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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

Da exuberância irracional ao pessimismo injustificado

15/11/97

 

Rubens Ricupero

Muitos anos atrás, assisti no Centro Dom Vital a uma daquelas maravilhosas conferências em que o dr. Alceu de Amoroso Lima, com sua incomparável sabedoria e erudição, dissertava sobre tudo e sobre todos como um avião que vai descrevendo círculos concêntricos até pousar numa clareira da floresta.

Ele falava então do nosso temperamento ciclotímico, que salta sem transição da euforia à depressão, do ''Porque me ufano de meu país'', do Conde de Afonso Celso, ao ''Retrato do Brasil'', de Paulo Prado. Um pouco como a ambiguidade de Gilberto Amado, que se definia como ''um detrator público mas um adorador secreto do Brasil''.

Vem isto a propósito da reação das Bolsas à crise financeira. Ela é certamente séria, mas de forma nenhuma justifica mergulhos sucessivos das cotações como nos últimos dias. Escrevo de Londres e vim de Nova York, e nas duas cidades pude ver, pela imprensa e por contatos com autoridades e gente do mercado, que a confiança no potencial de recuperação da economia brasileira continua positiva.

Só nós poderemos destruir essa confiança se não fizermos o que sabemos deve ser feito. A raiz de nossa vulnerabilidade está no desequilíbrio das contas correntes e do Orçamento. A aplicação firme dos remédios corretos a esses dois problemas permitirá eliminar gradualmente a dependência de recursos especulativos externos e restaurar as condições de um crescimento estável e sem sustos.

Acho perfeitamente legítimo discutir e criticar a estratégia seguida até agora, se o exercício se destinar a corrigir os erros e recolocar o processo no rumo certo. Nesse sentido, duas condições me parecem indispensáveis.

A primeira é a determinação de, em hipótese alguma, colocar em perigo o que tanto sacrifício custou ao povo brasileiro: a conquista de uma moeda séria e relativamente estável, condição insubstituível da soberania e de qualquer progresso social. É sinal encorajador de amadurecimento que setores significativos da oposição reconheçam isso.

É o que também ocorre no Chile e na Argentina, onde a oposição critica as deficiências do governo em política de emprego, de distribuição de renda, mas considera intocável o patrimônio adquirido em matéria de estabilidade monetária e saneamento macroeconômico. Ninguém tolera voltar ao passado. O que desejam as oposições é construir um futuro melhor do que o presente.

Há aqui uma analogia com a evolução do comunismo italiano. Enquanto foi visto como uma ameaça à democracia, à liberdade e ao pluralismo, como partido anti-sistema, não teve a menor chance de exercer o poder, embora fosse, a título individual, o maior partido da Itália. Foi só depois que os ex-comunistas assumiram um compromisso com a democracia, critério definidor de confiabilidade, que puderam chegar ao governo. Oxalá o mesmo ocorra entre nós em relação ao compromisso com a estabilidade monetária.

A segunda condição é restabelecer o que fez do Real um plano único em nossa história econômica: sua limpidez e transparência, a recusa de choques e surpresas, a informação clara, não em economês mas em linguagem que respeita a inteligência das pessoas e explica as razões e objetivos das decisões.

Sempre achei que o êxito da nova moeda não se deveu tanto aos seus fundamentos técnicos, mas à participação consciente da população. Outros planos foram igualmente engenhosos e este, em particular, não se amparou na base sólida de reformas que continuam inacabadas até hoje.

É um erro pensar que um plano econômico é um remédio mágico aviado na farmácia: se a dose estiver certa, a cura é garantida. Isso seria certo se os fatores psicológicos não representassem mais de 50% da economia, como se está vendo da atual volatilidade irracional das Bolsas. Grande parte da economia é feita pelas esperanças e temores, a confiança ou o desespero das pessoas, as expectativas irracionais ou não, as emoções e sentimentos dos seres humanos. Muita gente contribuiu para o êxito do Real no governo, mas o protagonista decisivo foi o povo brasileiro.

É preciso voltar a pedir-lhe a renovação de seu engajamento. A construção de uma cidadania consciente, de um povo sujeito e não objeto de seu destino é valor mais alto até do que o êxito econômico.

Só assim, como dizia San Tiago Dantas, no discurso que lembrei na semana passada, conseguiremos ''obter de nós mesmos, da classe dirigente, como das classes produtoras e trabalhadoras, um nível mínimo de confiança na viabilidade de um projeto brasileiro''.

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