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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

A cinza das horas

07/06/97

 

Rubens Ricupero

Vermelho ou negro, revolução ou reação, eram as alternativas dos tempos dramáticos dos heróis de Stendhal na guerra napoleônica ou dos de George Orwel e André Malraux na da Espanha.

Hoje parece que todas as cores desbotaram e se confundem na garoa enevoada das indefinições. Contam que o diretor do serviço público inglês perguntou a um burocrata na hora da aposentadoria se ele havia aprendido alguma coisa em 30 anos como funcionário. A resposta veio pronta: _''Certamente, sir, aprendi a distinguir as infinitas gradações do cinzento''.
É a impressão que se tem nestes dias ao acompanhar as sucessivas derrotas conservadoras na Inglaterra e na França e o debate político em outros países como a Alemanha e a Itália.

Em outras épocas mais excitantes, é fácil imaginar a sensação que teria provocado a avalancha que varreu o poder dos herdeiros de Thatcher, após 18 anos de reinado em Londres. Ou o susto que se propagaria nos meios financeiros de Paris com o retorno dos socialistas numa coabitação capaz de azedar e degenerar em divórcio.

Desta vez os mercados se alegraram com a vitória do Labour, coisa nunca vista antes na City. Se na França houve uma queda efêmera, não tardou que a confiança, a euforia talvez irracional dos especuladores, logo se restabelecesse. É como se, na sua sabedoria complacente, os mercados fizessem eco à frase de Tancredi ao príncipe de Salina, para explicar por que aderia a Garibaldi: _''É preciso que tudo mude, se queremos que tudo permaneça como é''.

Os mercados sabem, de fato, ou intuem que, em toda a parte, a margem de escolha dos governos se encolheu a ponto de tornar-se às vezes imperceptível. E não apenas devido ao determinismo dos fatos econômicos ou da globalização, como se diz, mas por causa da tirania dos próprios mercados.

A queda do muro de Berlim pulverizou o comunismo real. A decisão de Maastricht sobre a moeda única liquidou, por sua vez, a social-democracia, real ou aparente.

Anos atrás, num momento de desânimo e europessimismo, a decisão de passar do mercado comum à unificação da moeda foi a fórmula inventada pelo social-democrata Jacques Delors para eletrizar os combalidos europeus. É o que os franceses chamam de ''fuite en avant'', uma fuga para a frente.

Na hora, a idéia deu certo. Ninguém imaginou, porém, que ao chegar a data fatídica, a Europa estaria se afogando no desemprego, com quase 4,5 milhões de desempregados na Alemanha e mais de 3 milhões na França.

O normal seria recorrer aos gastos públicos para estimular a economia e não se preocupar com o déficit temporário do orçamento. É o que fez o Japão, por exemplo, para sair da recessão com uma injeção de quase US$ 200 milhões na economia.

Acontece que os critérios rígidos de Maastricht não deixam margem para usar o orçamento como arma anticíclica. Como na história do meu colega, o poeta Carlos Felipe Saldanha, sobre o mágico Houdini, tão bem amarrado que, há mais de 67 anos no fundo do mar, tenta desembaraçar-se de suas correntes...

Todos concordam que os critérios são arbitrários. Por que déficit de 3% do PIB e não de 3,2% ou de 2,8%? Não seria o caso de flexibilizar os critérios a fim de combater o desemprego? O bom senso aconselha dizer sim, mas o temor da reação dos mercados paralisa os governos. O cúmulo do absurdo é ver socialistas e ex-comunistas sacrificarem os desempregados ao Moloch dos mercados, que adoram engolir gente viva, só se inquietando quando o desemprego baixa, reduzindo a oferta de carne fresca. Afinal, para o parasita que vive de renda financeira, o risco de aumento da inflação comove mais do que o sofrimento de seres humanos sem trabalho.

Foi por isso que, na França de Mitterand ou na Espanha de Felipe González, a direita se elegeu com as bandeiras de luta contra o desemprego e as fraturas sociais. Uma vez no poder, as metas da moeda única e o alinhamento com a Alemanha impuseram sua lógica. Ao tomar posse como primeiro-ministro, Alain Juppé se comprometeu a derrubar o desemprego: _''É nisso que queremos ser julgados, quando chegar a hora''. O desemprego era então de 11,5%. Chegou a hora e a taxa era de 12,8%. O resultado foi o que se viu.

No Brasil, a margem também não é lá essas coisas. Uma pinça nos aperta de dois lados. Por cima, o provável déficit comercial de US$ 12 bilhões nos faz dependentes de recursos externos atraídos pelos nossos altos juros. Por baixo, esses mesmos juros, aplicados ao serviço da dívida interna, tornam difícil equilibrar o orçamento ou investir no social e na infra-estrutura, mas continuam a fazer crescer a dívida como num círculo infernal. O ideal seria baixar os juros, mas, se fizermos isso, estimulamos a economia, aumentamos o déficit e vamos precisar de mais dinheiro de fora.

Resta ver se desta vez os socialistas franceses encontrarão uma solução inovadora para o dilema desemprego versus moeda única. O Labour de Tony Blair tem de achar uma fórmula eficaz para reduzir o desemprego, como vinham fazendo os conservadores, mas sem o preço da política de Thatcher, que era o agravamento das desigualdades sociais. Quanto a nós, é preciso ver se rompemos as duplas cadeias do déficit externo e da dívida interna crescendo como bola de neve. Todos têm de provar, por fim, que ser social-democrata hoje em dia não significa, como acusava o antigo Partidão, resignar-se a ''administrar em favor da burguesia a crise do capitalismo''.

...


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