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Folha de S. Paulo - 1998

São Paulo - Brasil

 

Atendendo a pedidos

14/02/98

 

Rubens Ricupero

Para surpresa minha, o artigo sobre microcrédito de sábado passado despertou algum interesse e recebi vários pedidos de informação sobre o trabalho que a Unctad vem desenvolvendo nessa área.

Pensando bem, a curiosidade não deveria surpreender, pois, no fundo, as pessoas não estão habituadas a estabelecer ligações entre bancos e gente extremamente pobre. Assim como no passado se descrevia o camponês europeu como o homem sem nenhum poder, hoje se pode definir o pobre como aquele que não tem acesso algum aos bancos. A não ser, é claro, que seja para entrar na fila e pagar contas, próprias e alheias.

''Observamos atentamente como funcionavam os outros bancos e fizemos exatamente o contrário.'' Essa frase de Muhammad Yunus, o fundador do Banco Grameen, de Bangladesh, resume bem a filosofia um tanto irreverente e ''do contra'' do movimento de microcrédito. Do contra, porque, como diz o lugar-comum, os bancos só emprestam a quem pode provar que não precisa de dinheiro, enquanto os microbancos emprestam a quem não tem nada, a não ser coragem, imaginação, vontade de trabalhar. E emprestam sem garantia, sem colateral, em pequenas somas, o que é heresia aos olhos dos acostumados a só esperar rentabilidade de grandes operações.

O mais espantoso é que, apesar ou talvez por causa disso, os microbancos já são mais de 7.000 no mundo inteiro. O potencial de expansão é quase ilimitado. A Unctad estima que existam atualmente cerca de 500 milhões de microempresas com até oito empregados. Infelizmente, apenas 2% delas têm acesso ao crédito. Se calcularmos em cerca de US$ 500 em média o capital mínimo necessário a cada microfirma, seria necessário dispor de US$ 250 bilhões para dar a essa galáxia de empresas condições razoáveis de funcionar.

Onde buscar esse dinheiro? Até agora a abordagem predominante era de tipo caritativo, beneficente, sem fins lucrativos e de inspiração religiosa ou altruísta. Esse gênero de solução é, contudo, extremamente limitado pela generosidade cada vez mais insuficiente dos doadores e filantropos, não podendo jamais alcançar somas como a citada.

A organização para a qual trabalho, a Unctad, braço econômico da ONU, resolveu enfrentar o desafio de demonstrar que é possível fazer os mecanismos de mercado trabalharem em favor do microcrédito, canalizando parte do excesso de poupança dos países ricos para os deserdados da terra, não por caridade, mas a taxas de mercado. Para isso, nos aliamos com o governo de Luxemburgo, o Banco Internacional de Luxemburgo e uma das maiores firmas mundiais de investimento num ''Micro-Credit Fund'', que investirá em títulos de créditos emitidos pelos microbancos com rentabilidade anual de 10% em dólares.

Os investidores procuram cada vez mais diversificar suas aplicações em oportunidades originais nos mercados emergentes. A ''sabedoria convencional'' sempre foi cética em relação a empréstimos para os pequenos, mas essa inércia inicial não resistiu à demonstração do espetacular desempenho de bancos como o Kaunlaran Agricultural das Filipinas: lucro líquido de US$ 294 mil sobre aplicações de US$ 1,6 milhão, com empréstimo médio de US$ 604 por cem dias, com juros de 10%. A taxa de reembolso é recorde: 99,3%! Basta comparar essa performance de pagamento com os gigantescos ''chaebols'' da Coréia ou os elefantes brancos da Tailândia, que penduraram nos bancos japoneses, europeus e americanos empréstimos de bilhões (só no Japão estima-se o total de empréstimos irrecuperáveis em cerca de US$ 600 bilhões). Diante disso, sem falar dos nossos Banespa, bancos Econômico e Nacional, do estouro do Crédit Lyonnais na França, do BCCI e do Barings na Inglaterra, dos Savings & Loans dos EUA, quem ousaria dizer que os pequenos representam risco maior?

A América do Sul não está ausente do ''quadro de honra'', pois temos contatos com cerca de 30 instituições na Bolívia, Colômbia e Equador. Uma das maiores é o Banco Sol boliviano, com 75 mil clientes, rendimento de 3% dos seus ativos (mais que a divisão comercial do Citybank) e retorno de 20% sobre seus próprios recursos.

Como explicar tais resultados, com inadimplência insignificante, se esse tipo de crédito é relativamente caro, pois tem de cobrir o elevado custo de milhares de operações atomizadas? A explicação é simples. De um lado, o pequeno aporte de capital permite ao microempresário ganhos extraordinários de produtividade, multiplicando os lucros por três ou quatro no espaço de poucos meses, graças, por exemplo, ao emprego de máquinas em lugar do trabalho manual. A razão mais importante, porém, é que o microcrédito dá ao homem e sobretudo à mulher a possibilidade de se levantar do chão com dignidade, de tornar-se seu próprio patrão e, por meio do trabalho e da iniciativa, recriar-se a si mesmo, realizando o potencial criativo que espera adormecido no coração de cada um de nós. Em suma, embora limitada, é uma alternativa à atual economia desumanizadora, que produz milhões de excluídos ao condená-los ao desemprego perpétuo, à perda não só do vínculo de trabalho que integra o indivíduo à sociedade, mas à destruição gradual dos laços sociais, ao autodesprezo, à consciência da inutilidade de sua vida para si e para o mundo.

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