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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

Mudam os tempos, mudam as vontades

14/06/97

 

Rubens Ricupero

A morte é a mudança radical por excelência, pois não tem volta. Entre as mais irreversíveis das mudanças e certas mudanças monstruosas há, porém, quem não hesite em abraçar a morte.

Foi a escolha que fez com a mulher em Petrópolis, mais de 55 anos atrás, Stephan Zweig, após tomar conhecimento da capitulação de Cingapura. Como outro grande escritor austríaco Joseph Roth, em Paris, como o filósofo alemão Walter Benjamin, na fronteira com a Espanha, cansou de desesperar. A derrota inglesa era a última de uma série de mudanças intoleráveis que destruíram nele a esperança de ver de novo triunfar a luz sobre as trevas do nazismo.

Zweig é lembrado entre nós sobretudo por haver escrito ''Brasil, País do Futuro'', sincera expressão de empatia com o povo que o acolheu. Pouca gente parece ter lido suas memórias, publicadas originalmente como ''O Mundo de Ontem'' e pessimamente traduzidas em português sob o título ''O Mundo Que Eu Vi''.

O livro contém a mais nostálgica e maravilhosa evocação que conheço do mundo destruído pela guerra de 1914, da segurança e estabilidade de uma vida à qual o padrão-ouro fornecia a base da previsibilidade, a garantia contra mudanças indesejáveis.

A imutabilidade do ouro e de tudo associado a ele, as relações entre as moedas ou a durabilidade dos impérios eram o símbolo, se não do horror da mudança, ao menos do anseio de controlá-la, de fazê-la rara, superficial, lenta e segura.
Como estamos longe de tudo isso! Vivemos não só dominados, penetrados pela mudança, mas obcecados em entendê-la, em interpretá-la. As vitórias do Labour na Inglaterra e dos socialistas na França foram uma ocasião a mais para esses exercícios.

Alguns lembraram como, nestes últimos 16 anos, a realidade deu aos socialistas uma lição de humildade. Eleito em 1981 com o lema ''Mudar a Vida'', Mitterrand teria dito pretensiosamente a um veterano líder gaulista: ''Vocês queriam mudar de sociedade _Nós mudaremos a sociedade?'' Após a reviravolta da política econômica e quando haviam murchado as rosas vermelhas da vitória, Michel Rocard se resignava a que ''o objetivo da política não era mudar a sociedade''. No final, observava com satisfação um jornal conservador americano, ''a França mudou Mitterrand muito mais do que Mitterrand mudou a França''.

No passado, a oposição à mudança vinha dos conservadores, que, como o nome indica, desejavam conservar uma ordem da qual eram os beneficiários. A iniciativa da mudança procedia do partido do movimento, da reforma, de todos os insatisfeitos com o ''status quo'', republicanos, liberais, socialistas, desejosos de alterar a monarquia, o absolutismo, o capitalismo.

Hoje, as coisas não são tão claras. É aos conservadores que tem cabido agora propor mudanças e queixar-se de que o povo ou as esquerdas não aceitam, como ocorreu com Chirac e Kohl. Quanto mais resolutamente à esquerda, Rifondazione Comunista, PC francês ou português, tanto mais resistentes às mudanças.

A inversão de posições põe à luz uma verdade escondida. Mais do que as mudanças em si, o importante é o seu sentido. As anteriores se impuseram porque beneficiavam as maiorias de forma tangível e palpável. Abolir os privilégios dos nobres e dar oportunidades a todos, ampliar os direitos humanos, reduzir a semana e a jornada de trabalho, aumentar salários, garantir aposentadoria ou assistência médica, eram todas conquistas desejáveis, indiscutíveis. Tratava-se claramente de melhorar de imediato a vida da maioria das pessoas.

As mudanças atuais pertencem mais à prateleira dos remédios amargos. Como a dieta ou a quimioterapia, podem ser necessárias, fazem bem à saúde, mas seus primeiros efeitos são penosos. Resta ver se de fato salvarão o paciente ou apenas lhe aumentarão os sofrimentos inutilmente.

Não que elas sejam exclusivamente promovidas pela direita conservadora. Dos 15 países da União Européia, com exceção da Alemanha e da Espanha e agora da Irlanda, os sociais-democratas dominam ou participam de todos os governos e seu comportamento não difere muito, na prática, dos demais. É o chamado ''centro vital'' ou radical, que seria a neo-hegemonia imposta pela globalização.

Em termos de eficiência em converter a opinião pública e realizar mudanças efetivas, os europeus não tiveram, de maneira geral, grande êxito, seja à direita, seja à esquerda. Americanos e ingleses lograram, em câmbio, acelerar o crescimento e gerar empregos, mas pagando alto preço em matéria de estagnação ou declínio dos salários inferiores, de insegurança de emprego, deterioração da proteção aos mais débeis, de aumento da desigualdade. Até agora, as mudanças implementadas pioraram objetivamente a vida de muitos sob a alegação de serem inevitáveis como a morte ou os impostos ou com a promessa de que os sofrimentos presentes serão largamente compensados pelas recompensas futuras. Como a relação custo-benefício não é, em concreto, favorável, a conversão da maioria terá de ser feita na base de convencê-la a confiar no futuro, isto é, a ter esperança.

No Brasil, vejo a situação ainda mais complicada. Devido a abrigarmos dentro de nossas fronteiras realidades de tempo histórico diferente, temos de lidar, ao mesmo tempo, com mudanças antigas e novas. De um lado, nunca completamos as reformas que os ocidentais finalizaram há um século ou mais: abolição do trabalho escravo (as denúncias na Amazônia continuam), acesso de todos à alfabetização e educação primária, acesso à terra por meio de reforma agrária, Previdência Social e assistência médica eficientes. Por outro lado, já se propõe ou impõe nova onda de mudanças: flexibilização da estabilidade do emprego, alteração da Previdência e do serviço de saúde e correção dos privilégios a grupos minoritários, mas politicamente ativos e influentes.

Com frequência, muitos dos advogados das mudanças modernizadoras são os mesmos que bloqueiam as do primeiro ciclo, como a agrária ou a educacional.
Em nosso caso, portanto, mais ainda do que em outros países, abrir caminho às reformas exige: 1º) preservar as conquistas das massas pobres e ampliá-las com reformas que lhes dêem acesso aos recursos, à educação e à saúde; 2º) com o apoio majoritário assim conquistado, corrigir os excessos das transferências a grupos privilegiados.

É preciso, para isso, que as lideranças falem claramente e demonstrem por que e como a melhoria da vida da maioria depende dessas mudanças. Em outras palavras, o problema não é mudar por mudar, mas mudar na direção certa. Só assim se criarão razões tangíveis para as pessoas acreditarem que o futuro será melhor que o presente e o passado, para terem esperança na ação e na mudança, para crerem no lema impresso na camiseta de alguns militantes socialistas na eleição francesa: ''Mudar de futuro, mudar o futuro.''

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