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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

A carga da brigada ligeira

11/08/02

 

Rubens Ricupero

NA INTERMINÁVEL história da irracionalidade humana, o Brasil e Wall Street estão escrevendo em co-autoria um dos capítulos que melhor ilustram a literatura do absurdo. Vim a São Paulo a convite de "O Estado de S. Paulo" para participar de um seminário co-patrocinado pelo "Wall Street Journal", em que deveria fazer um comentário crítico sobre o que está acontecendo.

Pediram-me para que falasse sobre "os critérios de Wall Street e o contexto brasileiro". Não sendo um "insider" do mercado, como outros panelistas, nem podendo acrescentar sobre a situação brasileira informações mais atualizadas do que acabava de fazer Armínio Fraga, preferi submeter os famosos critérios a uma crítica política, ou, se quiserem, a uma crítica de economia política.

Principiei por uma frase que, naquele sacrossanto templo do mercado, soou com um sacrilégio, aquela em que Keynes dizia que a última coisa em que estava interessado era a chamada opinião bem informada de Wall Street. Partindo de um investidor sagaz, cujos bem-sucedidos investimentos lhe possibilitaram tornar-se um grande mecenas do balé, a frase merece ser levada a sério. Não pus em dúvida a sabedoria da definição legal americana segundo a qual quem investe recursos que lhe foram confiados por outros "deve agir com a prudência, a discrição e a inteligência" com que atuaria um homem de prudência ordinária com seu próprio dinheiro.

Infelizmente, o que se viu na recente "débâcle" de Wall Street é que tanto os analistas de ações como as firmas de contabilidade e auditoria, sem falar nos "boards" das empresas e em seus executivos, com frequência atraiçoaram a confiança dos acionistas e dos empregados. Não é exagero, assim, sustentar que, longe de demonstrar a prudência usual, muitos dos que formam a opinião de Wall Street revelaram alarmante falta de integridade e espantosos erros de julgamento, sendo este último o caso das agências de avaliação de risco.

Em lugar de adotar avaliações de longo termo, que encorajem a realização do potencial de crescimento da economia a longo prazo, os mercados acabam por inviabilizar os objetivos que desejariam atingir, isto é, condenam esses critérios a se tornarem "self-defeating" ao aplicá-los com ótica totalmente imediatista e míope.

Veja-se, nesse sentido, o exemplo brasileiro, no qual o governo e o Banco Central suportam o ônus de proteger ("hedge") o setor privado contra os riscos de mercado e de câmbio _seja por "hedges" em moeda estrangeira, seja por obrigações governamentais indexadas às taxas de juros de curto prazo ou à taxa de câmbio. A consequência é que os gastos do governo e as taxas de juros são mais altos do que seriam em outras condições, criando, assim, impedimentos naturais a um crescimento mais satisfatório. Pode-se dizer que o Brasil possui um setor privado relativamente "hedged" contra a volatilidade externa, mas paga para isso o preço de uma taxa de crescimento mais baixa. O potencial de crescimento da economia brasileira a longo prazo é substancialmente mais elevado que o logrado ao longo de quase uma década de tentativas de satisfazer Wall Street. Parece, portanto, um contra-senso que essas tentativas tivessem de impedir o país de crescer mais rápido, o que produziria menores déficits orçamentários, relações da dívida com o PIB e as exportações mais baixas, melhor lucratividade das empresas e, não esqueçamos, uma melhor avaliação de risco!

Mas os critérios ou a forma como são aplicados revelam-se igualmente "self-defeating" no plano político e na área psicossocial, como se diria nos tempos da ESG. O virulento acesso de volatilidade que vive o país deve-se inteiramente às expectativas sobre as eleições. Não é segredo que os mercados desejam a vitória da candidatura oficial por uma questão de continuidade. Deveriam, assim, logicamente ter criado as condições econômicas para maximizar as possibilidades de vitória da candidatura preferida por esses mercados: crescimento, expansão do emprego, melhoria da renda. Ora, o que se viu foi o contrário. A fim de agradar aos mercados, as autoridades econômicas esmeraram-se em medidas recessivas: juros altos, crédito estrangulado, cancelamento de gastos para gerar saldos primários, medidas essas que desaceleram ainda mais a já combalida economia. As agências não ficam atrás, invocando a consequente deterioração das expectativas eleitorais para rebaixar o risco brasileiro, agravando mais a situação. Tanto as agências e os mercados como o governo esqueceram o que bem sabia Adam Smith: a economia ou será política ou simplesmente não será, isto é, não terá condições políticas e sociais de sustentabilidade.

É estranho que os mercados se assustem com o avanço das oposições, quando eles próprios e o governo que os serve foram e são os principais responsáveis pela criação das condições ideais para que isso acontecesse. Se até o pai do presidente Bush perdeu em 1992 as eleições devido a uma recessão suave num país incomparavelmente mais próspero que o nosso, como é possível surpreender-se com a onda oposicionista em circunstâncias calamitosas como as brasileiras: desemprego recorde, crescimento anêmico, erosão do nível de vida das classes médias, desassossego e angústia com o colapso da moeda?

Essa verdade foi de novo evidenciada pelo debate sobre os recentes aumentos de tarifas e preços administrados. Os defensores de tais medidas em nome de princípios econômicos rígidos lembram o adágio: "Faça-se justiça, ainda que pereça o mundo", ou ao menos o mundo deles, o da continuidade. Pretender que aquilo que se julga a correta política macroeconômica tenha de ser aplicado doa a quem doer, oportuna e inoportunamente, num farisaísmo orgulhoso da própria virtude, sem olhar as consequências, evoca a carga da brigada ligeira na batalha de Balaclava. Ao obedecerem à ordem absurda e carregarem de peito aberto contra 36 canhões russos, os comandados de Lord Cardigan, estraçalhados pela metralha, foram imortalizados pela balada de Lord Tennyson e pelo filme em que brilhou Erroll Flynn. Não sei se os nossos galantes cavaleiros encontrarão um dia seu poeta ou seu galã. Lembro apenas que a última palavra foi dada pelo general francês Bosquet (artilheiro), que, ao admirar de uma colina o sacrifício da brigada exclamou: "C'est magnifique mais ce n'est pas la guerre!".

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