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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Um ano depois: o sentido dos acontecimentos

08/09/02

 

Rubens Ricupero

MAIS DO que a aterradora explosão dos aviões contra o World Trade Center, a imagem que melhor simboliza o contraste do mundo, antes e depois do 11 de setembro, é a da demolição ou edificação de muros. A primeira é, sem dúvida, mais poderosa e dramática visualmente, sendo provável, porém, que não passe de episódio terrível, mas único, isolado, que não se repita, ao menos nesse grau de surpresa e intensidade. A segunda não se esgota no momento do evento. Tende a perdurar, a prolongar seus efeitos muito além do ato.

Utilizando o vocabulário de Fernand Braudel, as catástrofes de Nova York e Washington foram acontecimentos, relâmpagos exterminadores, mas instantâneos, cujo sentido tem de ser buscado além dos fatos. Já o desmantelamento ou a construção de muros são ações que se estendem no tempo, destinadas a durar e a explicar melhor o sentido dos acontecimentos.

O que caracteriza, a meu ver, a nova era histórica cujo começo coincide com o do século não é o terrorismo, e sim fenômeno mais profundo e universal: a insegurança geral de ricos e pobres diante de mundo injusto e desequilibrado, cada vez mais instável e imprevisível. O período pós-Guerra Fria abre-se com a destruição do Muro de Berlim, promessa de que se poriam abaixo todas as barreiras que separavam os seres humanos. Assim se fez efetivamente durante alguns anos e vimos como foram sendo arrasadas as muralhas do apartheid, as que dividiam em duas metades a Alemanha, a Europa, as que subjugavam países anexados à força à União Soviética, à Iugoslávia, ou impediam a pacificação do Camboja, da América Central, do Afeganistão (na primeira fase, da invasão soviética).

De igual maneira foram sendo desmontados os obstáculos comerciais à livre circulação de mercadorias, com a conclusão da Rodada Uruguai e a criação da OMC (Organização Mundial de Comércio), bem como os financeiros, que estorvavam o fluxo de capitais de empréstimo ou investimento, na fugaz etapa de liquidez que alguns entre nós fatidicamente tomaram como permanente.
As duas tendências _o fim da Guerra Fria político-ideológica e a globalização econômica_ se reforçavam mutuamente e convergiam para um ponto de fuga de unificação do planeta, que os apressados interpretaram como o fim da história.

De repente, não mais que de repente, o "mistério da iniquidade" de que falava o apóstolo Paulo estilhaça essa ilusão radiosa e traz de volta a alternância entre paz e guerra, progresso e retrocesso, a tensão entre unificação e divisão ("diabolus" em latim, "diabolos" em grego, significa "aquele que desune, que separa"). O 11 de setembro põe fim ao período de pós-Guerra Fria. Doze anos após a derrubada do Muro de Berlim, os muros regressam mais fortes que nunca para separar os homens: o de Israel contra os terroristas suicidas; os dos europeus contra imigrantes pobres e refugiados; os do protecionismo dos EUA e da Europa contra as importações de aço, de produtos agrícolas ou sensíveis dos países pobres; as barreiras de metal para isolar os manifestantes; as cercas para defender a Casa Branca ou o Congresso.

Nem todos os muros são iguais. As paredes de uma prisão, o arame farpado de um campo de concentração não devem ser comparados às grades destinadas a proteger as famílias contra os assaltantes ou a essas muralhas medievais que os mais bem aquinhoados são obrigados a erigir em torno dos condomínios fechados. Quase sempre, contudo, quando se levanta um muro é porque fracassaram ou não se tentaram soluções de fundo para os problemas. O urbanismo anglo-saxônico, ingenuamente copiado em Brasília, desejava apenas gramados entre as casas, idealizando uma sociedade na qual não seria necessário trancar as portas a chave.

Piores que todos são às vezes os muros mentais que edificamos dentro de nós mesmos para evitar ter de aliviar a tragédia argentina, para não ver os africanos devastados pelas doenças e a miséria, os palestinos comuns, não os terroristas, humilhados e empurrados ao desespero, o incomensurável aviltamento das nossas crianças de rua, a degradação dos nossos miseráveis, forçados a dormir na calçada e a comer no lixo.

Em menos de um ano, o período pós-11 de setembro teve já duas fases nítidas. A primeira parecia buscar um consenso amplo contra o terrorismo por meio da ONU, das resoluções do Conselho de Segurança, de uma coalizão não-limitada aos aliados ocidentais. Para isso, seria preciso ir além do combate policial-militar ao terrorismo e atacar as raízes socioeconômicas, político-culturais do problema, desse e de outros que assolam o mundo, como o do Oriente Médio, por exemplo.

Exigiria generosidade, tolerância, disposição de escutar o "outro", de compreender-lhe as dificuldades. Preferiu-se, infelizmente, caminho em aparência menos complexo, mas que é a semente de desastres futuros. O regime dos talebans e a famigerada Al Qaeda revelaram-se tigres de papel. Seu esboroamento inesperado e prematuro fecha a primeira fase e abre a segunda, caracterizada por clareza muito menor sobre quem é o inimigo. Antes não havia dúvida: os adversários eram o terrorismo "de alcance global" e os governos que o protegiam. Agora as coisas são mais dúbias, como se vê em relação ao Iraque pelas divisões entre os aliados ocidentais ou as críticas de gente insuspeita de brandura ou pacifismo, Kissinger ou ex-colaboradores de Bush pai: o ex-secretário de Estado Baker, o general Brent Scowcroft, Lawrence Eagleburger.

Demonstradas a gravidade e a iminência da ameaça, ninguém se furtaria à solidariedade com os EUA ou aos outros ocidentais, desde que esses se mostrassem igualmente solidários aos demais naquilo que destrói a precária segurança das maiorias pobres, doentes, sem emprego nem esperança. A solidariedade, com efeito, ou é indivisível ou não é. Como, de fato, convencer do perigo iraquiano os habitantes das Ilhas Maldivas, das inúmeras outras ilhas e costas baixas do Pacífico, de Bangladesh, ameaçadas de afogamento pelo oceano, ao mesmo tempo em que as empresas petrolíferas dos ricos bloqueiam as medidas contra o aquecimento da atmosfera e o derretimento dos gelos polares? Ou de que maneira se poderá persuadir os africanos de que o combate ao regime de Bagdá é prioridade mais urgente que a luta contra a Aids, a malária ou a fome, que já exterminam a cada ano dezenas de milhões de seres humanos? É disso no fundo que se trata quando dizemos que as únicas soluções verdadeiras aos problemas atuais são as do consenso democrático e multilateral, não as do unilateralismo do poder, embora essas últimas sejam mais fáceis pois requerem apenas a adesão dos poderosos.

Longe de ser abstrações de diplomatas, essas antinomias simbolizam a determinação de derrubar os muros que separam as pessoas e impedem de ver o sofrimento ou a ilusão egoísta de construir novas muralhas físicas ou mentais, condenadas a desmoronar um dia como as de Jericó ou da Babilônia.

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