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Folha de S. Paulo - 1997

São Paulo - Brasil

 

Tudo rosa

29/11/97

 

Rubens Ricupero

Especial para a Folha


''O futuro do mundo é cor-de-rosa, diz o FMI.'' Assim o ''Financial Times'' intitulava, em 24 de abril passado, artigo cujo subtítulo era ''Relatório apresenta algumas das mais brilhantes perspectivas em décadas''.

Ao remexer velhos papéis, encontrei o recorte esquecido. Parafraseando Chateaubriand, o original, não a imitação cabocla, tive a impressão de uma voz do além-túmulo. Há passagens que parecem escritas por Marx, os irmãos de ''Uma Noite na Ópera'', sem qualquer parentesco com o barbudo frequentador da biblioteca do British Museum.

Veja esta pérola, encastrada pelo jornal em destaque no centro da página: ''Há poucos sinais das tensões e desequilíbrios que habitualmente prenunciam declínios significativos no ciclo de negócios''. O final, então, soa quase como escárnio, à luz da angústia que o mundo está vivendo. Após observar que um dos efeitos da globalização é que o dinheiro global pode se mover para dentro ou fora dos países rapidamente, o autor da matéria sentencia: ''Os economistas do FMI acolhem com prazer esse efeito como um meio de levar o mundo mais perto do próprio ideal do Fundo de retidão fiscal e liberalização do mercado''! (a exclamação é minha).

Não tenho intenção de fazer ironia à custa do Fundo, instituição séria e respeitável, com quadros de valor e um diretor, Michel Camdessus, que, além de excelente financista, é homem de cultura e espiritualidade, um humanista no mais pleno sentido. Apenas desejo ilustrar o perigo de se deixar levar na análise não pela objetividade, mas pela mesma ''exuberância irracional'' dos mercados, estigmatizada pelo presidente do Fed, Alan Greenspan. E, ao constatar que as melhores instituições são capazes dos piores erros, advertir para o perigo de aceitar os conselhos dessas fontes sem espírito crítico. Se eles puderam se enganar tão redondamente há sete meses atrás, quem nos garante que hoje estão certos ao explicar as causas dos problemas ou tentar remediar-lhes os efeitos?

A verdade é que a atual crise tem características ''sui generis'', diversas de episódios anteriores. Dentre elas:

1ª) é a primeira crise a iniciar-se em países em desenvolvimento e propagar-se a mercados desenvolvidos (EUA e Japão);

2ª) não é limitada no tempo e no espaço (como a mexicana), mas dura já há quase seis meses e se espalha como mancha de óleo, da Tailândia à Malásia, Indonésia, Filipinas, Cingapura, depois Taiwan, Hong Kong, Bolsa de Nova York, Europa, Brasil e Américas: ontem à Coréia, hoje ao Japão (como foi a crise de 29 e dos anos 30, prolongada no tempo e com muitos altos e baixos);

3ª) em contraste com as crises latino-americanas, de insolvência e déficits orçamentários do setor público, a crise asiática provém do excessivo endividamento e gestão aventurosa do setor privado, sobretudo bancos e instituições financeiras com empréstimos que inflaram o mercado imobiliário;

4ª) embora seja por efeito de contágio que a crise se propaga de país a país, em cada novo caso existem razões locais que reforçam o impulso vindo de fora (assim, em Nova York, o fator desencadeador foi Hong Kong, mas a queda da segunda-feira, 27 de outubro, foi motivada pela percepção de que as cotações da Bolsa haviam atingido alturas estratosféricas insustentáveis);

5ª) a principal diferença da crise em mercados subdesenvolvidos comparada às que afetam ou afetaram no passado os mercados de países ricos é que, neste último caso, os problemas nas Bolsas não se transmitem necessariamente à moeda, enquanto que nas economias em desenvolvimento, a crise de moeda se espalha ao mercado de valores e vice-versa.

A explicação desta última característica é simples. Em mercados ricos e altamente capitalizados, a presença nas Bolsas de investidores estrangeiros é proporcionalmente muito menor do que em economias débeis e dependentes, como a nossa, de grandes influxos externos. É por isso que quando Nova York espirra, a Bolsa de São Paulo pega pneumonia: o dinheiro de fora é veloz na fuga. Como aconselhava um cínico especulador a propósito do carnaval financeiro latino-americano: continue a participar do baile, mas procure dançar perto da saída de emergência...

Se as coisas são assim, a receita ortodoxa de acentuar a liberalização financeira, é como querer curar o alcoolismo do mujique russo com doses maciças de vodca.

Ao contrário, a experiência chilena de controlar os capitais e exigir que 30% fiquem depositados por um ano em conta sem juros ensina que, desse modo, se reduz o risco sem desencorajar o afluxo de dinheiro (ao menos do dinheiro sério, de longo prazo).

Em prefácio escrito em 1988 para nova edição de seu livro sobre a crise de 1929, Galbraith comentava o hábito de buscar um bode expiatório para assumir a responsabilidade de um colapso de Bolsa, inerente no fundo à especulação que o havia precedido. E afirmava: ''Trata-se aqui de teologia econômica: o mercado é não somente perfeito, mas também sagrado numa certa medida. Ele não pode, assim, ser considerado responsável de sua dinâmica intrínseca e do desastre consecutivo''.

Por isso, em lugar da teologia ou ideologia econômica apaixonada por imaginárias virtudes do perfeito mercado, o melhor teria sido prestar atenção a gente sóbria e ajuizada. É o caso, por exemplo, do banco central do mundo, o BIS da Basiléia, que, no seu relatório de junho alertava que a tendência para mercados financeiros cada vez mais liberalizados está se tornando uma séria ''ameaça para a estabilidade dos sistemas globais de pagamento''. Não seria má idéia se as grandes instituições financeiras ajustassem seus ponteiros e praticassem a coerência que pregam aos outros.

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