, secretário-geral do primeiro partido da Itália, o Partido Democrático da Sinistra ou PDS (qualquer semelhança com o defunto ``maior partido do Ocidente" é mera coincidência) vem de completar para o comunismo italiano o que o congresso de Bad Godesberg fez, muitos anos atrás, para a social-democracia alemã: desembaraçar o partido da obrigatória referência ideológica ao marxismo.
Houve outros aspectos surpreendentes ou, como acusa o ex-líder Ochetto, de ``espetáculo": a presença, em lugares de honra, dos representantes de todas as forças direitistas, inclusive remanescentes do antigo partido fascista, como Fini, o convite para que o chefe incontestável da direita, Berlusconi, falasse aos congressistas, o que o ex-premiê fez em discurso sem concessões, de mais de 30 minutos, recebido friamente, mas sem insultos nem vaias. É um pouco como se, no Brasil, Maluf ou Roberto Campos fossem ouvidos polidamente pelo congresso do PT.

A ``revolução liberal" operada pelo PDS tem o sentido de dupla aceitação: a da economia liberal e a da democracia outrora apelidada de ``burguesa". Em honra do velho PCI, é preciso dizer que ele sempre soube se distanciar dos excessos totalitários, como a repressão à revolução húngara, a intervenção em Praga ou a guerra do Afeganistão.

Não se tinha, contudo, chegado ao ponto de ouvir Walter Veltroni, diretor do ``Unità" e candidato a vice-premiê na chapa de centro-esquerda, elogiar o anticomunismo, ao menos aquela sua variante inspirada no valor da liberdade.
Os ex-comunistas italianos estão cansados de um jejum de poder que durou meio século. Sempre a um passo da vitória, foram condenados à contínua frustração de vê-la escapar por entre os dedos, no último minuto, porque dois terços do eleitorado os consideravam uma ameaça à liberdade e aos valores democráticos.

Nunca conseguiram ultrapassar a barreira dos 37% do eleitorado e quando se preparavam para concluir com os cristãos de esquerda o ``compromisso histórico" capaz de abrir-lhes as portas do poder, o assassinato de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas obrigou-os a esperar mais 20 anos.

A paciência desta vez chegou ao fim e o PDS se diz preparado para governar. A fim de chegar lá, o partido é hoje o esteio da coligação de centro-esquerda cujo símbolo é a oliveira e tem no católico de Bolonha, Romano Prodi, seu candidato a primeiro-ministro.

Professor de economia respeitado, impulsionador das privatizações, Prodi é o mais apto a tranquilizar os eleitores não-comunistas de que eles nada têm a temer nem em relação à sua liberdade, nem em relação a seus bens se subir ao poder a aliança do compromisso histórico.

Por isso, insiste em que os mercados temem mais a vitória da ``incompetência liberalista" de Berlusconi do que sua vitória aliado aos ex-comunistas. Por isso também D'Alema acentua desejar uma ``Itália normal e segura", dá ênfase ao diálogo, ao tema da segurança, escolhe tons do azul e não de vermelho para a decoração do Congresso.

Saber se a nova fórmula da normalidade triunfará sobre a tática berlusconiana de continuar a apelar para o medo do comunismo é um dos aspectos imprevisíveis da aposta do PDS. O outro, mais importante e que fica para o artigo seguinte, é saber se nesse jogo o partido não arrisca perder sua alma ou o que lhe resta da velha identidade.
 

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