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Folha de S. Paulo - 2000

São Paulo - Brasil

 

O fim dos dinossauros

10/09/00

 

Rubens Ricupero

"NÃO FOI por ter faltado pedra que se acabou a Idade da Pedra e não será por faltar petróleo que há de ter fim a Era do Petróleo", declarou uma vez o xeque Yamani. Ele queria dizer que seriam razões econômicas e tecnológicas, e não a escassez, que poriam fim, algum dia, ao reino do petróleo.

Era início dos anos 70, quando o Clube de Roma profetizava em "Os Limites do Crescimento" que os 500 bilhões de barris existentes no subsolo estariam esgotados antes do término do século. As reservas provadas são hoje o dobro, 1 trilhão de barris, e, ao ritmo de consumo atual, durarão 36 anos, mesmo que não haja descobertas adicionais.

Nada disso serve de consolo aos automobilistas forçados a abandonar os carros nas estradas da França ou aos caminhoneiros que bloqueiam as refinarias para obrigar o governo a baixar o preço do combustível.

Terá afinal chegado o terceiro choque do petróleo? E, se não é isso, que nome merece o aumento que elevou o preço do barril de menos de US$ 10, no início de 1999, para US$ 25, no fim do ano, e mais de US$ 33, agora?

A causa imediata da elevação foi obviamente a decisão da Opep e dos outros produtores de reduzir a oferta de óleo em 6% (mais ou menos 4,7 milhões de barris diários) para reagir contra o colapso do preço em 1998, em seguida à crise asiática. Ao chegar a US$ 10 o barril, o petróleo estava custando um quinto apenas do valor médio de 20 anos atrás, em termos corrigidos do dólar de 1974. A redução da oferta coincidiu com a súbita recuperação das economias asiáticas e a continuação da acelerada expansão americana, combinação explosiva que arremessou o preço aos níveis atuais (ainda inferiores aos vigentes entre 1974 e 1975, se levada em conta a inflação).

É grande a incerteza sobre o que vai acontecer, mesmo que a Opep resolva neste domingo ampliar a oferta porque: 1º) o inverno se aproxima no hemisfério Norte; 2º) os estoques americanos estão no nível mais baixo em 24 anos; 3º) as refinarias nos EUA se encontram próximas do limite; 4º) a frota petroleira estaria operando a 97% da capacidade; 5º) o temor psicológico de desabamento do preço no futuro tem inibido compras para estoque.

Apesar dos protestos, pouca gente sabe que, nos países ricos, os impostos e taxas do governo representam quase dois terços do preço final do combustível para o consumidor (mais de 63%, para ser preciso). A justificativa é desencorajar o consumo, entre outras, por razões ecológicas. Isso significa que, se o governo francês cedesse à pressão dos caminhoneiros para diminuir a cota de impostos e manter o preço estável, o consumo continuaria a pressionar o mercado, em fase de abastecimento apertado, agravando possivelmente a situação.

É em horas como essas que se sente o conflito dramático entre a economia global, voraz, consumista e irresponsável e o meio ambiente atmosférico e oceânico agredido sem piedade pelo envenenamento do ar e dos mares. Não obstante todos os compromissos assumidos na conferência Rio-92, bastou o preço do óleo desabar para que o consumo dos EUA e da Europa aumentasse em 11% na década de 90 e as emissões americanas de gás carbônico crescessem na mesma porcentagem. Não surpreende, assim, que um quebra-gelos russo fretado por turistas para levá-los ao pólo Norte não tenha tido que quebrar gelo nenhum, pois só encontrou no lugar, a perder de vista, a água oriunda do imenso sorvete derretido do pólo. Sem mencionar, é claro, as catástrofes cada vez mais frequentes, como as do petroleiro Erika e da nossa Petrobras, que talvez nos assegure com seus lamentáveis e seguidos desastres o único recorde olímpico brasileiro deste ano.

Cabem ainda duas reflexões. A primeira é que a hipocrisia não se limita à questão ecológica. Os desenvolvidos esperneiam indignados contra o aumento do cru. Não consta, porém, que tivessem agradecido quando, em 1998, graças ao colapso das cotações, se beneficiaram de economia de US$ 60 bilhões, o que ajuda a explicar, em parte, por que economias como a americana conseguiram continuar a crescer e a diminuir o desemprego, quase sem inflação. Nem esboçaram gesto nenhum para aliviar a situação dos subdesenvolvidos não-exportadores de petróleo, cujos preços de matérias-primas sofreram, no mesmo período, perdas sem precedentes, das quais poucas se recuperaram até agora (no caso do Brasil, exceto em celulose e alumínio, continuamos a pagar o preço dessa deterioração).

A última observação tem a ver com a repetição cansativa dos erros de previsão dos analistas. Asseguravam-nos de que a economia atual era muito menos dependente do petróleo, não só devido ao avanço em poupar energia, mas também ao declínio da importância da indústria, em comparação com os serviços e as telecomunicações, muito menos intensivas em energia. Tudo isso faz sentido, mas esqueceram-se de que seguimos vivendo (e por muitos anos) num mundo dominado pelo automóvel e pelo caminhão (ou o querosene dos aviões). Mais uma vez nos preparamos para a guerra errada _a queda da Bolsa de Nova York ou a disparada dos juros_ e fomos inesperadamente atropelados pelo petróleo. Viver nunca foi tão perigoso como na época que conferiu estatuto científico privilegiado ao princípio da incerteza.

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