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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

A Alemanha: do Carnaval à Quaresma

08/02/97

 

Rubens Ricupero

Em tempos de conflito, é preciso escolher seu lado. Católico ou protestante, pró ou contra a Revolução Francesa, comunista ou fascista, as opções são em geral contrastantes, em preto-e-branco.

São épocas pouco propícias aos homens razoáveis, amantes da moderação e dos matizes. Falando do protótipo desses homens, Erasmo de Roterdã, Bobbio lembrava que era comum, durante a Reforma, comparar as duas atitudes com a frase: ''Erasmus dubitat, Lutherus asseverat''.

O amigo de Erasmo, Thomas More, construiu um modelo de sociedade ideal na ilha da utopia, palavra inventada a partir do grego e significando ''em lugar nenhum''.

Desde então, os homens não se cansam de procurar situar essa ilha num lugar bem preciso. O nosso século assistiu, por exemplo, a uma sucessão caleidoscópica de candidatos a abrigar a ilha dos sonhos, logo descartados por uma utopia melhor.

Foi de início a União Soviética, assim descrita pelo jornalista americano Lincoln Steffens: ''Acabo de ver o futuro e ele funciona''. Mais tarde, tiveram seu momento de glória a China maoísta, a Cuba de Guevara, mais que de Castro e, por inverossímil que pareça, até a Albânia!

Quando finalmente as utopias leninistas tomaram o caminho da lata de lixo da história, o mundo se descobriu órfão de uma verdadeira alternativa ao medíocre status quo. O pior é que começaram a ser questionadas até mesmo as variantes mais moderadas do capitalismo, como o modelo sueco ou escandinavo da social-democracia.

No momento em que o conflito ideológico de ontem passou a ser substituído pela convergência globalizante de hoje, indaga-se se ainda tem sentido, como se fazia até há pouco, falar na existência de três modalidades principais da economia de mercado: a americana, a japonesa e a alemã.

Esta última, o famoso ''modelo renano'' como o chamam os franceses ou ''economia social de mercado'', se diferenciava da americana por três características que, em certa medida, partilhava com a japonesa. Eram elas: 1ª) a busca do consenso entre os parceiros sociais, governo, sindicatos e empresários; 2ª) a vocação social da economia, expressa, entre outros aspectos, pela lei que define a empresa não só pelo objetivo do lucro, mas pelos seus deveres para com os empregados e a comunidade; 3ª) a forma de financiamento, sobretudo por meio dos bancos, de preferência à Bolsa de Valores.

Não faz muito, tais elementos eram elogiados como as causas do milagre alemão. Assim, o consenso explicava a paz social, a raridade das greves, a continuidade econômica. O financiamento bancário a longo prazo daria aos alemães uma superioridade sobre os americanos, supostamente condenados pelo imediatismo da Bolsa a produzir lucros a curto prazo, à impossibilidade de planejamento estratégico.

De repente invertem-se as conjunturas. Os EUA, antes problemáticos, passam a ser vistos como únicos capazes de produzir crescimento com emprego e inflação baixa. As virtudes alemãs de ontem se tornam os defeitos de hoje.

Mas, até que ponto os atuais problemas alemães se devem aos componentes sociais e humanos do modelo e não a outros fatores como os efeitos recessivos dos critérios de Maastricht, a perda de competitividade decorrente da política do marco forte, à absorção da Alemanha Oriental e de milhões de refugiados do Leste?

Boa parte da explicação se encontra, de fato, não em pretensas falhas do modelo, mas nas distorções e desvios introduzidos em anos recentes. É uma infeliz coincidência que, dois dias apenas após 4 de fevereiro, data do centenário de Ludwig Erhard, a Alemanha registre, pela primeira vez desde os anos 30, mais de 4,5 milhões de desempregados.

Erhard foi o criador da ''economia social de mercado'' e, em sua concepção, era indispensável que o elemento social e o de mercado se mantivessem em equilíbrio. Quando ele deixou o governo em 1966, o desemprego era de 0,7% e os gastos governamentais representavam 37% do PIB. Atualmente, o desemprego excede os 12%, mas as despesas públicas ultrapassam 50% do PIB e os impostos e taxas sociais equivalem a 45% desse mesmo PIB. É óbvio que nesse processo perdeu-se algo de fundamental em termos de economia de mercado, que deve agora ser recuperado sem cair no desequilíbrio oposto.

A prova cabal de que é perfeitamente possível ajustar-se às exigências da globalização sem sacrificar o consenso, nem o essencial do modelo social, se encontra na Holanda, que exibe hoje a economia mais sólida da Europa, com inflação e déficit baixos, desemprego em declínio, bom crescimento, com preservação do melhor das instituições de bem-estar. Razão a mais para rejeitar com a saudável dúvida de Erasmo as simplificações deformantes dos neo-ideólogos de uma globalização que falseia a complexidade dos desafios sociais. A esses ideólogos da economia, herdeiros dos teólogos de antigamente, se aplicaria perfeitamente o título dado pelo humanista de Roterdã a um dos parágrafos do seu ''Elogio da Loucura'': ''Os teólogos, os mais loucos dentre todos os loucos''.

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