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Folha de S. Paulo - 2001

São Paulo - Brasil

 

Tudo é nevoeiro

10/06/01

 

Rubens Ricupero

ELIZABETH Tessier, astróloga de Mitterand, acaba de escandalizar os franceses ao defender na Sorbonne tese científica sobre a astrologia. Nem mesmo a pátria da razão e do iluminismo continua a resistir aos meios mágicos de conjurar as ameaças latentes do futuro.

Essas ameaças, escrevi seis meses atrás, começaram a crescer assustadoramente com o súbito aumento da taxa de incerteza. Basta olhar para três zonas cruciais de turbulência: a economia mundial, o conflito do Oriente Médio, as perspectivas do desenvolvimento no Brasil e na América Latina.

Lembrava então que incerteza não quer dizer que as coisas vão necessariamente piorar. Teoricamente, a palavra é neutra e significa simplesmente que não sabemos o que nos reserva o futuro. Na prática, não é bem assim. Temos medo por sentirmos que nossos meios de controle sobre a economia e a política são precários e já se vêm mostrando incapazes de evitar a ascensão do mal. Não é à toa que os mercados detestam a incerteza, mais do que qualquer outra condição.

Tome-se, por exemplo, a economia mundial e, nesse âmbito, a americana, que em larga medida a determina. Aparentemente, fez-se tudo direito e na hora certa, como rezam os manuais. Greenspan não só reagiu aos primeiros sinais de enfraquecimento como, em rápida sucessão, desfechou cinco reduções de juros. Os indicadores semanais persistem em contradizer-se, alimentando a oscilação das Bolsas. No entanto, imperceptivelmente, a coluna de sombras se adensa: o déficit comercial segue batendo recorde, o dólar forte não ajuda, o endividamento dos consumidores mantém-se alto, desabam os investimentos, ao passo que aumenta o desemprego e a produtividade se enfraquece. Não é preciso ser economista para adivinhar que esses sinais apontam para baixo. Já não se espera aterrissagem suave; poucos são os que crêem em recuperação rápida e vigorosa. Os mais alarmistas falam em bolha de investimentos excessivo, a requerer cura mais ou menos como (em certos aspectos) no Japão e na Ásia.

Na Europa, o panorama sofreu evolução similar. Principiou-se por minimizar o risco de contágio e era de bom-tom proclamar que a expansão européia compensaria a queda americana. Isso era ontem. Hoje, a conversa é outra. As más notícias não vêm só da Alemanha, mas também da França. O rebrote do preço do petróleo não ajuda. Embora com métodos diferentes das autoridades monetárias americanas (ou japonesas), o Banco Central europeu transmite a mesma impressão de perplexidade e impotência diante da crise em progresso.

Do Oriente Médio, a televisão nos traz a cada dia cota de horror e insanidade pior que a da véspera, as vítimas sendo de preferência crianças e jovens. Nada nem ninguém _a ONU, os EUA, a Europa, os árabes_ parece capaz de entreabrir janela para a esperança. A última vez em que tratei do assunto foi antes das eleições israelenses e americanas. Desde então, nada do que aconteceu contribuiu para diminuir a incerteza do futuro da paz nessa região estrategicamente vital.

O agravamento do conflito israelense-palestino é a principal manifestação de fenômeno inquietante: a incapacidade do sistema internacional de encaminhar soluções pacíficas e construtivas para as grandes questões da paz e do desenvolvimento, após a promissora resolução de problemas complicados durante os primeiros anos de fase pós-Guerra Fria. É como se os esforços para resolver questões como as da América Central, o Camboja, o apartheid, Moçambique, a reunificação da Alemanha, a Bósnia, o Kosovo tivessem fundido o motor do sistema. Para o que sobrou _a Palestina, Taiwan, Coréia do Norte, Iraque, as guerras africanas, o Protocolo de Kyoto sobre clima, a pobreza latino-americana_, não há mais energia, disposição ou idéias. Ora, com o sistema internacional (ou qualquer sistema político interno) passa-se o mesmo que com o que alimenta de sangue fresco o coração: se houver bloqueio, cedo ou tarde ele explode.

É o que preocupa na América Latina em geral e no Brasil em particular. Não obstante todos os concertos e recauchutagens drásticos e dolorosos, o sistema não consegue produzir crescimento estável por mais de uns poucos anos e muito menos redução do desemprego de massa, do crime e da marginalidade, melhoria da qualidade de vida. Nem mostrou-se apto a trazer paz à Colômbia, estabilidade à Venezuela, ao Peru, ao Equador, ao Paraguai, alívio às crises externas da Argentina.

Poucas vezes em minha vida assisti a mudança tão radical de percepção como no Brasil desde minha última visita em fins de abril. Em questão de semanas, o efeito conjugado do colapso energético e o das instituições parlamentares foi suficiente para alterar em profundidade as avaliações. Não sei se se trata da famosa nuvem de Magalhães Pinto, que amanhã poderia apresentar-se com forma diferente. Só sei que aqui nos defrontamos de novo com o problema da incerteza.

Ansiamos por certezas, segurança, previsibilidade e ninguém expressou isso melhor do que Thomas Mann ao descrever a sensação que teve ao receber duas moedas de ouro em pagamento de sua primeira novela. O ouro da moeda era o símbolo de um mundo de estabilidades nas relações pessoais e sociais, políticas e econômicas, que nada parecia capaz de abalar.

Menos de 20 anos depois, Fernando Pessoa encerrava sua "Mensagem" com poema revelador de como se tinham acabado aquelas certezas. Indo mais longe que a prosa, a intuição da poesia esclarecia a causa secreta do temor da incerteza. Em situação caracterizada como de "nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / brilho sem luz e sem arder, / como que o fogo-fátuo encerra", "ninguém sabe que coisa quer / ... nem o que é mal nem o que é bem". Nessas condições, "tudo é incerto e derradeiro / tudo é disperso, nada é inteiro / ... hoje és (podíamos dizer, somos) nevoeiro". Mas o último verso lembra que, no Portugal de 1928, ou no Brasil de 2001, a incerteza se dissipa com a ação e a névoa densa anuncia: "É a Hora!".

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