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Folha de S. Paulo - 2001

São Paulo - Brasil

 

Sem explicação

04/11/01

 

Rubens Ricupero

AO CONTRÁRIO dos suicidas do poema de Manuel Bandeira, que se matam sem explicação, os recentes sequestradores, ao menos uns poucos, tentaram comunicar-nos alguma coisa por escrito. Ignorando o código religioso dos autores, não estou seguro de que consigamos compreendê-los. Há nos documentos referências religiosas e à purificação ritual, mas não bastam para esclarecer as causas sociológicas escondidas capazes de produzir esse tipo de fundamentalismo.

Em Genebra, na localidade onde moro, dois moços de nossa paróquia, de pouco mais de 20 anos, suicidaram-se nos últimos tempos com o fuzil regulamentar do Exército suíço, que cada um guardava em casa. Ao que eu saiba, não deixaram explicação. Eram jovens sofridos, inadaptados, mas o primeiro comentário que ouvi, em ambos os casos, foi que não tinham emprego. Em Genebra, aliás, o suicídio é a primeira causa de mortalidade entre os jovens.

Voltou-se a falar muito por aqui da correlação entre desemprego e suicídio, sobretudo depois que o Instituto Nacional de Estudos Demográficos da França (Inad) demonstrou que as duas curvas se elevaram bruscamente durante a maior parte dos anos 90. O salto é particularmente sensível entre os operários de 25 a 49 anos, para os quais a taxa de suicídio é seis vezes superior à dos profissionais liberais e da mesma faixa de idade. A faixa de 30 a 45 anos é considerada como a "idade do perigo" por excelência, pois, conforme explica um estudioso, "contrariamente aos jovens, que podem conservar alguma esperança, os mais maduros começam a suspeitar de que talvez jamais logrem sair do desemprego".

Não que os moços escapem ao contágio: um em cada dez pensou seriamente em suicídio, e a taxa de desemprego entre 16 e 25 anos é duas vezes mais alta do que para o grupo de adultos de 25 a 54 anos.

Não há nada de novo na correlação entre desemprego e autodestruição. São conhecidos a respeito os estudos de Durkheim e de Halbwachs, as observações de Marx, as refutações que provocaram. O que mudou foi a transformação do desemprego, que passou de episódio ocasional ou temporário na vida do indivíduo a fenômeno estrutural, durável e de massa. Em países como a Inglaterra, existem adultos que viveram a maior parte de suas vidas, casaram-se e tiveram filhos sem nunca conseguir um emprego regular.

Mais do que flagelo social ou disfunção econômica, o desemprego crônico é a expressão definitiva da tragédia individual. Mesmo nas áreas de enorme incidência do desemprego estrutural, a colocação profissional continua a ser o sinônimo da independência. Sem ela, é quase impossível construir para si uma identidade social num mundo onde o trabalho define, em última análise, a inserção das pessoas na sociedade.

Um dos sociólogos que estudam o fenômeno na França observa que "a falta de trabalho é vivida como a amputação de um braço ou de uma perna, significa a desorientação, a perda de referências, a sensação de inutilidade, de estar sobrando". Calcula-se que sejam hoje mais de 66 milhões os moços sem perspectiva de trabalho, justamente na idade em que as pessoas sentem o natural desejo de estabelecer família, de edificar com esforço a própria vida.

Lembro-me da impressão que guardei dos países da África do Norte _Egito, Marrocos, Argélia, Tunísia_, onde, a qualquer hora, as ruas e praças estão cheias de homens jovens perambulando pelas calçadas, encostando-se nas esquinas, "segurando os muros", como dizem os argelinos. Se um homem ou mulher na força da idade, enérgico, ambicioso, bem-educado, sabe que provavelmente nunca obterá emprego condigno, que a sociedade não tem lugar para ela ou ele _como ocorre cada vez com mais frequência_, será surpresa que essa pessoa se volte para propostas políticas extremistas, quando não algo pior? Sabe-se que a angústia do futuro sem trabalho teve algo a ver com o início da rebelião entre os estudantes de ciências sociais de Nanterre em maio de 68. Da mesma forma, a combinação de educação superior, de todas as expectativas e capacitação que gera, com a incapacidade de encaminhar esse potencial para fins sociais construtivos conduziu a resultados explosivos na emergência do terrorismo e da guerrilha urbana na Argentina, no Uruguai, na Alemanha e na Itália dos anos 70. Não se deve simplificar, pois houve outros fatores, possivelmente mais importantes. Pode-se negar, contudo, que esse elemento talvez tenha estado presente na gênese do radicalismo de jovens árabes, educados na Europa mas sem reais perspectivas de inserção profissional ou política nos seus países de origem?

Evoquei esses aspectos na abertura do Fórum sobre Globalização e Emprego, convocado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), recordando à assistência que, ao final da Segunda Guerra Mundial, ainda se acreditava na possibilidade de atingir o pleno emprego. A Conferência de Havana de 1947, ligada à origem do Gatt e do sistema comercial, chamou-se oficialmente de Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Emprego. Abandonou-se depois essa crença, à medida que teorias neoliberais passaram a acentuar uma espécie de relação perversa entre pleno emprego e inflação, disseminando conceitos deletérios como o de uma taxa "natural de desemprego" ou a existência de milhões de "inempregáveis". Temos de reagir e voltar ao ideal do pleno emprego, cuja possibilidade estava sendo demonstrada pela economia dos EUA até o início da atual recessão.

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