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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Apocalípticos e integrados

03/03/02

 

Rubens Ricupero

UM ABISMO crescente separa os contestatários, violentos ou não, da globalização _Seattle, Gênova, Porto Alegre_ dos partidos de esquerda que afirmam partilhar algumas dessas preocupações, mas se revelam incapazes de dar-lhes conteúdo concreto uma vez no poder. Nem os primeiros merecem inteiramente o epíteto de apocalípticos, pois não são em geral niilistas ou utópicos, nem os últimos fazem jus à designação de integrados, posto que proclamam querer reagir contra o pior da "desordem estabelecida". O título emprestado ao livro de Umberto Eco pecará talvez por imprecisão, no varejo, mas capta, no atacado, o sentido aproximativo desse contraste.

Os principais líderes dos "integrados" acabam de reunir-se em Estocolmo, embora tenham preferido chamar-se de "modernizadores", nome que não sei se foi o oficial, mas é o que saiu na imprensa européia. Já por aí se introduz a confusão e a ambiguidade. Modernizar, palavra neutra em matéria de valores morais, pode simplesmente servir de pretexto para justificar a adesão ao paradigma dominante, desqualificando, ao mesmo tempo, como dinossauros pré-históricos, os que a ele resistem.

É expressão que transmite também a idéia de que a política não tem nada a ver com o problema da justiça, da equidade, da desigualdade, da dignidade humana, da opressão. Governar seria apenas, como se disse a propósito do "fim da história", atividade assepticamente técnica, a monótona aplicação de soluções cientificamente na moda, isto é, "modernas", às questões fundamentais da sociedade. Antigamente, falava-se em reformismo ou socialismo, termos que, embora não isentos de ambivalência, indicavam a intenção básica de corrigir desequilíbrios na repartição do poder político ou econômico em favor dos mais débeis. Modernização, ao contrário, evocaria em certas condições o que foi descrito por intérpretes da evolução histórica brasileira como "modernização conservadora". É um processo, em certos casos ambicioso, de alteração política, chegando mesmo às vezes à mudança de regime _a Independência, a Proclamação da República, a Revolução de 30_, mas sem tocar em profundidade nas estruturas sociais e econômicas. Dirigentes antigos são substituídos por "modernos", esses dispõem-se até a cooptar membros da velha classe dirigente _a exemplo dos conselheiros do Império, Rodrigues Alves e Afonso Pena, elevados a presidentes da República_, mas não há transformações para valer nas posições respectivas de dominadores e dominados em termos de poder ou de riqueza.

A consequência é que os inconformados com o desconserto do mundo já não se reconhecem mais nos partidos ou sindicatos que os representavam antes, apesar de não se terem ainda decidido a criar formalmente novas organizações partidárias. Como raios de circunferência, os herdeiros da tradição marxista original ou modificada _comunistas, socialistas, reformistas_ vão se afastando cada vez mais entre si à medida que se distanciam do comum ponto de partida.

Conforme ocorreu, aliás, com os descendentes espirituais da Revolução Francesa, que deram tanto os hoje impropriamente chamados de radicais, quase sempre esteios da direita burguesa na Europa, como os jacobinos, próximos à família de esquerda. Esse divórcio gradual _mas não totalmente consumado_ entre apocalípticos e integrados é como a rearrumação de camadas geológicas que se segue a um terremoto. O cataclismo aqui foi o desaparecimento da União Soviética e do comunismo "real", que deixou o movimento socialista sem a pressão que o obrigava a tomar distância em relação ao capitalismo dominante.

O segmento mais criativo e em expansão desse movimento outrora dinâmico e revolucionário é o que desce à praça pública em Gênova ou se reúne em fóruns de discussão para tentar desenvolver alguma alternativa para o que aí está. Os restantes, os "aparatchik" do maior partido no poder no mundo, o dos ex-comunistas e ex-socialistas, dão a impressão de que, ao perderem a fé na revolução e em Marx, perderam a fé em si mesmos. De outro modo não se explica que nem sequer tentem esboçar no governo alguma tímida iniciativa de regulação dos excessos que clamam aos céus. Ao contrário, para espanto nosso, no momento em que o escândalo da Enron desvenda a canalhice de megaempresários que literalmente saquearam os cofres das pensões das viúvas e órfãos, quando, após arruinar companhias sólidas, dirigentes empresariais são recompensados com "pára-quedas de ouro" de dezenas de milhões de dólares, a "terceira via" inglesa propõe uma aliança com o governo Berlusconi para flexibilizar o mercado de trabalho na Europa, isto é, para desfavorecer e tornar ainda mais inermes os direitos do trabalho diante do poder já quase incontrastável do capital.

Não surpreende assim o desencanto de militantes como Nanni Moretti, que, antes de seu recente desabafo contra os dirigentes do Olivo, ainda no tempo do defunto governo de centro-esquerda na Itália, implorava, quase por amor de Deus, ao primeiro-ministro, oriundo do antigo partido comunista: "Por favor, D'Alema, diga alguma coisa de esquerda!". O pior é que o desencanto leva às vezes a tentativas desesperadas de afirmar a própria identidade mesmo à custa de entregar o poder à direita. Foi o que aconteceu na Itália, onde o fato principal da vitória de Berlusconi deve ser buscado na decisão da Rifondazione Communista de não retirar seus candidatos no segundo turno. O mesmo sucedeu nas eleições americanas, com a opção dos democratas de esquerda de votar por Ralph Nader, selando a derrota de Al Gore. Perigo similar ronda as eleições francesas, não só com o aparecimento de Chevènement, mas devido ao fortalecimento relativo da candidatura trotskista de Arlette Laguiller. Não é muito diferente a situação na Alemanha, tanto de Schröder como dos Verdes.

Não se trata de perspectiva para alegrar quem não acredita que dá na mesma ter no poder a direita reacionária ou a esquerda, ainda que na versão moderada que prevalece na Europa Ocidental. Infelizmente, porém, é essa última que cava a própria sepultura, ao resignar-se ao "status quo", abandonando o esforço de constituir verdadeira alternativa. Esquece, dessa maneira, a lição de Bobbio: com o desaparecimento, no mundo pós-Guerra Fria, da possibilidade de opções radicais e revolucionárias, o que continua a justificar a existência da esquerda é a crença de que os privilégios e a desigualdade não são elementos inseparáveis da ordem natural das coisas, mas produtos de escolhas da sociedade, podendo ser corrigidos pelos homens, ainda que de forma gradual e imperfeita.

Ao sustentar que os desequilíbrios e as assimetrias da atual estrutura socioeconômica são inevitáveis ou representam até estímulos desejáveis à competição, os herdeiros das lutas operárias contra o capitalismo selvagem do século 19 renegam sua história e renunciam à sua única razão de ser. Inelutavelmente, passam a merecer o destino da condenação evangélica: "Se o sal perde a capacidade de salgar, para que há de servir senão para ser lançado fora?".

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