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Folha de S. Paulo - 2000

São Paulo - Brasil

 

A maldição de Cassandra

01/10/00

 

Rubens Ricupero

Quando apolo fez a Cassandra o dom da profecia, dizem que lhe cuspiu nos lábios para que ninguém acreditasse nela. Tem sido esse, desde então, o dilema dos profetas. Se a profecia leva o povo a fazer penitência, Deus, que é rico em misericórdia, perdoa e o profeta se sente desmoralizado, como aconteceu com Jonas em Nínive. Ao contrário, se, como é mais comum, a profecia se realiza, o ressentimento faz pairar sobre o anunciante a fama de agourento.

A Unctad é às vezes chamada de Cassandra porque há dez anos denuncia o caráter sistêmico das crises monetárias e financeiras. Agora mesmo acertou de novo, remando embora contra a corrente da euforia e complacência generalizadas. Para não sair da mitologia, buscou-se a imagem em Janus, o deus romano que deu o nome ao primeiro mês e que merecia reinar sobre a economia, pois a ele se atribui a criação da moeda. Janus tem, como se sabe, duas caras, uma voltada para o nascente, o futuro, e a outra ao poente, o passado.

Dizia então o relatório que a economia mundial está também com duas caras, uma voltada para o futuro radioso de crescimento, quem sabe a mais de 4% ao ano, devido em parte às tecnologias da informação. A outra cara olha, no sentido contrário, para o perigo de próximas crises, oriundas dos desequilíbrios macroeconômicos entre os EUA, a Europa e o Japão, assim como das oscilações violentas do petróleo e das Bolsas. Não se passou uma semana para que, na sexta-feira retrasada, a reunião do FMI se inaugurasse sob o impacto coincidente de três sustos superpostos: a inopinada intervenção dos bancos centrais para segurar o euro, o derrame de parte da reserva estratégica de petróleo dos EUA no mercado e o mergulho da Bolsa de Nova York após o anúncio da redução de lucros da Intel.

Nenhum desses eventos é em si mesmo de gravidade irreparável, mas sua coincidência serve para mostrar que muita coisa pode ainda dar errado na economia mundial. A perda de 25% do valor do euro, por exemplo, tem tudo a ver com o desequilíbrio entre as três maiores economias. Segundo o FMI, no ano findo em junho, a Europa transferiu a espantosa soma de US$ 180 bilhões, em boa parte para comprar empresas nos EUA. Dois terços de todo o capital de países superavitários no mundo foram parar no mercado americano (comparados a 50% em 1998 e menos de 20% em 1992). É o que está financiando o gigantesco buraco negro do déficit comercial, expandindo o endividamento (estrangeiros detêm US$ 6,5 trilhões em haveres financeiros) e a dívida das famílias, que passou de 92% a 103% da renda disponível entre 1995 e 1999. O resultado é a explosão do consumo e a bolha especulativa em ações da velha ou nova economia. Que por sua vez estimula mais consumo e crescimento. Um economista do MIT, James Poterba, calculou que, se as famílias americanas gastassem apenas três centavos de cada aumento de US$ 1 no valor de suas ações, a expansão de US$ 6,6 trilhões no valor das ações entre 1995 e 1999 teria acelerado o PIB em 2%!

Diante desses números assustadores, pode-se medir o risco envolvido em toda a intervenção corretiva de disparidades entre o euro e o dólar, compreendendo-se a prudente relutância inicial dos americanos. Afinal, está viva ainda na memória o ocorrido em meados dos anos 80, tempos após o Acordo do Plaza. A intervenção para corrigir o dólar excessivamente valorizado em relação ao marco alemão ajudou na época a desencadear uma queda livre na qual a moeda americana perdeu 30% do valor num ano, fator apreciável do desastre da Bolsa em outubro de 1987 e dos problemas subsequentes. É por isso que, para alguns observadores, a crise a curto prazo do euro pode bem converter-se em crise a médio prazo do dólar. Não é difícil imaginar, em tais circunstâncias, o que poderia suceder nas Bolsas, nos mercados financeiros, no comércio, nos países em desenvolvimento, por definição mais vulneráveis a tais turbulências.

O próprio FMI, aliás, assim se interroga sobre os riscos principais que ameaçam os mercados financeiros: 1º) é possível manter baixa a inflação americana com crescimento econômico de quase 5% ao ano?; 2º) a correção nas ações de tecnologia provocará ou não correção muito mais ampla nas ações em geral?; 3º) aumentará o potencial de volatilidade nas taxas de câmbio?
Não faltam, tampouco, boas perguntas além da área financeira. Por exemplo, pode-se manter o preço do petróleo em nível razoável se a economia mundial e a americana continuarem a crescer como agora?

Nada disso significa que se deva exagerar a perspectiva de acidentes de percurso ou ignorar que, no momento, os fatores positivos de dinamismo e crescimento prevalecem nitidamente. Trata-se de assinalar, sem embargo, que subsistem do passado recente problemas sem solução, como os derivados da excessiva oscilação entre as moedas e a volatilidade explosiva dos fluxos de capital. Chamar a atenção para eles, como fazem o Fundo Monetário Internacional e a Unctad, é cumprir o perigoso e necessário ofício de profeta, torcendo para que o futuro nos reserve o destino ingrato _mas positivo_ de Jonas, de preferência à trágica maldição de Cassandra.

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