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Folha de S. Paulo - 1998

São Paulo - Brasil

 

O nariz de Cleópatra

31/01/98

 

Rubens Ricupero

É curioso haver partido de Pascal, o mais austero dos filósofos, a observação de que ''a face da Terra seria diferente se o nariz de Cleópatra tivesse sido um pouco mais curto''. Não vem ao caso indagar se historicamente a afirmação tem algum fundamento. Há dois pontos aqui postos em evidência pelas agruras que afligem o presidente dos Estados Unidos.

O primeiro é que causas triviais podem ter consequências devastadoras. O segundo é que isso em geral resulta da combinação explosiva de negócios do coração com negócios de Estado, de Eros com Zeus. Os símbolos por excelência dessa mescla fatal de paixão e poder são para Dante não os homens, mas as grandes rainhas do passado: Semiramís, Helena de Tróia e a nossa ''Cleopatràs lussoriosa''. Embora seja obrigado a condená-las, o poeta as coloca perto da entrada, no segundo círculo do inferno, logo após o limbo, onde vivem os poetas antigos e antes até dos gulosos, tratados com maior rigor.

O castigo dos luxuriosos é serem sacudidos sem repouso pelo vento, como em vida tinham sido agitados pelas paixões. Mas é profunda a indulgência de Dante com as faltas resultantes do ''Amor, ch'a nullo amato amar perdona'' (''Amor, que a nenhum amado amar perdoa'').

Não sei se a mesma indulgência se fará sentir junto à opinião pública e à desapiedada mídia americana. Ou melhor, se não prevalecerá em algum momento o senso de equilíbrio e medida capaz de estabelecer uma relação razoável e proporcional entre a gravidade das causas e a das consequências.

Enquanto esperamos, só nos resta o assombro diante do talento que tem a história para nos armar as ciladas mais inverossímeis. As turbulências asiáticas já anunciavam para 1998 um ano parecido ao inverno genebrino: moroso e cor de chumbo, a neblina impedindo de discernir os contornos do que avança em nossa direção.

Em poucos dias, três acontecimentos vieram aumentar a considerável incerteza herdada do ano anterior e tornar mais arriscada qualquer previsão:

1) as denúncias contra o presidente Clinton e a ameaça de paralisia ou enfraquecimento do poder da primeira potência econômica mundial num momento crítico para a economia mundial;

2) a renúncia do ministro das Finanças do Japão, segunda economia e maior credor, em meio a investigação judicial que atinge justamente o órgão de governo do qual se esperava a estratégia para superar a crise japonesa;
3) o agravamento das tensões com o Iraque e o perigo de ações militares na sensível zona petrolífera do Golfo Pérsico.

Como se isso não bastasse, teremos de contar, em maio, com a decisão crucial sobre o euro e, em setembro, com eleições na Alemanha, as primeiras em que se manifestarão 4,5 milhões de desempregados.

O problema central se situa, contudo, nos Estados Unidos. Até o ano passado, os asiáticos eram responsáveis por metade do crescimento econômico mundial e absorviam boa parte das exportações dos EUA, Alemanha e Japão (sem mencionar um terço do aço brasileiro e mais de 40% do nosso minério de ferro). Com a Ásia provisoriamente fora de combate e parte do problema, não mais da solução (pois tentará recuperar-se exportando sua deflação), quem poderá ocupar esse lugar?

A China pode ajudar um pouco, se evitar desvalorizar a moeda e aceitar acumular déficit comercial, o que recusou até agora (junto com Taiwan). É limitada, porém, sua capacidade de absorver produtos asiáticos, parte dos quais competem com suas próprias exportações (tecidos, confecções, eletrônicos baratos). O impulso significativo só pode vir das três maiores economias do mundo. Duas destas, no entanto, estão buscando crescer por meio das exportações, pois sua demanda doméstica se acha deprimida por longa estagnação (Japão) ou desestimulada pela repressão dos gastos orçamentários, a fim de preparar a moeda única (Europa). Espera-se que este ano a Europa gere um saldo de cerca de US$ 100 bilhões na balança de contas correntes e o Japão não deve ficar atrás (US$ 95 bilhões). Dos dois, só os japoneses começam a dar sinais, ainda inconclusivos, de que talvez optem por uma política de estímulo mais decisiva, não obstante as consequências que isso trará para o agravamento de um déficit fiscal preocupante.

Se isso não ocorrer, os Estados Unidos terão de resignar-se ao duvidoso privilégio de serem a única locomotiva da economia mundial e de solitária fonte de demanda das importações do planeta. Uma espécie de gigantesco buraco negro capaz de engolir não só os produtos nipônicos, chineses e europeus, mas também a avalancha adicional da Ásia e de outras origens. Isso tudo na hora em que os americanos assistem ao desaparecimento dos seus até então dinâmicos mercados asiáticos e à contração de mercados importantes como o Brasil. Calcula-se, por isso, que o déficit comercial dos EUA possa explodir de US$ 150 bilhões, em 1997, para US$ 250 bilhões ou até US$ 300 bilhões este ano. Pressões protecionistas, de um lado, desaceleração da economia, queda da lucratividade das empresas e risco de uma forte correção da Bolsa, por outro, formam um quadro passavelmente complicado que exigirá toda a autoridade e a atenção concentrada do presidente dos EUA. Decididamente este é o pior momento para abrir em Washington uma prolongada e debilitante crise de governo por motivos que estão longe de transcendentais.

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