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Folha de S. Paulo - 1998

São Paulo - Brasil

 

Cinza e diamantes

20/06/98

 

Rubens Ricupero

Um dos primeiros exercícios de percepção de cores que a filha de um colega meu teve de fazer na Parsons, a famosa escola de arte de Nova York, foi encher um caderno de desenho de 200 páginas exclusivamente com matizes de cinzento. Essa história me vem sempre à mente quando ouço que a globalização não nos deixa outra escolha a não ser aplicar sem discutir um suposto modelo único e universal, coincidente em geral com a prescrição favorecida pela pessoa que nos fala.

Seria verdade que o fim da competição ideológica eliminou qualquer possibilidade de escolha? O "comunismo real" deixou de ser, sabemos todos, uma alternativa para o capitalismo. Deveríamos deduzir daí que só existe um tipo invariável, irrecusável, de capitalismo? É o mesmo que afirmar que há apenas cores primárias, vermelho ou negro, branco ou preto. O mais exato é reconhecer que são os extremos, as cores primárias, que desapareceram. Em lugar de preto ou branco, somos confrontados com uma infinita graduação de cinzentos, uns mais, outros menos escuros, combinando em doses diversas economia de mercado e governo, crescimento e inflação baixa, segurança e flexibilidade de emprego.

Volpi disse uma vez numa roda em que eu estava presente que o "preto era veramente bonito". O cinzento também. Apesar da má reputação, da associação com a tristeza e melancolia do amor extinto, as cinzas podem às vezes esconder diamantes. Desde, é claro, que se tenha talento para encontrá-los.
O primeiro-ministro Lionel Jospin, por exemplo, é um desses homens que sabe garimpar as cinzas para delas extrair coisas de valor. Olhemos de perto o que ele vem fazendo, comparemos mentalmente, tacitamente, com o que se faz alhures, a fim de buscar alguma lição porventura válida para outros. Jospin é um político que cresceu de estatura no governo. Da mesma forma que na frase de Gaulle a Pompidou, que confessava temer ser pequeno demais para governar a França: "Vous grandirez", "Você crescerá".

Eleito numa hora de paralisia e desalento, em que o próprio chefe de Estado reconhecia a impotência do poder político diante da extrema fragmentação e ceticismo da opinião pública, ele retomou em um ano a iniciativa e restabeleceu a capacidade de usar o governo como instrumento para dar sentido ao esforço coletivo e promover a mudança.

Três fatores foram decisivos para possibilitar tal resultado: 1º) uma aliança política efetiva; 2º) estilo de liderança e métodos de governo que geraram forte apoio popular; 3º) capacidade e rapidez em executar no governo o que havia sido prometido na campanha.

A aliança inclui, além dos socialistas, os comunistas reconciliados com os limites do cinzento, juntamente com os verdes. Embora com diferenças de ênfase, todos partilham valores e objetivos básicos.

Em termos do estilo de liderança, é sugestivo lembrar as qualidades que os franceses aplaudem em Jospin, às vezes com porcentagens de 80%: força de vontade, fidelidade às convicções, coragem, abertura, competência, modéstia, capacidade de se fazer respeitar.

Quanto ao método de governar, as pesquisas indicam que ele é percebido como: atento ao interesse geral, realista, capaz de escutar o parecer dos aliados e parceiros sociais antes de decidir. Os exegetas concluem que o êxito de imagem dos primeiros meses se está transformando em êxito de ação e que a maioria, às vezes até com a inclusão de adversários, admira no primeiro-ministro tanto a personalidade como a maneira de governar.

Quando se pergunta qual é a causa dessa popularidade, as pessoas alinham ultimamente três reformas em que se passou da palavra à ação: a lei de 35 horas de trabalho, a criação de empregos para os jovens, a lei contra a exclusão. Essas medidas foram todas denunciadas como perigosas ou irresponsáveis. O público, contudo, não se impressiona com as críticas. Reconhece o direito à experimentação e pensa que Jospin "sabe explorar e propor novas soluções no plano econômico e social".

É como se os franceses concordassem com o que Roosevelt dizia durante o New Deal: "O que este país precisa é de audácia na experimentação. Se a solução não der certo, tentar uma, duas, tantas vezes como o necessário para acertar". E acrescentava que se devia temer acima de tudo o próprio medo, o medo de errar, por exemplo.

O líder francês foi favorecido, e muito, pela recuperação da economia. Mas essa recuperação não teria sido possível sem sua iniciativa. Dizia-se antes dele que todas as condições básicas para que a economia voltasse a crescer já estavam presentes. Nada acontecia, porém, porque as pessoas não tinham confiança para consumir ou investir. A confiança voltou em grande parte por causa da forma de agir do governo.

Jospin teve de enfrentar crises perigosas como a inicial contestação do patronato às 35 horas e as ocupações de repartições pelos desempregados. Sua margem de manobra era limitada pelas imposições da moeda única européia. Maior assim é o mérito de ter sabido exercer a criatividade dentro do espaço estreito balizado por esses constrangimentos. Compreendeu que a ação de governo não se limita à microeconomia. Demonstrou que é possível ser diferente, que a esquerda não é obrigada a macaquear a direita. Fez isso porque colocou no centro das preocupações do governo os grandes problemas da França, que são sociais e humanos: o desemprego de massa e a exclusão. Para os povos latino-americanos, de problemas semelhantes, mas bem mais graves e de cultura política afim, essa experiência encerra talvez lições mais pertinentes do que a busca da "terceira via" por Blair num contexto cultural e histórico muito afastado do nosso.

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