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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

Aldeia global ou clube de ricos?

20/01/96

 

Rubens Ricupero

Tempos atrás, lembrei nesta coluna a frase do matemático Norbert Wiener, um dos fundadores da cibernética: ''Ser informado é ser livre". Ele queria dizer que liberdade significa poder escolher, mas para isso é preciso ter informação sobre a existência de opções.

Hoje a informação começa a ser uma condição não só da liberdade, mas também da prosperidade e, quem sabe, até da sobrevivência econômica.

Uma das muitas contradições de nossa época é justamente o contraste entre uma informação cada vez mais caudalosa e um acesso muito desigual e seletivo a essa informação.

O abismo entre países ricos e pobres em matéria de informação vem de ser realçado pela Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), a organização em que trabalho, num relatório intitulado "A Tecnologia da Informação para o Desenvolvimento".

Quase 30 anos atrás, em 1967, quando a revolução da informação estava em sua infância, um estudo do Departamento do Comércio indicava que 46% do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano e 50% da renda do trabalho procediam de atividades ligadas ao conhecimento, à comunicação e à informação. Atualmente a tecnologia da informação já se tornou o componente mais importante da formação do capital fixo nos países avançados, sobretudo sob a forma de instrumento para pesquisa e desenvolvimento, design, marketing, administração e gerência.

Ora, o que o estudo da Unctad revela é a extraordinária concentração do mercado das tecnologias da informação. Representando perto de US$ 500 bilhões em 1995, esse mercado (excluídas as telecomunicações) se situa quase em 90% nos países industrializados (39% nos EUA, 34,5% na Europa Ocidental e 16% no Japão). Para todo o resto do mundo sobra apenas cerca de 10%.

A tecnologia da informação é considerada a maior indústria global, assim como a de crescimento mais rápido e a primeira em lucratividade. Alguns historiadores econômicos chegam a afirmar que o impacto da tecnologia da informação na sociedade faz dela uma "segunda revolução industrial".

A tecnologia da informação é geralmente definida como toda tecnologia baseada na eletrônica que pode ser usada para coletar, armazenar, processar a informação e proporcionar o acesso ao conhecimento. Ela compreende, portanto, tanto o equipamento (hardware) e o software como os serviços fornecidos.

Para se ter uma idéia do contraste existente nesse setor, bastam duas informações significativas: 70% do faturamento total do mercado corresponde a apenas 20 empresas, das quais dez dos EUA e seis do Japão. No outro extremo, excetuando a África do Sul, os gastos de todos os países africanos com equipamento de telecomunicações representaram em 1986 apenas 0,7% dos gastos mundiais.

A consequência dessa gravíssima assimetria é que da famosa "aldeia global" de MacLuhan resta um sonho. Na prática o acesso a redes como a Internet, da ordem de 40 milhões de usuários aproximadamente, é em grande parte limitado aos países industrializados e às classes sociais mais prósperas.

Dessa forma estamos longe ainda de poder realizar o voto expresso pelo presidente da União Européia, Jacques Santer, de que "a sociedade da informação contribuirá a uma participação aberta dos países em desenvolvimento na economia global (...) através de tecnologias de custo declinante que lhes permitirão queimar etapas na criação de suas infra-estruturas".

Enquanto isso não acontece, não se pode deixar de dar razão ao relatório quando afirma que "o risco de marginalização adicional das economias menos desenvolvidas em relação à revolução da informação é um dos desafios mais importantes que a comunidade internacional deverá resolver no limiar do século 21".

Para nós brasileiros, uma das partes mais interessantes do estudo da Unctad é o capítulo sobre a indústria de telecomunicações no Brasil escrito pela pesquisadora Maria-Inês Bastos.

Ela começa por mostrar que o Brasil é um dos raros países em desenvolvimento dotado de capacidade doméstica para produzir equipamento de telecomunicação, inclusive de tipo digital, embora, acrescenta, "não o de maior sucesso". De fato, o equipamento nacional não é competitivo em termos de preços, conforme sugerem as modestas cifras das exportações (média de US$ 30 milhões no período de 1977-86, ou cerca de 3,8% da produção).

Junto com a Rússia, a China e a Índia, o Brasil apresenta um imenso mercado potencial para equipamento de telecomunicação. Seu atraso é igualmente imenso. A fim de aproximar-se do nível da Rússia, teríamos de dobrar a nossa teledensidade, e multiplicá-la por cinco para alcançar o nível da Coréia. Dentro do grupo de países de renda média alta de que é membro, o Brasil faz pobre figura, com a média de apenas sete linhas por cem habitantes, comparado a uma teledensidade média de 13,5 linhas por cem para os demais.

Outro setor em que perdemos terreno, em cotejo com a Coréia, Taiwan, mesmo a China, é no domínio de tecnologia digital, adotada em apenas um quinto da rede brasileira.

Da forma elogiosa, a autora do trabalho destaca os bons resultados do esforço do CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento) estabelecido pela Telebrás (Telecomunicações Brasileiras) com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Apesar do nível relativamente baixo de investimento, o CPqD foi capaz de produzir um número apreciável de patentes e de criar uma base substancial em telecomunicação digital.

Esse êxito contrasta com o triste desempenho da política de informática, cuja abordagem das atividades de pesquisa na base de firmas individuais, sem vínculos de colaboração com núcleos universitários, acabou por revelar-se incapaz de resistir ao impacto da abertura do mercado eletrônico brasileiro.

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