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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

O mundo visto de Cingapura

14/12/96

 

Rubens Ricupero

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, o primeiro astronauta russo, Gagárin, deu-nos a todos um instante de encantamento ao revelar que, vista de muito alto, a Terra era azul.

Foi como se o prosaico incolor de nossa vida de agitação e ansiedade, enegrecida e envenenada pela fuligem e poluição, de repente se transfigurasse em tudo aquilo que essa cor evoca: a pureza das estrelas, a beleza fria dos "montes e a paz que há neles, pois são longe", a serenidade do profundo mar azul e o silêncio dos espaços infinitos.

Penso nisso ao mirar do 33º andar de um hotel desta cidade de plexiglass e aço inoxidável a torrente equatorial que se derrama sobre o porto de Cingapura.
Qual é a cor da Terra, vista deste país singular? Seguramente, não é o azul da meditação e da tranquilidade interior. Será, talvez, o cinza sujo do silicone, a cor da areia desta era de computadores e eletrônica, setor que representa 70% do valor das exportações locais.

É, quem sabe, a cor característica do mundo dos negócios e do comércio _ou melhor, a ausência de cor que compulsoriamente uniformiza o exército de executivos de roupa e pasta igual.

Faz dez anos mais ou menos, o professor Richard Rosecrance, da Universidade de Cornell, publicou um livro profético, "A Ascensão do Estado-Comerciante". Nele se dizia que coexistiram, um ao lado do outro, dois sistemas internacionais. O primeiro era o dos países fiéis ao esquema tradicional dos Estados nacionais, empenhados no uso de meios políticos e militares para se realizar por meio de uma base territorial e frequentemente em conflito por causa das fronteiras desse território. Os exemplares mais acabados desse tipo eram, na época, EUA e URSS.

Paralelamente, porém, vinha se criando um novo paradigma, encarnado no êxito da Alemanha e do Japão. Derrotadas na arena do sistema do passado, essas duas nações tinham criado um espaço novo para alcançar prosperidade para seus povos, por meio do sucesso comercial e do crescimento econômico.

Caso a URSS e seus seguidores se voltassem para a disputa econômica e não mais de ideologia e armas, o sistema internacional tenderia a se unificar. A competição não desapareceria entre os Estados, mas assumiria a forma menos destrutiva da concorrência comercial.

Uma década mais tarde, é interessante ver como muito da previsão se converteu em realidade.

Sem disparar um foguete, os EUA saíram vencedores do confronto no âmbito tradicional, em grande parte por terem sido, desde o início, os vitoriosos na corrida econômica. Tornaram-se, assim, os mestres do jogo, tanto na arena política-estratégica como na econômico-comercial.

O outro lado jogou todas as fichas no poder dos armamentos nucleares e não podendo usá-los, sob pena de suicídio, acabou derrotado nos dois tabuleiros. Confirmou-se, uma vez mais, o que dizia Napoleão dos meios militares: "Pode-se fazer tudo com as baionetas, menos sentar-se em cima delas".

A China, mais perceptiva, já havia optado apelo caminho do comércio e se poupou, desse modo, do desastre humilhante do colapso e desagregação do seu vizinho e ex-correligionário.

O momento é, portanto, de nítido predomínio do sistema mercantil. Este não elimina por completo o outro _basta olhar para a Bósnia, o Zaire, as tensões asiáticas, China-Taiwan, Índia-Paquistão etc. _,mas o mantém, até agora, sob relativo controle e restrito à distante periferia, de onde os ecos das lutas não chegam a perturbar a euforia dos mercados internacionais.

A melhor encarnação do modelo de Rosecrance é esta cidade onde, apropriadamente, se celebram os ritos consagratórios da primeira reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), instituição-símbolo da globalização.

Ao separar-se traumaticamente da antiga federação com a Malásia, em 1965, Cingapura viu-se em situação precária, da qual saiu graças à eficiência com que pôs em prática conselhos da missão da ONU chefiada pelo economista holandês que se tornou o principal assessor do governo até seu falecimento recente.

Tendo sido abruptamente amputada do seu "hinterland" natural, a nova entidade não teve outro recurso senão o de fazer do mundo o seu quintal.

Abriu-se sem restrições aos investimentos das transnacionais quando estas eram olhadas com desconfiança pela maioria dos países em desenvolvimento. Mais que opção, foi necessidade imposta pelas circunstâncias e caminho pouco seguido por economias de sucesso da Ásia.

Mais do que Hong Kong, em vias de reabsorção pela mãe China, Cingapura é a quintessência da organização estatal tornada possível pelo sistema mercantil da globalização. Quase não tem território e muito pouco dos atributos ligados ao sistema dos Estados territoriais, como as Forças Armadas, por exemplo.

Mais do que o Japão, é como se fosse uma grande transnacional de 3 milhões de funcionários. Sua economia doméstica e seu comércio exterior são praticamente a mesma coisa. Sua visão nacional se confunde com os horizontes do planeta. É, de fato, o primeiro e talvez único exemplo de país inteiramente globalizado, que realizou, melhor do que os americanos, o programa do presidente Calvin Coolidge: "The business of the United States is business".
É natural, assim, que aqui se comece a discussão de um problema central do nosso tempo: o das fronteiras naturais do comércio. Num sistema de predomínio mercantil, no qual os bloqueios navais e desembarques de fuzileiros tendem a se tornar raros, é grande a tentação de utilizar o sistema de sanções comerciais da OMC para promover objetivos extracomerciais.

É o que se está vendo na tentativa de aplicar esse único sistema efetivo de sanções a temas como os padrões trabalhistas, os direitos humanos, o meio ambiente.

Caso não se defina quais são as fronteiras naturais e legítimas do sistema comercial, corre-se o risco de transformar a OMC em poderoso instrumento de governança global, em meio privilegiado de exercer, como diria o finado Michel Foucault, as funções de vigiar e punir em escala planetária.

É possível que para uma cidade-Estado mercantil como Cingapura o comércio não deva ter fronteira. Será, porém, que essa visão do mundo é desejável ou aceitável para países como a China, a Índia, a Rússia ou o Brasil?
 

...


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