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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

É tempo de murici...

10/11/02

 

Rubens Ricupero

JÁ LEMBREI aqui o episódio, um dos mais patéticos de Canudos. Ao tombar em combate Moreira Cesar, o comando da expedição passa ao coronel Pedro Nunes Tamarindo, nas palavras de Euclides, "homem simples, bom e jovial, avesso a bizarrear façanhas", que, interpelado ansiosamente por um oficial naquele lance desesperado, responde "com humorismo triste, rimando um dito popular do norte: 'É tempo de murici/Cada um cuide de si...'". Redimindo-se do instante de fraqueza, Tamarindo, "destemeroso e infatigável na hora da catástrofe", iria morrer tentando deter a debandada. Três meses mais tarde, os novos expedicionários deparariam com renques de caveiras branqueando nas orlas do caminho e "um manequim (...) lúgubre (o corpo do coronel) empalado, erguido num galho seco, de angico, (...) o espectro do velho comandante...".

Murici, ensinam os dicionários, é fruto que só floresce em seca braba. O sentido da expressão é óbvio: quando apertam as condições externas, cada qual deve confiar nas próprias forças. Poucos conselhos seriam mais apropriados a esses tempos agrestes. Basta pensar em quantas perguntas desde o ano passado continuam sem possibilidade de resposta certa. Haverá guerra contra o Iraque e, se houver, quando e como, curta ou longa, sangrenta ou fácil, com ou sem destruição de instalações petrolíferas, de impacto desprezível ou catastrófico sobre as cotações do óleo e as economias dependentes do combustível?

Abstraindo da guerra, o que vai suceder com a economia americana e, por tabela, com a mundial, dentro do feixe de cenários diversos contemplados: recuperação vigorosa ou frouxa e sujeita a recaídas, dupla recessão ou nova expansão puxada pela produtividade tecnológica? E os consumidores americanos, seguirão perdendo confiança na economia e reduzindo as compras ou voltarão a impulsionar o ritmo das atividades? Quanto tempo levará para absorver o excesso de investimento em telecomunicações e informática, que efeitos terão os escândalos e falências fraudulentas sobre os bancos e o mercado financeiro? E este último, voltará a ter apetite para arriscar dinheiro em economias vulneráveis como as da América Latina, mesmo se for correto o comportamento dos governos da região?

Perguntas como essas podem ser multiplicadas "ad nauseam", tal é o grau de incerteza que se abateu sobre o mundo. Incerteza não é necessariamente sinônimo de desgraça. É apenas a impossibilidade de calcular de modo razoavelmente seguro qual dos possíveis cenários embutidos em cada alternativa, o pessimista ou o otimista, têm maior probabilidade de se realizar.

Em outras palavras, a incerteza está na raiz da insegurança, e esta tende a converter-se em apreensão, medo ou desesperança quando os fatos negativos _perda de confiança dos consumidores, aumento do desemprego, ameaças e preparativos de guerra_ começam a prevalecer nitidamente sobre os sinais positivos. Nesse momento, isto é, quando a insegurança passa a ser apreensão, ela mesma se transforma em fator autônomo de agravamento, ao induzir, por exemplo, os agentes econômicos a adiar o investimento ou o consumo para dias melhores. É assim que as expectativas psicológicas agem sobre a economia ou a política: às vezes, esperar o pior ajuda a que ele aconteça.

Em conjuntura como a atual, caracterizada por rápida e súbita deterioração das expectativas e excepcional aumento da insegurança, não existem remédios absolutamente eficazes nem políticas que mereçam a qualificação de ideais. Para um governo como o americano, cujas iniciativas determinam, até certo ponto, a direção dos acontecimentos, é diferente: muito depende do que ele faça ou deixe de fazer no domínio da estratégia ou da economia, o que será mais verdade agora que a vitória eleitoral, devida em parte à insegurança, possibilitará ao presidente Bush controlar o Congresso e as decisões. Alguns poucos, também dotados de poder relativo, farão diferença se se mostrarem capazes de vontade e inteligência para bem usar o poder limitado de que dispõem, conforme vêm tentando a França e, em grau menor, a Rússia, na Conselho de Segurança da ONU. No caso da maioria, embora haja sempre um espaço de influência maior ou menor a ser aplicado na melhoria do contexto externo, o principal será utilizar ao máximo o potencial insuficientemente explorado para encontrar nas próprias forças a solução de problemas que, ao menos parcialmente, dependem de cada país.

Parafraseando célebre frase de um presidente americano e aplicando-a à nossa situação, não se trata tanto de perguntarmos o que o mundo exterior, o mercado financeiro de Wall Street ou as negociações comerciais da Alca ou de Genebra podem fazer pelo Brasil, mas sim o que nós, brasileiros, podemos fazer para aumentar a poupança doméstica e a taxa de investimento, a fim de ampliar e diversificar as exportações. Longe de exigir o comportamento irrealista de dar as costas ao mundo, a "self-reliance" ou auto-ajuda, tal como praticada pelos asiáticos, é que tornará mais favorável a atitude dos mercados financeiros, pois, ao diminuirmos a necessidade de empréstimos estrangeiros, estaremos, ao mesmo tempo, reduzindo-lhes o risco. Da mesma forma, é o esforço de expandir a oferta exportável em quantidade e qualidade, agregando valor aos produtos pela inovação tecnológica, aliviando-lhes o custo por meio da supressão de impostos, da maior eficiência da burocracia e da infra-estrutura de serviços, que nos dará posição mais confortável para negociar acordos comerciais, libertando-nos da excessiva concentração em produtos complicados da agricultura.

Foi o que ocorreu em época de insegurança mais grave, a da Grande Depressão dos anos 30 e a da Guerra Mundial dos 40. O Brasil teve de sobreviver, socorrendo-se mais de recursos internos, tanto financeiros para relançar o crescimento quanto industriais a fim de suprir importações que não podia pagar ou simplesmente não eram disponíveis em razão da economia de guerra. Nem por isso nos desvinculamos do mundo. A construção de Volta Redonda e a ativa participação no conflito provam que as duas tendências se reforçaram mutuamente. Tal como então, o problema não se apresenta hoje em termos de disjuntiva extremada: a subordinação de tudo _mesmo a esperança dos pobres_ a uma globalização financeira radicalizada ou a ruptura evitável e tendente ao isolamento e à marginalização. Nossa experiência do passado e a contemporânea de três outras grandes nações-continentes, a China, a Índia e, cada vez mais, a Rússia, revelam caminho alternativo. É o de conciliar a mobilização dos consideráveis recursos humanos e materiais de mercados gigantescos com a inserção qualitativa e gradual na economia mundial, com prudência redobrada na dosagem do uso de capitais estrangeiros que acarretam dependência e volatilidade. Cuidar de si, quer dizer, primeiro dos seus, em especial dos débeis e vulneráveis, na medida do possível com meios próprios, eis aí, em sentido não-pejorativo, a melhor maneira de atravessar tempos de murici.

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