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Folha de S. Paulo - 2000

São Paulo - Brasil

 

Fuga para a frente

09/07/00

 

Rubens Ricupero

A expressão de origem francesa significa criar a impressão de resolver um problema com solução arrojada quando se está na verdade a fugir dele. Ela se aplica com justeza a um dos últimos modismos da economia internacional, a idéia de que a Internet e a tecnologia da informação farão o milagre de eliminar o abismo que separa os subdesenvolvidos dos países avançados.

Essa tentação esteve o tempo todo presente na reunião do Conselho Econômico e Social da ONU (Ecosoc), da qual participo neste momento em Nova York e de onde escrevo contemplando a placidez estival das águas cintilantes do East River. O espírito festivo dos fogos de artifício da Independência americana, no dia 4 de julho, pairava na manhã seguinte na sala em que falaram o secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, o diretor da Organização Mundial de Comércio, Mike Moore, o diretor-adjunto do FMI, Eduardo Aninat. Ao chegar a minha vez, tive de fazer o papel sempre ingrato do advogado do diabo, chamando a atenção para os aspectos menos agradáveis da realidade.

Comecei por indagar se era mesmo verdade que as tecnologias da informação vão reduzir a crescente desigualdade dentro de cada país e entre eles ou, ao contrário, constituem um dos principais fatores que contribuem para essa tendência. Basta atentar num fato: apenas na cidade de Nova York existem mais linhas telefônicas do que em todo o continente africano! Quem ignora, por outro lado, que os altos salários pagos às pessoas tecnologicamente qualificadas estão na raiz das disparidades de renda atuais?

A tecnologia não é uma panacéia universal e muito menos um elemento autônomo em relação às demais condições que prevalecem em determinada sociedade, inclusive o nível de analfabetismo e de educação em geral. Trata-se em realidade de algo difícil de obter, complicado para adaptar a condições diferentes, necessitando de mercados que em muitos países ou não existem ou se revelam imperfeitos.

Nem é ela independente do contexto macroeconômico. O conhecimento novo vem sempre embutido em novas máquinas ou em gente habilitada a desempenhar tarefas especializadas. Sua difusão e absorção requerem investimento em larga escala, quase certamente envolvendo um significativo componente de governo. Foi instrutivo, nesse sentido, ouvir o insuspeito secretário americano do Tesouro afirmar categoricamente que, sem os gastos com pesquisa do governo dos EUA, nem a Internet nem a decifração do código genético jamais teriam existido. Obviamente que os nossos fundamentalistas do mercado ainda não compreenderam.

É certo que as tecnologias de ponta permitiram o aparecimento de centenas de firmas de crescimento fulminante. Quase todas, contudo, nasceram e cresceram nos Estados Unidos. Os europeus e japoneses tentam recuperar o atraso adquirindo companhias americanas, o que vem alimentando a onda de gigantescas fusões e aquisições nos setores tecnológicos. Não é preciso esforço para demonstrar que empresas de países como o nosso só podem jogar o jogo de fusões e aquisições na qualidade de vítimas. Como se diria em Pernambuco, não como cavalcanti, mas como cavalgado.

Aliás, essa mesma tendência aumentou a volatilidade de mercados financeiros que operam agora 24 horas por dia, tornando muito mais difícil, como se viu nas crises asiáticas e russa, controlar o contágio irracional e o pânico do estouro da boiada. A proliferação de companhias não-testadas na dura realidade do desempenho é o mais recente capítulo na inesgotável história de estupidez humana e da especulação financeira. No mesmo dia em que discutíamos, no edifício da ONU, as promessas mirabolantes da tecnologia da informação, em Wall Street, a alguns quarteirões de distância, desabavam estrepitosamente as cotações de ações que haviam disparado antes, em total desprezo pela produtividade ou pelos lucros efetivos.

Nessa matéria, uma vez mais se ignoram as lições da história. Os que exageradamente comparam os eventos atuais à Revolução Industrial costumam esquecer os aspectos mais perturbadores desse grande momento de ruptura. Ela não foi apenas, juntamente com a revolução agrícola do período neolítico, a mais importante explosão multiplicadora da produtividade jamais ocorrida. Foi ela também que inaugurou o crescente abismo entre os países ocidentais e o resto do mundo. A Revolução Industrial de certa forma inventou o subdesenvolvimento, ao mesmo tempo em que criava o desenvolvimento. O eminente historiador econômico professor Paul Bairoch mostrou que, no início do século 18, o diferencial no nível de produção, se é que existia, entre a Europa Ocidental e as nações do que seria mais tarde chamado de Terceiro Mundo, dentre elas a China e a Índia, se situava no máximo ao nível de 1,2 ou 1,3 para 1, isto é, entre 20% e 30%. A mesma proporção existia em termos de diferenças em tecnologia, produtividade, bem-estar. Hoje, a proporção foi multiplicada por centenas de pontos percentuais e não cessa de aumentar. Nem as razões da lógica interna da tecnologia nem as da história da Revolução Industrial permitem dessa vez esperar desenlace muito diferente.

Não obstante todo seu inegável potencial positivo, a verdade é que a tecnologia da informação constitui parte integral de uma estrutura global que continua fortemente desequilibrada contra os pobres e vulneráveis, seja no interior de cada sociedade ou entre elas. Reduzir as desigualdades agravadas por essas tendências não será jamais o fruto espontâneo ou automático do funcionamento dos mercados ou da evolução tecnológica. Isso depende, com efeito, de valores como a equidade, a solidariedade, a compaixão, que pertencem a uma outra esfera mais alta de ação. Por mais valiosas que sejam, a economia e a tecnologia devem ser tratadas de acordo com sua natureza de meros instrumentos não-autônomos, não-absolutos, a serviço de um objetivo humano incomparavelmente mais nobre: o de construir sociedade justa, acolhedora e equilibrada.

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