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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Ópio do povo?

07/07/02

 

Rubens Ricupero

DIANTE DA febre do futebol, que, por uns dias, uniformizou as reações e emoções de povos tão distintos como os da Alemanha e do Senegal, da Coréia do Sul e da Inglaterra, é difícil não evocar a tese do 'homo ludens', do ser humano motivado essencialmente pelo jogo, os de brinquedo como o esporte e os "reais" ou "sérios" como a política e a economia. Não faltou até quem descrevesse o futebol como o substituto moderno da religião, o "ópio do povo" denunciado por Marx, contrastando o entusiasmo dos estádios com a falta de interesse pelas eleições ou com as igrejas vazias.

Os europeus, que vivem num mundo muito mais dessacralizado ou "desencantado" do que o nosso, tiveram certa dificuldade em compreender a religiosidade dos brasileiros após a partida final, tomando-a por remanescente do espírito dos anos 70 ou pela superstição de povos infantis. Não se deram conta de que, no jogo como na vida, jogar bem ou melhor nem sempre basta.

Há sempre margem para aquele imponderável ou imprevisto que decide as batalhas, sorte ou providência, azar ou desígnio misterioso de Deus. Para Maquiavel, é a diferença entre "virt—" e "fortuna". Para outros, é o que separa a força das armas e dos músculos, o ímpeto dos carros e dos cavalos, da vontade de Deus, Senhor da História, que dá às vezes a vitória aos fracos, que desfaz os projetos das nações e destrói os planos que os povos se propõem.
Foi, aliás, por captar os ecos das invocações do Antigo Testamento que o ministro anglicano Jeremy Fletcher publicou no sisudo "Times" de Londres, na véspera do jogo da Inglaterra contra o Brasil, essa inacreditável prece: "Oh Senhor! que tua mão se levante e aniquile a potência de Ronaldo e Rivaldo" (esqueceu-se de Ronaldinho, erro fatal!). "Se necessário, oh Senhor, conceda-nos um gol duvidoso de impedimento no último minuto do jogo para que o mundo inteiro reconheça que és o nosso Deus. Que o gol deles seja, para nós, tão espaçoso quanto um hangar de avião e que seu goleiro não seja mais alto que uma formiga."

Voltando, porém, a Marx, não julgo apropriado comparar com o ópio o futebol, que, longe de ser fumaça e ilusão, produz alegria verdadeira, emoção autêntica e pura, ainda que não dure, como tudo o mais da humana experiência. Ao menos ela é gratuita, igualitária e democrática, uma das únicas e raríssimas ocasiões para celebrar e alegrar-se que ilumina os olhos e aquece o coração da nossa gente humilde, do povo pobre e escuro que se dependura em árvores e se apinha nas ruas para aplaudir heróis saídos do seu meio, carne de sua carne.

Passei em Alexandria e no Cairo os dias que antecederam a final da Copa e vi como no Egito, em toda a África, as pessoas se identificavam com os jogadores brasileiros, Ronaldo ou Ronaldinho, como "um deles", palavras que ouvi de um embaixador africano e que ele não aplicaria obviamente a ingleses ou alemães. Pouco depois, estava em Nova York quando a televisão mostrou a volta da seleção, os jogadores e populares irmanados no mesmo estilo afro de expressar o júbilo por meio dos tambores e da dança, da percussão e do corpo. Pensei como tudo isso dava ironicamente razão a um ex-ministro da Fazenda que, anos atrás, com intenção evidentemente não-lisonjeira, se queixava de que éramos o país mais ocidental da África. Não só da África, seria mais exato dizer, mas de muitas outras partes, pois, conforme observava judiciosamente Tostão a um jornal francês, o Brasil é por excelência a pátria do futebol porque também é o país da mestiçagem por excelência. Isto é, por ter ido mais longe na mistura, não só de sangue, mas de culturas e modos de ser, o país consegue aproveitar melhor os seus inúmeros componentes étnicos, a totalidade da herança, corpo e alma, qualidades físicas, mas também a malícia, a graça, a manha de cada ingrediente da receita de povo.

Em tom mais sério ou prosaico, o "Financial Times" afirmou que o futebol brasileiro é exemplo isolado de algo que falta ao Brasil em outros domínios _uma indústria exportadora de sucesso. Demonstraria igualmente que a combinação de método, estratégia e disciplina com o instinto criativo natural pode produzir modelos de êxito, não só para o esporte mas para a economia do país.

Para mim, sobrevivente do trauma da Copa de 50, a saga coletiva da seleção e a individual de Ronaldo ajudam a superar o medo inconfessado de que éramos fracos de nervos e resolução, fáceis de perder coragem quando as coisas começavam mal para nós. Provou que a garra não é apanágio de outros, que somos capazes de reagir contra a adversidade, mesmo desfavorecidos pela sorte inicial.

O fascínio, a vibração da Copa têm explicação adicional. O mundo fora dos gramados, o dos bombardeios que massacram inocentes, das bombas que trucidam crianças e mulheres, dos muros e cercas que aprisionam os desesperados, esse mundo está a cada hora mais sinistro e ameaçador. Quem se espantará de que as pessoas busquem um pouco de alegria no jogo?

Por falar em alegria, um dos comentários mais perceptivos que li foi o de Jacques Buob, no "Le Monde" de 2 de julho. "O que é bom com os brasileiros", escreveu, "é que todo mundo fica contente quando eles ganham. Os próprios perdedores não lhes querem mal... Nenhuma equipe no mundo provoca tal empatia". Após ensaiar várias explicações, conclui: "Será talvez essa filosofia do jogo, sua maneira cortês de conceber o futebol e essa alegria de viver que existe neles, um pouco infantil, e por isso sempre emocionante. Quando eles ganham, a gente se sente feliz com eles; quando perdem, choramos com eles". O Brasil não poderia desejar elogio maior.

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