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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

O que falta à neo-utopia?

17/02/96

 

Rubens Ricupero

No editorial intitulado "A Esperança", o redator-chefe do ''Monde Diplomatique'', Ignacio Ramonet, lembrava, a propósito das greves francesas do fim do ano passado, um velho princípio republicano: os cidadãos preferem a desordem à injustiça.

A indiferença perante a justiça seria, assim, o grande ponto fraco da neo-utopia da globalização.

O outro seria a demora em demonstrar, na prática, que ela é capaz de produzir mais crescimento e mais empregos. Em outras palavras, de dar razões concretas à esperança.

Comecemos pelo segundo aspecto. Qual é a razão de ser da globalização?
É a promessa de que a unificação do espaço econômico até se confundir com os limites do planeta trará consigo uma alocação mais eficiente de recursos e, em consequência, uma economia de escala gigantesca, muito mais satisfatória para produtores e consumidores.

Qual é a realidade diante de nossos olhos? Se datarmos os inícios da globalização do final dos anos 80, temos já uns sete ou oito anos para cotejar com fases precedentes.

Ora, o que vemos no período é um crescimento medíocre, quase sempre inferior a 3% cento e consistentemente um ponto percentual abaixo da média dos anos 70, época de duas crises petrolíferas.

Quanto à fase anterior, dos chamados "30 anos gloriosos" de acelerado crescimento no imediato pós-guerra, seria até covardia evocá-la.
Mais perto de nós, o que vemos neste fim de fevereiro?

A Alemanha com 10,8% de desemprego, outros europeus com 11% ou 12%, o Japão querendo apenas sair de uma destrutiva depressão e até a economia americana dando sinais de queda de produção e aumento de desemprego.

As previsões otimistas foram constantemente humilhadas pelos fatos.

Uma das últimas desilusões foi a de que a conclusão do Mercado Comum Europeu, em 1992, iria acelerar em vários pontos percentuais o crescimento da Europa.

Compreensivelmente, as pessoas querem fatos, não projeções ou promessas.
É óbvio que esse tipo de paralelo conduz a distorções. As circunstâncias dos períodos anteriores _a reconstrução de economias destruídas pela guerra, por exemplo_ eram de caráter único. É preciso levar em conta os fatores cíclicos, conjunturais.

Não seria justo, sobretudo, esquecer que a globalização é um processo, que ela se encontra em estágio inicial e seus diversos componentes _a liberalização comercial, a transnacionalização dos investimentos, a explosão dos fluxos financeiros_ avançaram de forma desigual e incompleta.

Poder-se-ia até afirmar que as economias mais adiantadas na inserção global _os ''tigres asiáticos''_ têm sido recompensados com a expansão mais rápida.
Nada disso, porém, servirá de consolo para o operário alemão que perdeu seu emprego ou o ferroviário francês ameaçado na sua expectativa de aposentadoria.

Pedir a esses trabalhadores que se sacrifiquem no presente em troca de benefícios futuros e incertos envolve duas questões espinhosas.

A primeira, que já vimos, é provar que, em lugar de desemprego ou estagnação salarial, como agora, a globalização é capaz de produzir uma melhora de vida que não pode tardar indefinidamente.

A segunda é convencer a população de que os sacrifícios e esforços exigidos no momento estão sendo repartidos de forma equitativa e proporcionada.
Um exemplo concreto indica a dificuldade da empreitada.

Na Europa de hoje, dois tipos de medidas vêm sendo apresentadas como requisitos prévios indispensáveis a que o continente se torne competitivo na globalização: a redução do déficit público, pressionado pela Previdência Social, e a flexibilização das leis sobre despedidas e emprego em geral.

Em ambos os casos, o argumento é o mesmo: só assim será possível crescer mais rápido sem perigo do retorno da inflação.

O problema, contudo, é que, nessas duas situações, quem deve pagar o preço mais alto são os mais pobres e vulneráveis.

Não haveria nenhuma outra alternativa, como se afirma?

Em relatório de setembro de 1995, a Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) sugeria que se levantasse, de uma só vez, uma taxa sobre os ganhos financeiros, como forma mais rápida e menos penosa de reduzir o endividamento dos governos e restabelecer condições do crescimento acelerado.

A reação foi no sentido de considerar a sugestão impraticável e até perigosa, por mexer com os mercados financeiros _cujo notório nervosismo e histérica instabilidade poderiam, diante de tais idéias, dar lugar a reações dignas de prima-donas de ópera...

Não é de se admirar, assim, que alguns evoquem a frase de um famoso líder sindical americano do passado: "Se o trabalho duro e o salário austero fossem tão bons para nos dar felicidade, como se diz, os ricos ficariam com ambos e não nos deixariam sequer uma amostra"...

Afinal, por que foi que o comunismo real acabou? Porque ele não foi capaz de produzir benefícios palpáveis de prosperidade em tempo hábil e porque, ao final, o inchamento da nomenclatura começou a pôr em questão os progressos alcançados em matéria de justiça e igualdade.

Sem minimizar, é claro, sua contínua incompatibilidade com o ideal de liberdade.
O filósofo russo Alexander Herzen condenou com sarcasmo as utopias que tratavam as massas como miseráveis barqueiros do Volga, mergulhados na lama e arrastando com grossas cordas uma barcaça cuja bandeira traz a inscrição "progresso no futuro" (um pouco como em nossa bandeira).

E concluía que toda "meta infinitamente remota não é meta, mas sim um engodo".

A meta, afirmava, tem de ser mais ao alcance da mão: ao menos o salário do operário ou o prazer do trabalho realizado.

É uma verdade que se aplica ao socialismo utópico do século 19, ao comunismo real do século 20 e à globalização do ano 2000.

Mesmo nestes tempos em que tanto se fala de fim da história e fim das ideologias, que ninguém se iluda: sem que a vida do povo melhore de forma palpável, sem justiça, a luta continua.

...


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