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Folha de S. Paulo - 1998

São Paulo - Brasil

 

Alegria de profeta

13/06/98

 

Rubens Ricupero

Perigosa é a vocação de profeta. Os raros a escapar do martírio terminam por sucumbir a um de dois perigos. O primeiro é o feio pecado da "Schadenfreude", a alegria com a realização da profecia e, portanto, com a desgraça alheia. O segundo é a perda de face quando a profecia não se concretiza devido a erro de previsão ou porque as possíveis vítimas se emendam a tempo de evitar o raio.

Foi esse o caso do profeta Jonas. Ele não queria anunciar a destruição de Nínive, mas Deus não lhe deixou escolha, indo buscá-lo nas entranhas da baleia. Sucedeu então o inesperado: o rei assírio e seus súditos creram e fizeram penitência. O Senhor, "que é lento para se por em cólera, mas rico em misericórdia", teve pena e poupou a cidade. Jonas sentiu-se traído e desmoralizado, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida.

Ultimamente as coisas pioraram tanto que correm mais risco os profetas de bonanças que os de desgraças.

Lembrei aqui o exemplo do relatório do FMI da primavera de 97, pouco antes da crise asiática, que previa que o "futuro do mundo seria cor-de-rosa". Agora meus arquivos, mais implacáveis que os de João Condé, desovaram nova pérola. Um recorte do "Financial Times" de 15 de julho do ano passado, dias após a desvalorização da moeda tailandesa, continha artigo de um dos mais, senão o mais respeitável analista do jornal, cujo nome calo por discrição. O título em inglês era "No more than a blip" ("Não mais que um traço"), com o seguinte subtítulo: "A atual 'crise' monetária da Tailândia é uma consequência inevitável do superaquecimento, mas passará rapidamente, assim que os fortes fundamentos da economia voltarem a se firmar".

O jornalista se encontrava em excelente companhia. Na reunião do FMI e do Banco Mundial em Hong Kong, em setembro daquele ano, o presidente do segundo disse que a crise asiática "não passava de soluço". O relatório "IMF World Economic Outlook", apresentado àquela reunião, previa a aceleração do crescimento na Tailândia para 98, sua manutenção inalterada para os outros países da região e um ligeiro aumento do produto mundial. Em dezembro, no Interim Assessment, o Fundo começou a rever para baixo as estimativas de crescimento no mundo e na Ásia, mas ainda esperava desempenho positivo na maioria desses países.

O consenso hoje é que as economias asiáticas mais afetadas pela crise, incluindo Malásia, Coréia, Tailândia e Indonésia, sofrerão no corrente ano uma contração do produto que irá de menos 4% a menos 12,5%.

Dias atrás, o mesmo analista citado acima confessava, após visitar Bancoc, que a Tailândia permanece mergulhada na escuridão da calamidade econômica.
Mais grave, contudo, é o que pode acontecer ainda como resultado da contínua fraqueza da economia do Japão, segunda do mundo e principal credora internacional. O iene, que em 95 tinha atingido a altíssima cotação de 80 por um dólar, acaba de desabar a quase 144.

Falei disso na semana passada, quando havia esperança de que a reunião do G-7 produzisse um milagre.

Nada sucedeu; a partir desta semana, o Japão entrou oficialmente em recessão e já há quem fale na possibilidade de que a moeda japonesa mergulhe até o fim do ano às profundezas abissais de 160, 180 e até mais.

Esse seria um cenário devastador não só para os asiáticos no olho do tufão, mas para os mais poupados até agora, como a China, Taiwan, Hong Kong e Cingapura.

Nos Estados Unidos, a economia continua robusta, mas o presidente do FED voltou a dizer que, se os custos salariais persistirem na alta, ele seria obrigado a aumentar os juros. Se Greenspan não fez isso até agora é porque teme, como observou o "Financial Times", que a medida possa desencadear uma queda na Bolsa, um enfraquecimento adicional do iene, um agravamento da crise asiática, ou qualquer combinação desses três efeitos.

Como se vê, se já era arriscado, a partir de julho de 97, basear a política econômica na aposta otimista de que o contexto internacional voltaria a nos ser propício, aferrar-se a essa esperança neste momento passou a ser francamente temerário.

Não porque necessariamente vá-se produzir uma catástrofe no Japão, na Ásia ou nos EUA. Simplesmente porque, mesmo que o pior não se materialize, a mera continuação da incerteza é suficiente para nos manter com os pés nus sobre brasa ardente.

Os recursos financeiros de curto prazo são voláteis por natureza e essa volatilidade se exacerba com a incerteza. Como esta não dá sinais de se dissipar a curto ou médio prazo, não seria hora de reexaminar a premissa da dependência em alto nível desses recursos em que se assenta a estratégia que vem sendo seguida?

Em janeiro, quando pela última vez estive no Brasil, participei em São Paulo de jantar no qual estavam presentes pessoas eminentes da política, da economia, dos meios empresariais. A conversa girava em torno das eleições. De minha parte, comentei que me interessava mais em saber o que aconteceria depois delas.

Admitindo-se a hipótese da reeleição, que parecia então pacífica, isso facilitaria ou não a remoção dos obstáculos à aceleração do crescimento a taxas menos medíocres que as atuais? Seria possível reformular as bases da política econômica, a fim de superar a atual camisa-de-força, que leva a um agravamento das contas externas cada vez que crescemos a mais de 2% ao ano?

Para meu espanto, verifiquei que no fundo as pessoas estavam resignadas a um crescimento de lesma por muitos anos, como se os graves problemas brasileiros fossem compatíveis com essa lentidão.

Desde então, os tumores começaram a explodir, tornando óbvio que o prolongamento do atual impasse econômico é implausível. Não é melhor, portanto, começar a retificar os rumos, discutir alternativas, explicitar-lhes os custos, comparando-os aos benefícios?

Já se disse que a pior forma de negação é o adiamento. É chegado o momento de enfrentar a verdade. Esse processo começa, a meu ver, pela reconstrução gradual do espaço para afirmar nossa relativa autonomia.

Não podemos continuar a tolerar que o destino, o bem-estar, o emprego de 160 milhões de brasileiros, sobretudo dos mais desprotegidos, sigam em mãos de especuladores arrogantes e superficiais, ávidos e pretensiosos donos de uma suposta verdade ortodoxa que apenas mascara o "gosto da cobiça e a rudeza duma austera, apagada e vil tristeza". O ponto de partida é recuperar a autoconfiança, é dizer como Keynes que preferimos "em última análise qualquer coisa ao que os relatórios financeiros chamam de 'melhor opinião de Wall Street'".

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