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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

O reino dos pobres

27/09/97

 

Rubens Ricupero

Pouco mais de três horas de vôo separam Hong Kong de Dacca, a capital de Bangladesh, no delta do Ganges, ao lado de Calcutá, a cidade de madre 'Teresa. Dias atrás, participei da reunião do FMI e do Banco Mundial numa Hong Kong ainda mais impressionante que Cingapura pela espetacularidade cinematográfica. Edifícios de cortar a respiração no gigantismo de granito, metal brilhante, vidros ''ray-ban'' ou dourados. Tudo, dentro e fora, absolutamente eletrônico, ''high-tech''. Lembrei do pobre orgulho ingênuo que, crianças, tínhamos do Martinelli, do prédio do Banco do Estado. Senti-me um matuto estonteado pela vertigem do futuro. Nunca tinha visto antes igual densidade de luxo por metro quadrado: lado a lado, centenas de metros de lojas das grifes mais caras. E, pairando ironicamente sobre tudo, a mesma bandeira vermelha com a estrela dourada da Longa Marcha de Mao Tse-Tung.

Tomei o avião e pouco depois desembarquei no coração da pobreza. Cento e trinta milhões de pessoas vivem aqui com menos de um US$ 1 por dia. Na luta pela independência, 3 milhões perderam a vida. Em 91, ciclones, seguidos de ondas gigantes, varreram em minutos 160 mil pessoas. Num país onde os preços são geralmente módicos, a mercadoria mais barata é a vida.

Tive, assim, a experiência pessoal de como se aprofunda o abismo, mesmo no seio do grupo de países em desenvolvimento, entre os poucos vencedores e os muitos perdedores. Em 60, a relação entre a renda per capita máxima e a mínima dentro desse grupo era de 20 para 1. Trinta anos depois, passara a 37 para 1, com Hong Kong exibindo a marca mais alta (US$ 14.849). Em lugar de convergirem gradualmente no crescimento, as economias subdesenvolvidas estão se polarizando. Num extremo, um punhado de sete ou oito, de crescimento rápido sustentado ao longo de quatro décadas. No pólo oposto, um número muito maior hoje do que em 65 de países de pobreza aguda. No centro, cada vez menos nações intermediárias.

A polarização é ainda mais alarmante quando são incluídos os países ricos. Em 65, a relação entre a média da renda per capita dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres era de 31 para 1. Em 90, saltara para 60 a 1. A proporção da renda per capita da África em relação aos países industrializados mergulhou de 14% para 7%. Na América Latina, a queda foi de 36% para 25%. Já no Leste da Ásia, avançou-se de 18% para 66%. A rigor, em quase meio século, só quatro países, Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coréia, foram capazes de crescer aceleradamente por tempo suficiente para se aproximar das economias ricas e, em certos casos, alcançar e mesmo ultrapassar algumas delas. Mas a população somada desses quatro mal chega a 70 milhões, e três são totalmente, ou em maioria, chineses.

Todos esses dados figuram no relatório que a Unctad dedicou ao fenômeno de crescente concentração e desigualdade de renda que vem acompanhando a globalização da economia. Não há espaço aqui para analisar a complexidade dos fatores que concorrem para aumentar e não atenuar a divergência de desempenho, mesmo num espaço econômico mundial cada vez mais unificado e liberalizado, portanto teoricamente favorável à convergência.

Até em Bangladesh, porém, há sinais de esperança. O dinamismo asiático começa a contagiar os que estão mais ao sul, Vietnã, Camboja, Bangladesh e Índia. Só as indústrias de roupa já empregam, em Bangladesh, 1,3 milhão de mulheres, com enorme impacto na emancipação feminina, na redução da natalidade. A primeira-ministra é uma mulher de grande inteligência que me impressionou pela lucidez com que se concentra na prioridade de maior potencial transformador da sociedade: garantir ao menos 12 anos de educação às mulheres, transmissoras de valores por excelência.

A nota melancólica é que, tanto mais triunfante a economia pós-industrial, mais desumanizada e cinzenta parece a vida. Hong Kong e Cingapura, mais aerodinâmicas e americanas do que Chicago e Los Angeles, parecem, ao menos ao visitante apressado, cidades sem alma. As relações pessoais são funcionais, distantes, assépticas.

Bangladesh, em contraste, é o magma primitivo, o caos de ruídos, cores, movimentos. Tráfego alucinante, com milhares de riquixás puxados por bicicletas, formiguinhas carregando fardos três ou quatro vezes maiores, com o toldo de cobertura pintado com os motivos mais extraordinários e brilhantes, paisagens, pássaros, borboletas, todos diferentes.

Comparados à sem-gracice dos automóveis padronizados da indústria de massa, os riquixás gritam sua individualidade. Cada um daqueles puxadores musculosamente magros, cobertos de suor, proclama que é um ser humano com personalidade própria e inconfundível, faz questão de transformar seu penoso instrumento de trabalho numa obra de arte e beleza. Pensei em Hong Kong, nos banqueiros do FMI: ''De que vale o homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma?''

Rabindranath Tagore, poeta e ''maharishi'' de Bengala, de Calcutá e de Dacca, autor dos hinos nacionais da Índia e de Bangladesh, Prêmio Nobel de 1913, exprimiu melhor do que ninguém onde reside o verdadeiro espírito: ''Deixe essa cantoria, esses hinos, a mecânica recitação de contas de oração! Quem é que adoras nesse escuro canto solitário de um templo com todas as portas fechadas? Abre teus olhos e vê: teu Deus não está diante de ti! Ele está onde o agricultor cava a terra dura e onde o pedreiro quebra o granito. Junto deles ao sol e no aguaceiro, ali o encontrarás, e suas vestes estão cobertas de pó!''

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