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Folha de S. Paulo - 1995

São Paulo - Brasil

 

Ainda a comparação entre Ásia e América Latina

30/09/95

 

Rubens Ricupero

A reunião da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) que se realiza em Genebra nesta época do ano é uma espécie de competição que permite classificar os países conforme seu desempenho. O exame deste ano confirma, uma vez mais, que os asiáticos continuam na liderança absoluta do campeonato do desenvolvimento.

Uma das comparações mais sugestivas nesse sentido é a que se faz no relatório da UNCTAD entre seis grandes países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru) e seis da Ásia (Cingapura, Coréia do Sul, Filipinas, Indonésia, Malásia e Tailândia).

Se tomarmos o investimento doméstico bruto (o dado mais significativo, pois vai determinar os resultados futuros), veremos que, entre os períodos 1984-89 e 1990-92, houve, em média, nos asiáticos aumento de 4%, enquanto os latino-americanos registravam taxa negativa de 0,6%.

Quatro dos asiáticos apresentam porcentagens de investimento superiores a 28% do PIB, chegando a 39% no caso de Cingapura e a 36,3% no da Coréia do Sul. Mais impressionante ainda é verificar que, já na fase anterior, esses países tinham taxas altíssimas, o que revela notável estabilidade na acumulação de capital.

Em contraste, a média dos latinos, que era de 18,4% no primeiro período, deslizou para 17,8% no segundo. Só dois melhoraram a posição de uma fase para outra, e apenas um, o Chile, de forma expressiva (mais 4,1%). O Brasil teve, infelizmente, o pior desempenho: conseguiu cair de 17,2% para 15,8% (isso foi antes da recuperação iniciada pelo Plano Real).

Escrevo de Washington, para onde vim devido a minhas novas funções na UNCTAD. Enquanto escrevo, lembro-me de ter assistido, nesta mesma cidade, 20 anos atrás, às cenas dramáticas da queda de Saigon na televisão, com as pessoas desesperadas que se agarravam aos helicópteros partindo do teto da embaixada americana.

Quem há de se lembrar, ainda, de uma crença em voga naquela época, a teoria do dominó? Segundo ela, a queda do Vietnã acarretaria a das demais peças do dominó: Tailândia, Malásia, Cingapura, Indonésia. Em parte em nome desse fantasma, mais de 1 milhão de vidas foi sacrificado.

Hoje, não só esses países são as estrelas do desenvolvimento, mas o próprio Vietnã, pragmaticamente, abandona as falidas receitas marxistas e se prepara para emergir como um dos próximos casos de sucesso.

Uma outra lição do exame da UNCTAD é a diversidade da situação dos latino-americanos, com o Chile e a Colômbia aparecendo como as melhores performances.

Não é à toa serem os dois únicos exemplos a merecer para seus títulos de dívida a classificação de "grau de investimento conferida pela Standard and Poor's e pela Moody's, uma espécie de três estrelas do guia Michelin (a Colômbia acaba de receber suas estrelas da Moody's).

Não há nisso nenhum milagre. Esses dois países já haviam atingido o equilíbrio fiscal antes de 1990, as inflações eram mais moderadas, houve aumento da receita tributária, os déficits do balanço de pagamentos foram menores e ambos dependeram muito menos do ingresso de capitais de curto prazo.

Em suas conclusões, a avaliação da UNCTAD concorda com a do Banco Mundial. A fim de aumentar substancialmente a taxa de crescimento daqui até o fim do século, a América Latina precisa melhorar o desempenho em três áreas-chaves: competitividade de exportações, poupança interna e investimento em infra-estrutura.

A primeira vai depender de um esforço para exportar não só produtos de baixo valor agregado, mas também manufaturados que incorporem tecnologia e perícia mais elevadas.

Para levantar o nível da poupança e dos investimentos, é necessário adotar controles sobre transações financeiras capazes de fechar os canais que ainda permitem altas rendas de aplicações improdutivas.

Finalmente, o investimento em infra-estrutura nos próximos cinco anos deveria atingir 4% do PIB. Essa taxa na Argentina e no Brasil não consegue chegar à metade do número necessário, embora o recente plano do governo brasileiro tenha iniciado uma reação encorajadora para recuperarmos o terreno perdido.
 

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