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Folha de S. Paulo - 2001

São Paulo - Brasil

 

A fonte da nossa esperança

19/08/01

 

Rubens Ricupero

É POSSÍVEL imaginar para a política econômica e social alternativa viável que melhore o crescimento e a distribuição sem pôr em risco a estabilidade? Essa é a questão-chave, o prato principal de jantares de empresários em torno de estudos sociológicos sobre as próximas eleições ou entrevistas à Folha sugerindo que a campanha se limite a debater a continuidade, não a ruptura da política atual.

A convicção de que não existem alternativas reais leva alguns à exasperação diante do que seria mais uma excepcionalidade brasileira. Seríamos os únicos a tomar o assunto a sério, quando o resto do mundo se teria resignado à convergência e ao consenso.

De um lado a globalização das economias e do outro o crepúsculo do comunismo e da social-democracia e, na América Latina, do populismo tradicional tornaram anacrônica a escolha entre o vermelho e o negro, reduzindo a escala cromática a infinita variedade de matizes de cinzento. O que era a princípio apanágio dos Estados Unidos _um proletariado conservador, satisfeito com o "status quo", dois grandes partidos que disputam e monopolizam o centro_ propagou-se à Europa, a outros continentes, impôs o "pensamento único", o "consenso de Washington" e outras encarnações da neoideologia dominante.

Quando o fenômeno mal começava a emergir do ovo, no fatídico ano de 1964, auge da escalada no Vietnã, em plena Guerra Fria e polarização ideológica, Herbert Marcuse o antecipou com profética agudez em "O Homem Unidimensional", que tanta influência teria sobre os estudantes de maio de 1968. "Ensaio sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada", conforme reza o subtítulo, o livro analisava como o capitalismo moderno conduz a uma sociedade fechada porque uniformiza e integra todas as dimensões da existência, privada e pública. Nessa sociedade, em que o reducionismo faz da produtividade o valor supremo, o homem perdeu sua capacidade crítica de negação e escolha, a possibilidade de ser protagonista da "grande recusa". Os filósofos e cientistas adotam atitude não-crítica de quietude diante das instituições sociais estabelecidas. O pensamento limita-se a si mesmo e estima que tem razão Hobbes ao dizer que "deve-se preferir o presente, defendê-lo e considerar que é o que há de melhor".

Acontece que, no passado, o conformismo de Kant e Hobbes estava em contradição com a miséria e a injustiça predominantes e essas acabavam por engendrar o espírito crítico de contestação e revolta. A situação só mudou quando as necessidades básicas passaram a ser satisfeitas pela sociedade de abundância e consumo, domesticando e assimilando forças de oposição que se acomodam e amolecem no conforto do consumismo. A conclusão de Marcuse era, já então, de que: "Se se considera o que são atualmente as classes trabalhadoras na sociedade industrial avançada, pode-se dizer que o conceito marxista de proletariado é um conceito mitológico".

Mas, se essas condições encaminham a um relativo consenso nos EUA e na Europa, até que ponto seria realista esperar o mesmo em país no qual os pobres e miseráveis somam 50 milhões de indivíduos, massa mais ou menos igual às populações da Itália ou da França? Está aqui o x do problema: a política atual seria a melhor ou a única para promover a superação da pobreza e da desigualdade extrema no mais curto prazo possível?

Ao redor dessa questão crucial deveria conduzir-se o debate com rigor, senso de medida e respeito mútuo. É forçoso admitir, de início, que não é absurdo preocupar-se em preservar a estabilidade, mesmo precária e relativa, em terra de inflação crônica, viciada em correção monetária, de fatal atração por populismo frequentemente corrupto e demagógico. Nessas matérias, as administrações de Itamar Franco e Fernando Henrique realizaram avanços que convêm consolidar e aprofundar. Nesse sentido, é correto insistir em que a inflação castiga sobretudo os mais vulneráveis e que um mínimo de estabilidade não é plataforma da direita ou da esquerda, mas aspiração válida para o conjunto da sociedade.

Não quer isso dizer que a política econômica seja intocável. Afinal, ela foi culpada de erro colossal, que só corrigiu tarde e sob pressão: a obstinação em manter a moeda sobrevalorizada, negando a promessa de realismo contida no nome "real". Verificou-se falsa também a premissa de que a liquidez financeira internacional de 92 a 94 era a regra permanente, não a exceção temporária, que financiar déficits correntes fosse problema do passado. No momento em que o financiamento dos subdesenvolvidos declina de US$ 338 bilhões em 96 para US$ 168 bilhões no ano passado, quando já se começa a suspeitar que investir nos mercados emergentes está deixando de ser parte do portfólio dos grandes fundos, não seria suicida a política de teimar em apostar na volta da liquidez? Não teria sido factível adotar política de competitividade exportadora que permitisse reduzir a dependência financeira do exterior, como fizeram em dois anos os asiáticos vítimas da crise de 97, ou quase eliminá-la, como fazem a China e a Índia? Não pense que as perguntas tragam as respostas embutidas. Como você, prezado leitor, tateio no escuro e busco certezas que não tenho.

Já não é a mesma minha atitude em matéria social. Um respeitado órgão oficial, o Ipea, demonstrou cabalmente que a desigualdade e a miséria não necessitam esperar por crescimento acelerado, mas podem ser atacadas, aqui e agora, se houver vontade e políticas corretas.

Os candidatos, do governo ou da oposição, têm o dever de superar a tirania do "status quo". Como você e eu, como o sociólogo e o economista, eles são privilegiados, pessoalmente desenvolvidos, em terra de subdesenvolvimento. Seria fácil e compreensível, mas seria uma traição se deixássemos que a situação de conforto pessoal nos ditasse inconscientemente a resignação em lugar da angústia por alternativa difícil, mas melhor para os excluídos e marginalizados. É preciso que eles e nós nos inspiremos na frase de Walter Benjamin que fecha o livro de Marcuse: "É apenas por causa daqueles que não têm esperança que a esperança nos foi dada".

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