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Folha de S. Paulo - 2001

São Paulo - Brasil

 

O homem que foi Quinta-Feira

02/12/01

 

Rubens Ricupero

DESDE QUE começou a caça a essa misteriosa organização Al Qaeda, não me sai da cabeça o livro escrito por Chesterton em 1908. Estava-se também em fase de paranóia, só que o bicho-papão era o terrorismo anarquista. A novela é uma pequena obra-prima de humor e "nonsense" (não traduzo porque os correspondentes em português não captam o sentido da palavra). Um agente da Scotland Yard é instruído a infiltrar-se no conselho supremo que dirige os sinistros desígnios do anarquismo, composto de sete personalidades clandestinas, que atendem, cada uma, pelo nome de um dos dias da semana. Tendo conseguido eleger-se como Quinta-Feira, o nosso herói descobre aos poucos que os demais dirigentes são todos, salvo um, também agentes infiltrados. A exceção é Domingo, o chefe dos chefes. No rocambolesco e inquietante capítulo final, revela-se que Domingo não é outro senão o superintendente da Scotland Yard!

Amante do paradoxo, o católico Chesterton havia escrito que a fé e o "nonsense" eram "as duas supremas afirmações simbólicas da verdade". Não quero levar longe demais a comparação entre a trama da ficção e a realidade ao nosso redor, mas é inegável que existem analogias perturbadoras. A que mais salta aos olhos é a ativa cumplicidade dos serviços secretos ocidentais na manipulação do integrismo islâmico como arma anticomunista na Guerra Fria.

Como sempre em tais casos, o problema é saber quem manipula quem. Surpreendem-se agora esses serviços ao descobrir que a manobra lhes esteja a explodir na cara, para desse modo traduzir livremente "blowback", expressão inventada pela CIA para designar as consequências não-intencionais das políticas de Guerra Fria, clandestinas ou não.

A engenhosa fábula de Chesterton serve também ao propósito de utilizar o absurdo para reduzir a proporções realistas certas ondas apocalípticas de pânico exagerado. Sem o desejo de minimizar as ameaças reais, desde o início teve a impressão de que a campanha em curso no Afeganistão e no mundo terminaria por apresentar semelhanças não tanto com a Guerra Fria mas com a ofensiva contra o terrorismo anarquista da "belle époque".

Um primeiro paralelo provém do caráter exacerbadamente espetacular dos atentados de 11 de setembro, lembrando o conceito anarquista da "propaganda do ato", a convicção expressa por Enrico Malatesta de que "o fato insurrecional, destinado a afirmar os princípios socialistas por meio de atos, é o mais eficaz dos meios de propaganda". É verdade que os anarquistas visavam não o povo inocente, mas personalidades simbólicas do poder. Na última década do século 19, foram assim assassinados o rei Umberto, a imperatriz Sissy, os presidentes Carnot e McKinley, o primeiro-ministro Cánovas.

Desencadeou-se, em consequência, reação quase de histeria, que associava todos os anarquistas ou meros esquerdistas a terroristas em potencial e os enxergava dissimulados em toda a parte e dotados de poder diabólico.
O anarquismo não merecia essa reputação. Doutrina libertária, de generosa carga utópica, a anarquia tinha sido frequentemente associada à não-violência em Proudhon, Tolstói ou Thoreau. Foi só com Bakunin que, dentro da família anarquista, desenvolveu-se a vertente de violência revolucionária. A repressão policial não era, contudo, sensível a essa sutilezas, tratava todos brutalmente, conduzindo a tragédias irreparáveis, como a execução de Sacco e Vanzetti.
Um ano antes da novela de Chesterton, Conrad publicara um dos seus grandes livros, "The Secret Agent", em que nada falta da terrificante natureza do terrorismo, nem mesmo, como nos eventos de Nova York e Washington, a seleção de alvos de forte sentido simbólico. Muito mais sutil, o terrorista de Conrad deseja atentar contra o observatório de Greenwich, símbolo da pretensão burguesa de domesticar o tempo.

Com o método do humor e do paradoxo, Chesterton desconstruiu os exageros das teses conspiratórias, que atribuíam aos anarquistas periculosidade quase sobrenatural. Os fatos lhe deram razão, pois, apesar da espetacularidade dos regicídios, os anarquistas, esmagados pela repressão, jamais pesaram sobre os acontecimentos, desaparecendo como movimento de massa na Guerra Civil Espanhola. Muito antes, o mundo brilhante porém secretamente enfermo da "belle époque" havia sido destroçado na carnificina da Primeira Guerra Mundial, vítima não dos terroristas, mas dos Estados que os combateram sem piedade, ao mesmo tempo em que eram corroídos pelas forças de autodestruição do nacionalismo arrogante, do militarismo agressivo, da desmesurada política de poder.

Haverá lições aí para os dias que correm? É difícil fazer um juízo acerca do bem fundado do que nos dizem sobre o terrorismo islâmico, pois nossas informações são de segunda mão. Há, no entanto, uma sucessão de fatos eloquentes: o súbito colapso do regime dos talebãs, a destruição da base de operações dos terroristas e a eliminação de algumas de suas figuras-chave, o estrangulamento financeiro, a não-repetição de atentados, embora anunciados várias vezes. Será que dentro de alguns anos não estará o assunto reduzido a problema crônico, mas de intensidade menor, como o narcotráfico?

Na incerteza, não deixam de inquietar declarações de nostálgicos da Guerra Fria, animados com os sucessos iniciais, que desfiam compridas listas de sete, oito ou dez países apontados como alvos possíveis da continuação da campanha na base de indícios de gravidade muito variável. Qualquer que seja o fundamento dessas posições não faria mal um pouco mais de comedimento e prudência. O combate ao terrorismo internacional é legítimo e necessário, mas deve ser conduzido dentro da lei e com equilíbrio. De todo modo, o antiterrorismo não deve ser erigido em novo princípio organizador e definidor da vida internacional, como foi o anticomunismo na Guerra Fria. Outros problemas graves de miséria, injustiça, desigualdade aguardam atenção e soluções. Se lhes voltarmos as costas, acabarão por realizar-se as previsões de Chalmers Johnson, professor emérito da Universidade da Califórnia, que concluía seu livro "Blowback" com as seguintes palavras: "A política mundial no século 21 será provavelmente determinada, acima de tudo, pelo 'blowback', isto é, pelas consequências não-intencionais de decisões tomadas na segunda metade do século 20 _consequências não-desejadas da Guerra Fria e da crucial decisão americana de manter uma postura de Guerra Fria num mundo pós-Guerra Fria".

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