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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Exportar não basta

05/05/02

 

Rubens Ricupero

EMBORA O aumento significativo das exportações seja condição indispensável para o Brasil superar o estrangulamento externo, não é por si suficiente para assegurar o verdadeiro desenvolvimento. Ao contrário de crença generalizada, a expansão das exportações nem sempre acarreta o crescimento acelerado da economia ou sua mudança qualitativa. Pode acontecer que um país faça crescer enormemente suas vendas externas e, em vez de melhorar, acabe piorando em valor adicionado dos produtos exportados.

Essas são algumas conclusões do estudo que a Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) vem de divulgar (www.unctad.org/en/pub/ps1tdr02.en.htm). Nele se verifica, por exemplo, que nos últimos anos os países industrializados reduziram suas exportações de manufaturas de 80% para 70% do total mundial, mas melhoraram, ao mesmo tempo, o valor agregado e a renda que extraem dessas vendas. Enquanto isso, os países em desenvolvimento aumentaram até cerca de 30% sua participação como fornecedores de manufaturados, mas, salvo poucas exceções, não expandiram de modo expressivo o valor adicionado das exportações.

A explicação dessa disparidade se encontra nas cadeias globalizadas de produção, pelas quais as empresas transnacionais transferem para regiões de mão-de-obra barata as operações de montagem de produtos complexos cujos insumos de alto conteúdo tecnológico e maior preço continuam a ser importados das nações ricas. Os locais onde se faz a montagem _México, Malásia, Indonésia, China_ entram sobretudo com o trabalho barato, e, em certos casos, com recursos naturais ou componentes mais simples. O recheio tecnológico, contudo, tem de vir da matriz ou dos países avançados detentores da tecnologia. Crescem as exportações, mas expandem-se quase ao mesmo ritmo as importações das peças de maior preço. É claro que sempre se ganha em geração de empregos e renda de exportação, mas é pouca coisa o que se acrescenta em valor aos componentes importados. É como os comerciantes que se queixam de vender muito volume, mas de ter pouco lucro.

A Unctad retoma, nesse relatório, a tradição de publicar a lista dos produtos de maior dinamismo no comércio mundial, aqueles cujo intercâmbio às vezes aumenta a taxas até três vezes mais aceleradas do que a média. Verdadeiros filés mignons do comércio, esses itens se beneficiam de demanda em contínua expansão nos mercados consumidores e oferecem maiores possibilidades de ganhos de produtividade. Dessa vez, são examinados 225 produtos, dos quais um terço _a maioria primários mas também alguns tipos de maquinaria_ está em declínio. As mercadorias mais dinâmicas formam um conjunto seleto constituído por quatro categorias principais: 1ª) produtos elétricos e eletrônicos (computadores, componentes, equipamentos de escritório, material de telecomunicação); 2ª) artigos sofisticados que exigem alto investimento em pesquisa e desenvolvimento (material médico-hospitalar, por exemplo); 3ª) tecidos e confecções, cuja fabricação é intensiva em mão-de-obra; 4ª) algumas poucas commodities, como seda e bebidas não-alcoólicas.

Não é preciso dizer que, nesse conjunto, o Brasil brilha pela ausência, comparecendo, em compensação, com forte presença entre os que se encontram em declínio, estagnados ou apresentam baixo crescimento e excessiva oferta de competidores. Aliás, a América do Sul só exporta 2 entre os 20 produtos mais dinâmicos (bebidas não-alcoólicas e artigos de malharia). Em compensação, os seis primeiros produtos de exportação do continente são todos artigos primários, agrícolas ou minerais. Dentre as 20 exportações sul-americanas de crescimento mais apreciável, nada menos do que nove são produtos primários. É o retrato típico do subdesenvolvimento, incapaz de se libertar da dependência quase exclusiva de recursos naturais ou resultantes de mão-de-obra barata.

Alguns dos exportadores de itens dinâmicos enfrentam dificuldades para superar o estágio de linha de montagem (as maquiladoras mexicanas, por exemplo) e passar ao patamar superior em matéria de incorporação de maior conteúdo local, por meio de tecnologia própria e do estabelecimento de vínculos com supridores locais. Os raros países que conseguiram aumentar de forma rápida a exportação de produtos complexos, melhorando continuamente o índice de valor agregado, são ou os baseados predominantemente em empresas e tecnologia nacionais (Coréia do Sul, Taiwan) ou os que souberam negociar de maneira vantajosa com as transnacionais (Cingapura). As únicas economias que se mostraram capazes de diminuir a brecha que as separava das nações ricas, convergindo, como dizem os economistas, para níveis de renda per capita próximos dos dos países adiantados e às vezes até ultrapassando alguns desses últimos, foram precisamente os integrantes desse pequeno grupo de países asiáticos. Em outras palavras, são eles, até agora, os únicos e exclusivos exemplos de verdadeiro desenvolvimento.

A lição para o Brasil é evidente. Temos de explorar ao máximo as possibilidades de atrair investimentos estrangeiros dispostos a ajudar-nos a aumentar as exportações. Seria, porém, ilusório imaginar que isso nos aportará a autonomia exportadora de que necessitamos. Para tanto, é indispensável construir uma rede de empresas nacionais fortes, competentes para desenvolver tecnologia própria e capazes de exportar sozinhas ou de estabelecer, com esse fim, vínculos como fornecedoras de insumos brasileiros aos produtos das transnacionais. Isto é, precisamos não só aumentar a quantidade (como em café ou soja) mas a qualidade das exportações.

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