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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

Vida em tempo parcial

23/08/97

 

Rubens Ricupero

"É um mundo de cabeça pra baixo. As crianças, em vez de estar na escola, trabalham. Os adultos, que deveriam trabalhar, não encontram emprego!" O desabafo do participante de uma reunião da Organização Mundial do Trabalho acentua o teatro do absurdo em que se transformou uma economia cada vez mais insensível aos seres humanos.

Agoniza o século em meio ao agravamento de seus dois maiores problemas: o desemprego e a desigualdade. A ligação umbilical entre os dois está implícita no comentário. Se há empregos para crianças, mas não para adultos, haveria também para estes últimos se eles aceitassem receber salário de criança. Milton Friedman disse isso em linguagem clara. "Se existem muitos pretendentes para poucos empregos, é por que esses empregos estão sobre-remunerados."

Em países como o nosso, a expulsão do bom emprego pelo mau (como a da moeda boa pela má) opera entre emprego normal e trabalho infantil ou informal. Em outros, o rebaixamento de nível se faz entre o emprego em horário integral e o de tempo parcial (ou o emprego temporário). É o que foi posto em evidência pela greve da UPS (United Parcel Service), a maior empresa americana de entrega rápida de encomendas.

O aspecto mais indefensável contestado pelos grevistas reside em que os empregados de tempo parcial recebiam pouco mais de US$ 9 por hora, enquanto os integrais ganhavam mais que o dobro (de US$ 19 a US$ 20). O pior é que, nos últimos quatro anos, do total de 46 mil novos postos criados, 38 mil, ou cerca de 80%, foram parciais.

Nada haveria a objetar, é claro, se os empregos de tempo parcial se destinassem sobretudo a atender os necessitados de regimes flexíveis, como estudantes ou mães de família.

Acontece, porém, que muitos dos trabalhadores em tempo parcial trabalham na verdade oito horas diárias ou mais, parte de manhã, na separação dos pacotes, e parte à noite, na entrega. Assim, mesmo quem trabalha 40 horas por semana, em tempo parcial, não consegue ganhar US$ 16 mil por ano, o indicador de pobreza para a concessão de ajuda governamental.

A prática compensa: no ano passado, de um faturamento de US$ 22 bilhões, os lucros da empresa foram de US$ 1,1 bilhão. E não se diga que, embora lamentável, seja mais uma imposição da globalização. No ramo essencialmente doméstico de entrega de pacotes, as firmas não precisam enfrentar a concorrência de chineses ou indonésios.

A relativa vitória da greve não deve enganar ninguém. Estavam presentes no caso circunstâncias quase excepcionais, de difícil reprodução. Para começar, num setor de serviços que exige a presença física, como o de entregas, o empregador não dispõe do recurso intimidatório de ameaçar transferir operações para o México, como ocorre na indústria.

Em seguida, dos 300 mil empregados da UPS, 180 mil são membros do poderoso sindicato dos Teamsters que tiveram o apoio financeiro da grande central americana, a AFL-CIO. Finalmente, numa conjuntura considerada quase de pleno emprego (a taxa de desemprego é de 4,8%), os grevistas não teriam grande problema para encontrar nova colocação, e alguns continuaram mesmo a fazer tempo parcial em outras empresas.

Em termos gerais, os empregos de tempo parcial representam apenas 18% do total de postos nos EUA. Esse número sobe, contudo, para 60% em alguns setores de serviços, como os de entregas, supermercados, lojas em geral. O problema, como disse o porta-voz sindical, é que não dá para sustentar uma família na base do emprego de tempo parcial, pois as contas ou a hipoteca do fim do mês não são em tempo parcial!

Foi por isso que, como nas greves francesas de 1995, a opinião pública demonstrou clara simpatia pelos grevistas, que se propunham expressamente a defender o "sonho americano". Isto é, a aspiração de todo trabalhador honesto a poder manter a família, comprar casa com hipoteca e ter um carro na garagem, engrossando a imensa classe média que sempre fez a grandeza dos Estados Unidos.

O que tornava o sonho realizável eram os sólidos empregos na indústria manufatureira, como a de automóveis, por exemplo. Ora, esses empregos vão se tornando raros, e os novos que se criam são, com frequência, do tipo dos parciais ou, de qualquer forma, mal remunerados.

Quando pela primeira vez vivi nos Estados Unidos, no início dos anos 70, a diferença que mais me impressionou em relação ao Brasil era que lá todos os manufaturados, domésticos ou importados, eram invariavelmente melhores e mais baratos que os nossos (ainda éramos um país fechado). Em contraste, o trabalho humano de qualquer categoria, inclusive o doméstico, era muito mais caro.

Tal hierarquia refletia os valores de uma sociedade que privilegiava o humano, em oposição a outra, herdeira da escravidão e do aviltamento da vida e do trabalho humanos. É melancólico que a aproximação de padrões das duas sociedades se faça em relação não ao futuro, mas ao passado, deles e nosso.
Por falar em passado, 130 anos atrás, Marx observou, no primeiro volume de ''O Capital'', que os empregadores buscam comprimir ao máximo o custo do trabalho, substituindo trabalhadores por máquinas, sempre que possível. Dessa forma, beneficiam-se não só da maior produtividade e do menor custo, mas também do vasto exército de reserva de desempregados, cujo potencial pode ser explorado a preço vil em outros setores. Hoje, com o fim do comunismo, saiu de moda falar do "exército de reserva". O que se vê por toda parte, porém, se parece estranhamente com a profecia marxista.

A razão de ser da economia, qualquer que seja o sistema, só pode ser gerar prosperidade e bem-estar, melhorar a vida de todos com o mínimo de desigualdade.

Como justificar moralmente uma economia que, além de não conseguir manter os padrões trabalhistas conquistados, faz retroceder e agravar as condições de emprego e salários de muitos? E isso não em um momento de crise ou de declínio, mas na sua melhor hora de estabilidade e crescimento, quando nunca foram tão altos os benefícios e lucros de executivos, acionistas, detentores do capital.

Bem se vê por aí que, se o mercado é o melhor método de alocar recursos e produzir com eficiência, ele não é um mecanismo confiável para redistribuir os frutos do processo, sobretudo em relação aos mais vulneráveis.

Para tanto, fazem falta sindicatos combativos e líderes pragmáticos, como um dos patronos históricos do movimento operário dos Estados Unidos, Samuel Gompers, o qual, desafiado a resumir em poucas palavras o que desejava o sindicalismo americano, limitou-se a responder com concisão espartana: "More (mais)!".

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