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Folha de S. Paulo - 1998

São Paulo - Brasil

 

A segunda vinda

19/12/98

 

Rubens Ricupero

A ameaça do impeachment de Clinton e o ataque contra o Iraque voltam a nos lembrar que o poder tem razões que a economia desconhece. No momento em que o mundo se debate com a pior crise econômica dos últimos 50 anos, será que precisávamos desses dois eventos provocados pela vontade política e, na pior das hipóteses, evitáveis ou adiáveis? Eram eles necessários precisamente agora? Contribuem de algum modo para avançar a solução de tantos problemas de pobreza, doença, ignorância, que tornam a vida humana miserável e precária?

São as perguntas que nos fazemos nesta triste oitava do Natal povoada de angústia e desalento. Quase 2.000 anos atrás, nascia entre nós aquele que Isaías chamou de príncipe da paz. Na véspera do início do terceiro milênio da natividade, seu reino continua tão distante como sempre esteve.

Estamos a completar dez anos da queda do muro de Berlim e das extravagantes ilusões que então se propagaram. Onde estão agora os sonhos de uma história congelada como o homem das neves, prisioneira de uma perpétua e imutável juventude feita de democracia e prosperidade do mercado? Onde se esconde a Nova Ordem Internacional anunciada por Bush e fundada na responsabilidade coletiva das Nações Unidas? Ficou tudo sepultado sob as montanhas de cadáveres martirizados da Somália, da Bósnia, de Ruanda, do Congo, do Sudão, perto das quais fazem pálida figura as pirâmides de crânios edificadas por Tamerlão.

A situação de quase monopólio absoluto do poder estratégico e militar de uma só superpotência não bastou para evitar que se deteriorassem todos os três grandes problemas políticos do começo da década: a sanguinária desintegração da Iugoslávia, da qual o capítulo de Kosovo se desenrola sob nossos olhos; a dolorosa e interminável metástase da Federação Russa, sem fim à vista; a trágica frustração do processo de paz na Terra Santa, onde se deu justamente a partida para a contagem dos 20 séculos da nossa era. Terminada a guerra fria e, com ela, a corrida nuclear e o equilíbrio do terror, seria natural que tivéssemos chegado mais perto de um mundo livre de armas atômicas. Em vez disso, essas armas se espalharam por mais dois países, a Índia e o Paquistão, irmãos inimigos já com várias guerras entre eles no seu meio século de independência.

Tampouco é alentador o panorama econômico. A única verdadeira história de sucesso no desenvolvimento dos últimos 30 anos, a Ásia do Leste e do Sudeste, vive crise sem precedentes e pouco pode esperar do Japão, estagnado ou em recessão desde 1990. A crise já contagiou a Rússia e a América Latina, com sinais claros de que começa a provocar desaceleração nos Estados Unidos e na Europa. A primeira década da globalização e da liberalização ameaça tornar-se a de crescimento mais medíocre desde o fim da Segunda Guerra.

Na economia não existe nada que corresponda ao monopólio do setor estratégico-militar. O poder financeiro e comercial encontra-se melhor distribuído entre americanos, europeus e japoneses. Isso tem gerado, porém, mais tensão do que genuíno equilíbrio. Ao contrário, o persistente (dura já 15 anos quase) desequilíbrio macroeconômico entre os gigantescos déficits comerciais e em conta corrente dos EUA, de um lado, e os simétricos superávits no Japão e na Europa, do outro, alimentam disputas e antagonismos protecionistas que dificultam a efetiva colaboração, seja para controlar a excessiva oscilação no valor respectivo das moedas, seja para permitir o socorro eficaz à Ásia ou à Rússia.

Reabre-se a divergência entre americanos e nipônicos sobre um fundo monetário regional para a Ásia e, às vezes, o tom das invectivas faz pensar no que os marxistas de antanho descreviam como "rivalidades intra-imperialistas".
A verdade é que a concentração do poder não levou nem à imposição unilateral de uma Pax Americana, nem à construção da segurança coletiva por meio da da ONU. Esta última, criação de Roosevelt e da grande geração de americanos responsáveis pelo New Deal, a previdência social, a vitória aliada, o Plano Marshall, não desperta o mesmo interesse nos adeptos do novo "centro vital" ou da "terceira via". Aparentemente mais entusiasmados pelo desmantelamento da previdência e pela expansão da aliança atlântica com vocação planetária, alguns chegam até a dar a impressão de querer criar versão moderna da Santa Aliança, coligação de poderosos para a contenção, não mais do expansionismo soviético ou de outra ameaça precisa e definida, mas simplesmente para congelar o "status quo", contra não se sabe bem o quê ou quem.

Seria talvez a tentativa de superar a dissociação hoje existente entre monopólio estratégico- militar e multipolarismo econômico, juntando finalmente os abastados da terra em hegemonia compartilhada. O secretário- geral da ONU já dirigiu advertência contra o perigo de estruturas que se arrogam responsabilidades globais sem a legitimidade que só pode provir da vontade coletiva e democrática dos povos representados nas Nações Unidas.
Na crise iraquiana de fevereiro, o analista americano William Pfaff lembrava em artigo no Herald Tribune que "Roma, após derrotar Cartago (a União Soviética da época, geopoliticamente falando), no 1º século a.C., tornou-se a única superpotência do mundo ocidental (...). Entretanto, ser a única superpotência foi fatal para a integridade moral e a competência política das instituições representativas da velha república romana". Pfaff fazia, em seguida, um paralelo com a república americana, que já não lhe parecia em condições particularmente favoráveis naquele momento, quando apenas começava a investigação sobre o presidente.

Dez meses depois, a mesma conjunção entre o problema iraquiano e o processo de "impeachment" de novo se manifesta, desta vez mais violenta no primeiro caso e mais dramática no segundo.

Em homenagem a W.B. Yeats, de quem tomei emprestado o título do artigo, não encontro para expressar o que sinto ao ouvir as notícias nada melhor do que alguns versos do poema "The Second Coming".

"As coisas caem em pedaços; o centro não consegue manter-se;
Mera anarquia é despejada sobre o mundo,
Derrama-se a maré turva de sangue e em toda a parte
É afogada a cerimônia da inocência;
Os melhores não têm nenhuma convicção, enquanto os piores
Estão cheios de apaixonada intensidade"

...


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