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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Relembranças

04/08/02

 

Rubens Ricupero

DESCONFIO de que deva ser irremediável sintoma de velhice o sentimento de já haver antes vivido, uma ou várias vezes, situações que parecem inéditas no noticiário de hoje. Não faz muito, tinha a impressão de reviver o instante de minha volta como embaixador em Washington, 11 anos atrás, em tempos de Bush pai, ao ver de novo repetir-se a combinação de uma guerra contra o Iraque com a ameaça da crise econômica.

Sinto, desta vez, algo parecido ao assistir ao insuportável espetáculo da tentativa de impor aos candidatos compromissos irrazoáveis sobre a dívida externa, posto que antecedem não só a responsabilidade do governo mas até o conhecimento circunstanciado das condições financeiras que os esperam. O episódio que me vem agora à memória é ainda mais antigo, quase atingindo a idade da maioridade de 18 anos. Tem a ver com o choque que desestabilizou Tancredo Neves poucas semanas antes da posse, ao descobrir-se vítima de golpe traiçoeiro que teria consequências fatídicas para a história interminável e deprimente da nossa dívida.

Nestes dias, tenho pensado muito no ocorrido, pois andei a remexer no baú das coisas mortas graças ao interesse do editor Quartim de Moraes de publicar o diário no qual registrei, dia a dia, a viagem ao exterior do presidente eleito, o único "momento presidencial de Tancredo" nas palavras de Celso Lafer em memorável artigo. Da Roma de João Paulo 2º à Lisboa de Mário Soares, o itinerário havia sido uma sucessão de afagos, aplausos e augúrios pela volta da democracia ao Brasil. Temíamos que a etapa norte-americana nos reservasse alguns sobressaltos e, embora não tivéssemos tido problemas com o secretário do Tesouro de então, nossas piores apreensões foram confirmadas por cilada armada de direção inesperada.

Assoberbado por mil e uma preocupações, a maior das quais a incerteza quanto à disposição efetiva dos militares de transferir o poder a que se haviam agarrado por 21 anos, Tancredo queria evitar fazer ondas que agitassem ainda mais aquela conturbada fase de transição. A última coisa que poderia desejar seria reabrir prematuramente a questão da dívida, que tinha o dom de estilhaçar como nenhuma outra o já rachado PMDB. Seu interesse, ao contrário, era agir na sombra, em apoio discreto aos esforços do ministro Delfim Netto para consolidar o arcabouço negociado com base em tripé constituído pelo acordo já existente com o FMI, as tratativas com os bancos privados e o acerto com os credores oficiais do Clube de Paris. A fim de evitar fornecer pretexto a dúvidas sobre essa estratégia, cronometrou sua chegada à capital americana de maneira a não ter que encontrar-se com o diretor do Fundo, De Larosière, de partida para a França. Esperava-o, contudo, coisa pior, como se verá.

Passou-se tudo num cinzento dia de neve e lama, 1º de fevereiro de 1985, para ser preciso, às 15h30. O presidente eleito recebeu no hotel Madison a visita do secretário de Estado de Reagan, George Schultz, o mesmo que, após longo eclipse na aposentadoria, reemerge agora como profeta da doutrina do ataque preventivo contra países como o Iraque (qualquer semelhança, como se diz, é mera coincidência). Este vosso criado serviu como cronista do encontro, do qual guardo até hoje relato minucioso.

Schultz apresentou-se como simples mensageiro da intenção do FMI, insuspeitada até então, de denunciar o acordo com o governo brasileiro, pondo igualmente a perder a possibilidade de avançar nas negociações com os bancos e com o Clube de Paris. A justificativa para essa decisão insólita a poucas semanas do fim do mandato do presidente Figueiredo era que o governo tinha ultrapassado de longe as metas monetárias da última carta de intenção, sacrificando a previsão de uma taxa inflacionária anual de 120%. Insinuava-se que a alternativa para a denúncia seria a reformulação do acordo, caso o futuro mandatário, ou alguém de sua confiança, se encontrasse com De Larosière (aqui também a semelhança com as atuais pressões sobre os candidatos não passará certamente de coincidência).

Farejando a armadilha, Tancredo apelou a Schultz para usar a sua influência e a do governo americano a fim de persuadir o FMI a não precipitar ação de consequências imprevisíveis. Admitia o erro das autoridades brasileiras, mas argumentava que o Fundo tinha coonestado metas irrealistas, não tendo existido sinceridade de uma parte e de outra. A todos os apelos, que foram pertinazes e persuasivos, o secretário de Estado limitou-se a dizer que nada tinha com o assunto ("it's not my business"), que veria o que se poderia fazer, mas a solução estava em mãos da direção do FMI, a qual não "teria condições de permanecer indiferente ante a própria pressão da opinião pública"! Tancredo disse, a certa altura, palavras proféticas que se cumpririam com Sarney: "Se nos faltar o apoio necessário no início do governo, se tivermos de chegar à ruptura com o sistema financeiro internacional, o que de maneira alguma desejamos, pois é o pior que nos pode acontecer, haverá três consequências sérias: a redemocratização sofrerá um grave golpe, perder-se-á o controle da inflação e os problemas sociais se tornarão explosivos".

Não tenho espaço para contar os detalhes da conversa, em aparência cordial, mas na verdade dramática e tensa, deixando profundamente abalado o futuro presidente. Quem conhece a longa história de concubinato entre o FMI e o Tesouro dos EUA decidirá por si mesmo se julga verossímil a versão de Schultz ou a explicação de que, sentindo o momento de debilidade, os credores e seus aliados oficiais tentaram forçar o governo entrante a amarrar-se de pés e mãos como fazia o mágico Houdini, até que um dia ficou no fundo do mar. Foi tudo em vão e, em lugar de apoio a uma transição ordenada, herdou-se uma situação que levou à moratória de 1987. De todo esse distante episódio, aprendam ao menos os candidatos a lição de dignidade desta frase do dr. Tancredo: "Minha preocupação não é com o ponto de vista do FMI ou dos EUA, mas com a nossa própria sobrevivência".

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