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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

''Um país normal e seguro''

26/10/96

 

Rubens Ricupero

Foi esse o lema do congresso do principal herdeiro da cisão do poderoso Partido Comunista Italiano, o atual Partido Democrático da Esquerda, mais conhecido pela sigla PDS e pela imagem de um carvalho ou ''quercia'' _ambos símbolos cuja semelhança com personagens ou agremiações políticas brasileiras não passa de coincidência.

Quando era embaixador em Roma, há ano e meio atrás, compareci ao congresso e me surpreendi com o esforço deliberado para eliminar qualquer evocação do passado revolucionário do partido. Nada de foice e martelo, nenhuma nota lembrando os cânticos da insurreição ou da Resistência, a Internacional ou o Bandiera Rossa. Aliás, o vermelho brilhava pela conspícua ausência. Predominavam como cores os tranquilizantes azul e branco, adornando imensos painéis fotográficos de duas criancinhas brincando com blocos de armar.

Parece estranho que ex-comunistas, mas ainda gente de esquerda, erijam em meta e aspiração a realizar a mera normalidade, que se pode facilmente confundir com o equivalente do status quo. Sucede, porém, que a palavra tem sentido muito preciso no contexto político da Itália, cuja anormalidade ou excepcionalidade decorriam da presença do maior partido comunista do Ocidente num momento em que o confronto com a União Soviética tornava impensável a hipótese de o partido chegar um dia ao poder.

Dessa impossibilidade de alternativa derivava a singularidade de haver sido a Itália o único país da Europa Ocidental onde a esquerda jamais exerceu o poder central, tendo de contentar-se com administrações municipais ou regionais. Daí também a tolerância com a corrupção da Democracia Cristã ou dos seus apodrecidos aliados socialistas, que levou um famoso escritor a aconselhar seus leitores em vésperas de eleições: ''Tapem o nariz e votem pela Democracia Cristã.''

Tudo isso vem a propósito da sensação que me transmite o Brasil de uns dias para cá, desde a minha chegada após ausência de quase um ano. Normalidade tem sido a impressão predominante até mesmo na relativa chatice do noticiário, menos animado hoje pela sucessão de denúncias de roubalheiras e de crimes tenebrosos que faziam dos jornais televisivos uma cópia da página policial.

Em nosso caso, a excepcionalidade provinha sobretudo de uma inflação crônica que se perpetuava há mais de três décadas em patamares sempre mais assustadores, alimentando a ansiedade, aguçando os conflitos sociais, destruindo a fé no valor do trabalho e da poupança, corrompendo costumes e instituições, ameaçando as bases da própria sociedade.

Encontrei um país de nervos menos excitados, onde a estabilidade gradualmente se consolida e onde com ela retorna um grau mínimo de previsibilidade e confiança no futuro. No terceiro ano do Real, a inflação se encaminha para menos de dois dígitos e os índices mensais deixaram de merecer a atenção central do noticiário.

Não é assim de admirar que a agenda política seja dominada pelo debate da reeleição. O simples fato de que esse tema tenha adquirido credibilidade indica que a hipótese de dar continuidade ao presente passou a ser pelo menos admissível, se não desejável.

O mais interessante é que, longe de se confinar à esfera federal, o fenômeno se estendeu ao nível mais próximo da população. Com efeito, quase por toda parte, as eleições municipais assinalaram o ocaso e a derrota das ideologias e a preferência pela continuação de administrações percebidas como eficazes, à direita como à esquerda.

É claro que essa normalidade não significa a solução da imensa maioria dos problemas estruturais brasileiros. Apenas removeu-se a pedra que, no meio do caminho, obstruía a passagem e impedia a visão dos obstáculos. Dissipado o nevoeiro da inflação, percebem-se com nitidez os problemas reais, os antigos e os criados ou agravados pela nova situação.

A lista deles é extensa. A começar pelos juros. Não será obstinação injustificável num erro de avaliação inicial a teimosia em manter juros de mais de 25% numa economia que caminha para inflação de 8%, talvez, em 1997? Como, nessas condições, controlar o déficit, inchado pelo serviço da dívida pública? Será viável, sem tal controle, voltar a acelerar o crescimento e evitar um desemprego em níveis argentinos?

Como se vê, a normalidade é conquista relativa e sempre ameaçada. Se não agirmos em tempo, a qualquer momento, em lugar da monotonia da normalidade, voltaremos à excitação da maldição que os chineses lançam sobre os inimigos, ao desejar que eles possam ''viver em tempos interessantes''.

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