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Folha de S. Paulo - 1995

São Paulo - Brasil

 

A primeira revolta contra a globalização?

23/12/95

 

Rubens Ricupero

O ponto de interrogação é meu; o resto do título tomei emprestado de um artigo de Erik Izraelewicz publicado no "Le Monde" de 7 de dezembro. A "primeira revolta contra a globalização" consistiria, é óbvio, nas greves que paralisaram os transportes públicos franceses em boa parte deste mês.

Acabo de passar uns dias em Paris, a convite das autoridades francesas, justamente para discutir os aspectos da globalização que serão objeto da próxima Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento, que se realizará em fins de abril e início de maio de 96, na África do Sul. Pude, então, assistir não só ao final das greves mas também à discussão acerca de suas motivações e consequências.

O artigo do "Monde" começava por reconhecer que dezembro de 1995 não era maio de 1968, já que o movimento social recente não chegou a ter nem a amplidão nem a unidade do terremoto de 68.

Da mesma forma que há 27 anos atrás, porém, as manifestações de hoje seriam a expressão de um mesmo "mal-estar de fim de século", de uma mesma crise profunda da sociedade. Por detrás de reivindicações aparentemente heterogêneas, como os recursos para as universidades, as questões de aposentadoria, a defesa do serviço público, se esconderia "um medo comum diante do mundo incerto que emerge".

Esse mundo seria o da unificação do mercado em escala planetária, completando a obra iniciada há cinco séculos pelas viagens marítimas de descoberta. A abertura da rota das Índias por Vasco da Gama e das Américas por Colombo desencadeou, de fato, o processo pelo qual gradualmente, por bem ou por mal, civilizações até então isoladas foram postas em contato e integradas à economia do mercantilismo europeu.

Esse movimento atinge agora sua culminação. De um lado, no plano político, com o fim do comunismo e das divisões político-ideológicas da Guerra Fria; do outro, com o êxito da Rodada Uruguai e a tendência de abolir as barreiras remanescentes ao comércio e às finanças.

Há cinco anos, a economia de mercado abrangia cerca de 600 milhões de indivíduos, em grande parte habitantes de países desenvolvidos. Por volta do ano 2000, o mercado mais ou menos unificado englobará 6 bilhões de pessoas em todo o planeta.

Essa explosão sem precedentes se faz acompanhar, sobretudo nos países industrializados da Europa, de grave desestabilização. Em todos esses países havia-se implantado, pouco a pouco, um elaborado mecanismo de proteção social por meio de uma Previdência Social custosa e onipresente, legislação trabalhista minuciosa, serviços públicos sofisticados e deficitários.

Tudo isso se vê, de repente, questionado e ameaçado pela concorrência de outros países e pela necessidade de cortar despesas e eliminar déficits, a fim de preservar um mínimo de competitividade nos mercados internacionais.

O passivo das sociedades acostumadas ao bem-estar se torna cada vez mais pesado e sombrio: desemprego de mais de 10% da população (sem destacar casos muito mais graves, como o dos jovens), estagnação do poder de compra, falência dos sistemas de aposentadoria e de saúde pública.

Os setores dirigentes tentam aplicar a terapêutica clássica e rigorosa de saneamento financeiro, supressão do déficit e redução da dívida pública, mas se vêem repudiados por uma população que não os compreende nem os segue.

Como dizia recentemente Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Européia: "As elites têm a cabeça no mundo global; a população, no território nacional".

Ora, o problema é justamente que, num mercado globalizado, as antigas barreiras nacionais que antes serviam de anteparo e proteção, moderando a competição (e, frequentemente, alimentando a ineficiência), vão desaparecendo umas após as outras. A exacerbação da concorrência elevada a valor supremo em certas alturas tende, sem dúvida, a maximizar a eficiência. Quais serão, porém, os custos humanos da competição impiedosa em termos de derrotados, marginalizados, excluídos?

Ao menos por ora, é difícil perceber na Europa da globalização alguma euforia especial pela inauguração do que se anunciou como fase sem precedentes de prosperidade. Neste cinzento e triste inverno europeu, o que se encontra a cada passo, mais do que euforia, é insegurança, temor, apreensão.

Diante de emoções poderosas como essas, que mexem com o que de mais profundamente vulnerável existe no âmago do coração humano, pouco adianta argumentar que a globalização não é em si mesma a responsável pelo déficit da Previdência Social ou das estradas de ferro.

Tampouco serve de consolo minimizar o alcance do fenômeno, até o momento limitado à França. Alguns poderiam até sentir-se tentados a tudo atribuir a essa espécie de intermitente febre revolucionária que, de 30 em 30 anos, faz o fantasma da revolução de 1789 abalar a aparente solidez das fachadas parisienses _apenas para que, após algumas semanas, a vida retome o seu curso normal. Há algo mais debaixo dessa superfície de explicações desencontradas.

O que de fato impressionou todos os meus interlocutores foi a solidariedade despertada pelas greves. Mesmo os usuários de transportes públicos, cuja vida se viu infernizada pelas paralisações em pleno inverno, se comportaram com simpatia, reconhecendo que, no fundo, os grevistas defendiam não só os seus interesses específicos, mas um certo modelo social de organização.

É possível que o clima responsável pelo mal-estar seja não tanto a globalização, mas a estagnação do crescimento e do emprego há longos anos. É até possível argumentar que a globalização pode vir a ser mais parte da solução que do problema, sendo nesse sentido uma mudança histórica inevitável.

Não se deve, contudo, subestimar a profundidade da insegurança e do temor diante da mudança nem ignorar a necessidade de um esforço especial, a fim de evitar que esses sentimentos inspirem uma verdadeira revolta contra as transformações que se operam no mundo.
 

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