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Folha de S. Paulo - 2001

São Paulo - Brasil

 

Uma esperança infinita

12/08/01

 

Rubens Ricupero

NUNCA, ANTES ou depois, teve um acontecimento impacto tão profundo no espírito europeu como a Revolução de 1789. Veja-se esse depoimento do norueguês Steffens: "Eu tinha 16 anos; meu pai, fora de si, chega em casa, chama os filhos: 'Vocês são dignos de inveja, dias felizes e brilhantes os esperam!... Todas as barreiras do nascimento e da pobreza vão tombar...'. Vencido pela emoção, interrompeu-se e pôs-se a soluçar. Contou-nos depois como se havia tomado a Bastilha e libertado as vítimas do despotismo. Não era somente na França que começava uma revolução, mas em toda a Europa. Ela deitava raízes em milhões de almas. Esses primeiros momentos de entusiasmo, a que se seguiria tão terrível ruína, tinham em si alguma coisa de puro e santo de que jamais se esquecerá. Uma esperança infinita invadiu-me o coração...".

Transcrevi longamente esse texto porque não conheço outro que tenha captado com tamanha força evocativa o efeito libertador e exaltante das grandes rupturas. Quem não recorda os instantes de pura emoção da campanha pela diretas, da volta da liberdade e da eleição de Tancredo, a multidão cantando o Hino Nacional na rampa do Congresso e tentando abrigar-se debaixo de gigantesca bandeira quando sobre ela desabava um desses repentinos temporais de Brasília? Ou a explosão de alegria que saudou a vitória de Alfonsín, a que assisti em distante noite de domingo em Buenos Aires? Ou a Revolução dos Cravos, o fim do apartheid e tantos outros momentos de júbilo?

E, no entanto, na manhã seguinte ao dia da festa, é preciso marcar o ponto no trabalho. O choque eletrizador de energia, a embriaguez da liberação de adrenalina desembocam inelutavelmente na cinza das horas de monotonia e de rotina. Pior é quando parecem dar lugar ao retrocesso. Foi o que aconteceu com a "Primavera dos Povos" das revoluções de 1848: antes que o ano seguinte acabasse, as conquistas populares tinham sido revertidas em quase toda a Europa. Logo depois, na França, o poder derrubado pelos que derramaram o sangue nas barricadas era de novo escamoteado pela repressão burguesa de Napoleão, o "Pequeno". Não obstante essas quedas e decepções, a regressão não durou, e aos poucos todo o programa do liberalismo político acabou por realizar-se. O mundo nunca mais voltou a ser o mesmo.

A partir da queda da Bastilha, as revoluções de libertação das Américas, as de 1830 e 1848, a de 1917 e a reação fascista, as guerras mundiais, a descolonização foram como grandes vagas de fundo que de tempos em tempos emergem e varrem a face da Terra para ser seguidas por fases de acalmia, de retrocesso ou evolução gradual. A alternância de "status quo" e ruptura, de exaltação e desapontamento parece tão inevitável, quase cíclica, como a meteorologia binária do El Niño, que incessantemente aquece e resfria as massas aquáticas e a atmosfera.

Estaremos acaso diante de vaga desse tipo com o alastramento e a ascensão inexoráveis do movimento que se batizou de "antiglobalização", à falta de melhor nome? Ele tem sido comparado ao de maio de 1968 por não visar à conquista do poder a fim de realizar um programa qualquer, mas por dar às vezes a impressão de contestar todo poder, todo programa fixo. Daí a forte carga utópica, quase anárquica, como no tempo em que se ia buscar no surrealismo a palavra de ordem: "Sejam realistas: exijam o impossível". Ou quando se afirmava que não se tratava de mudar "de" vida (individual), mas mudar "a" vida (coletiva). Ansiava-se por reorganizar o poder público e a economia a fim de poder viver vida com menos competição e estresse, menos obcecada com o êxito pessoal, a riqueza. Terá tudo terminado em fracasso, como se diz? É subestimar a revolução sexual, a emancipação da mulher, a afirmação dos homossexuais, a ruptura estilística trazida pela música "rock", a maneira diferente de ser jovem.

Embora haja pontos de contato, penso que o fenômeno atual é diverso. As analogias ficam por conta da hostilidade a um capitalismo espoliativo, à recusa do "homem unidimensional" a que se referia Marcuse, à exigência de valores superiores aos da competição econômica. Da mesma forma que em 1968, a tendência hoje não é dominada ou manipulada por partidos ou ideologias.

Mesmo os que ontem eram esquerda agora se encontram do lado dos defensores do "status quo". Em lugar das lideranças estudantis improvisadas de Nanterre ou da Sorbonne, temos redes mais ou menos articuladas de entidades fora dos governos e partidos, ligadas flexivelmente por aspirações sociais e ambientais de cunho solidário, de compromisso moral com os perdedores de um jogo viciado pela desigualdade, coalizões e alianças de aspirações tão várias e em fermentação como a própria vida.

Nada, porém, tem realidade mais palpável do que os problemas que fizeram 200 mil pessoas descer às ruas de Gênova: a desigualdade que se agrava no seio das sociedades mais globalizadas e entre elas e as demais, a insegurança e a precariedade dos empregos, a desocupação de massa, a pobreza abjeta, a destruição da atmosfera, dos oceanos, das florestas. Diante de questões de carne palpitante como essas, de nada serve repetir banalidades sobre o livre comércio ou recorrer à repressão e à intimidação policial. O que as pessoas desejam é sentir-se mais seguras e protegidas, é ter razões confiáveis para esperar dias melhores. Para isso, temos de voltar ao melhor do espírito de 1789, sem os desvios subsequentes: a capacidade de acender nos corações esperança que não precisa ser infinita, mas que seja, quando menos, chama e ardor.

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