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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

Um só Deus ou 330 milhões de deuses?

16/11/96

 

Rubens Ricupero

Cheguei a Nova Déli para uma visita oficial no dia do Festival de Diwala, quando todos, mesmo os mais pobres, acendem velas e luzes e a cidade é iluminada por fogos de artifício.

No caminho do aeroporto para a cidade, um dos funcionários que me receberam lembra a frase do historiador suíço Burkhardt: "A negação da diversidade está na origem da tirania". Logo depois, um dos meus acompanhantes observa que a Índia, com 940 milhões de habitantes, tem 18 línguas oficiais, 813 dialetos e 330 milhões de deuses!

Imagino o espanto de Vasco da Gama ao mergulhar nesse universo de complexidade e ao inaugurar, 500 anos atrás, o que o historiador hindu Pannikar chamou de "era Vasco da Gama" na sua "História da Dominação Ocidental na Ásia".

A travessia até Calicut e a viagem de Colombo ao que ele tomou pelo Japão mas era a franja da América só foram possíveis graças ao desenvolvimento da caravela, aos avanços na arte da navegação com a introdução do sextante e da bússola, aos aperfeiçoamentos da cartografia.

Isso tudo se deve, por sua vez, à revolução cultural do Renascimento e às invenções jurídicas que viabilizaram o capitalismo mercantilista. Conforme mostrou Tullio Ascarelli em suas "Sete Lições sobre o Direito Comercial", tão ou mais importante do que as invenções mecânicas de máquinas e instrumentos foram as construções intangíveis no domínio do Direito: a letra de câmbio, que possibilitou a transferência de quantias importantes sem o risco do transporte físico do ouro pelos caminhos infestados de salteadores da época, o seguro de carga marítima, a sociedade por ações, permitindo reunir grandes capitais com a responsabilidade de cada um limitada ao valor das ações por ele subscritas.

As mesmas inovações na técnica e no Direito estão na raiz da Revolução Industrial e nos demais degraus sucessivos pelos quais avançou a tendência à globalização, cuja etapa atual é igualmente o produto dos imensos saltos ocorridos nos transportes, nas telecomunicações, na informática, abrindo o caminho à extraordinária explosão a que hoje assistimos no comércio, nos investimentos, nos fluxos financeiros, na fragmentação dos estágios de produção e sua distribuição por localizações geográficas diferentes.

Longe, portanto, de ser um fenômeno essencialmente econômico, a globalização é, antes de tudo, o resultado da cultura e das idéias. Essas forças vêm agindo há cinco séculos, com avanços contínuos e recuos temporários, no sentido de criar um espaço unificado para a ação do homem, não só no domínio dos mercados e da produção, mas sobretudo por meio da superação do isolamento e da intensificação dos contatos e da recíproca fertilização de idéias e conhecimentos entre os povos.

Além da cultura, o que determina decisivamente a possibilidade e o ritmo da globalização é o sentido das mudanças políticas. As duas guerras mundiais, a Revolução de Outubro, a ascensão do nazi-fascismo agudizaram os conflitos e impuseram um retrocesso de décadas ao progresso global. Já a queda do Muro de Berlim, a desagregação do comunismo real e a superação da divisão ideológica da Guerra Fria aumentaram o grau de convergência e impulsionaram as forças de integração.

Unificação do espaço não deve, porém, ser confundida com uniformidade. A Revolução Industrial começou na Inglaterra e aos poucos se espalhou por outros países. Mas esses não replicaram como clones o modelo inglês.

Enquanto a Inglaterra vitoriana, segura de sua superioridade competitiva, mantinha uma tarifa média de 3% a 5%, França, Alemanha e Japão protegiam suas indústrias com barreiras de 12% a 14% e os Estados Unidos, com 33%! Da mesma forma é ingênuo pensar que a atual fase da globalização irá multiplicar por toda parte miniaturas dos EUA.

Convergência de padrão e afirmação da identidade cultural são forças que interagem numa relação dialética, tornando possível a unidade na diversidade.
Quem duvida basta visitar a Índia em pleno Festival das Luzes para ver como a economia se desenvolve e moderniza sem que nenhum dos 330 milhões de deuses se sinta minimamente incomodado pela emergência do país como um dos líderes na exportação do mais sofisticado software!
 

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