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Folha de S. Paulo - 1996

São Paulo - Brasil

 

Segundo tempo: a vitória do Real se consolida

29/06/96

 

Rubens Ricupero

Um ano atrás escrevi nesta Folha que, no final do primeiro tempo, o Real ganhava folgadamente. Hoje, a poucos minutos do apito marcando o fim do segundo ano, não há dúvida de que a vitória se consolidou um pouco mais.
Vejamos o balanço do jogo até agora, começando pelos tentos a favor.

1º) Estamos com a mais baixa inflação em 30 anos, mais de uma geração e o significativo é que ela ainda está caindo.

2º) A correção monetária e os mecanismos de realimentação automática da inflação estão sendo eliminados, um a um, e sua memória começa a apagar-se no inconsciente coletivo.

3º) O difícil teste do reajuste das tarifas públicas foi absorvido sem maiores abalos.

4º) O sistema de bandas cambiais tem permitido acompanhar com flexibilidade a inflação interna e o exemplo das tarifas indica que, progressivamente, o câmbio poderá adquirir mais realismo sem nenhum efeito catastrófico.

5º) As exportações se recuperam, as importações se moderaram e ficaram mais confortáveis as perspectivas da balança comercial e da de pagamentos.

6º) A economia brasileira foi das poucas que conseguiram crescer na América Latina, absorvendo melhor do que outras o impacto da crise mexicana. A taxa de crescimento foi moderada, mas representou, ainda assim, um apreciável avanço em termos de renda per capita, em razão do decréscimo acentuado da taxa demográfica.

7º) Os investimentos estrangeiros diretos, melhor indício da confiança da comunidade internacional nas perspectivas da economia brasileira a longo prazo, cresceram de forma impressionante e voltaram a fazer do Brasil um dos destinos favoritos dos investidores.

8º) Os demais fluxos financeiros voltaram a afluir, recuperando-se do susto da crise mexicana.

9º) Em consequência, o nível de reservas ultrapassou o recorde de US$ 50 bilhões num ano em que muitos latino-americanos tiveram o resultado oposto.

10º) O mais importante foi a confirmação, por um cálculo confiável, de que mais de 5 milhões de brasileiros se libertaram da pobreza absoluta a que haviam sido condenados pela inflação crônica.

No placar negativo temos de debitar:
1º) A volta do déficit orçamentário em 1995 e, apesar da tendência para sua redução no corrente ano, a persistência das raízes do problema: a indisciplina fiscal de Estados e municípios, as perdas das estatais, os desequilíbrios estruturais da previdência e da administração pública.

2º) Os altos juros que o Banco Central é obrigado a impor a fim de evitar que a volta dos déficits provoque, por sua vez, o retorno da inflação. As consequências são conhecidas: escassez de crédito, aperto no consumo, desaceleração do crescimento, desemprego, aumento da dívida pública interna.

3º) O insucesso, por razões pouco divulgadas, do mecanismo que o Banco Central e o Ministério da Fazenda haviam criado com vistas a preparar o sistema bancário, tanto oficial como privado, para o impacto da queda brusca da inflação. A ineficácia do esforço, inevitável ou não, acabou por provocar a sucessão de megacolapsos bancários cujos custos financeiros e políticos tiveram peso tão negativo durante este ano.

Lembrei no artigo anterior que a comparação com o futebol é apenas uma imagem. Na verdade, após o segundo, haverá um terceiro, quarto tempo e assim por diante, pois se trata de um processo, não de um jogo.

Limitei-me ao que pode ser rigorosamente atribuído aos méritos ou falhas do plano econômico. Muitas das derrotas, como as das reformas no Congresso, decorrem do sistema político, não de defeitos do plano.

A estabilização é fundamental, mas não passa de precondição para as reformas legais e a mudança social. Isolada, ela ainda tem fôlego para algum tempo, não, porém, para sempre. É só um começo. Após dois anos, contudo, não se pode negar que é um bom, um sólido começo.


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