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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Começa mal o século

12/05/02

 

Rubens Ricupero

SE O SÉCULO 20 só começa de fato com a guerra de 1914, é cada vez mais claro que o 11 de setembro inaugurou, sob sinistros auspícios, o século que estamos principiando com medo, mais do que com esperança. Desde aquela data fatídica, uma sucessão de desastres vem escurecendo os horizontes não só políticos como econômicos das relações internacionais.

Os seguintes eventos de sentido invariavelmente ameaçador teriam de ser destacados em qualquer balanço, mesmo incompleto, dos sete últimos meses:

1º) A irrupção do terrorismo e da luta antiterrorista como princípio definidor da vida internacional e a militarização da política exterior;

2º) A explosão, fora de controle, do conflito do Oriente Médio;

3º) A crise argentina, seus efeitos de desintegração política e social e o perigo de que, deixada sem solução, ela termine por alastrar-se pela região;

4º) O avanço da extrema direita na Europa e o nefasto endurecimento que acarreta no tratamento tanto do problema crucial da migração como de outras questões ligadas à liberalização dos intercâmbios;

5º) A exacerbação do protecionismo nos líderes da economia mundial, ameaçando as perspectivas das negociações comerciais na OMC e na Alca e os sinais preliminares de que o dólar está entrando em área de turbulência.

Uma das características mais salientes dos atentados do ano passado foi reafirmar a absoluta primazia da política sobre a economia e do Estado sobre as chamadas forças espontâneas do mercado. Tanto a precipitação da recessão que já se vinha anunciando na economia americana como sua rápida superação graças aos vigorosos estímulos governamentais foram fenômenos de motivação essencialmente política.

Se alguém duvida ainda da autonomia do político, basta atentar para o que diz a imprensa americana acerca da próxima fase da ofensiva antiterrorista. Dias atrás, o "Herald Tribune" publicava, em primeira página, que um ataque contra o Iraque, que envolveria 250 mil homens, teria sido adiado para o início de 2003. A principal razão seria o recrudescimento do conflito árabe-israelense.

Outro motivo, contudo, residiria na necessidade de medidas acautelatórias contra o aumento dos preços do petróleo em decorrência das operações. Não sei, é óbvio, se o artigo tem alguma procedência. Utilizo-o apenas como exemplo do que me parece significativo. Um desdobramento como esse, de incalculáveis consequências para a frágil retomada da economia mundial, para os países pobres importadores de petróleo com enorme potencial de desestabilizar a vida dos milhões que dependem do automóvel nas nações ricas, é tratado como perfeitamente plausível, como risco aceitável diante da preeminência das considerações de segurança. Como ficamos longe da atitude de ontem, quando a globalização era apresentada como onda avassaladora e irresistível, a promessa exuberante de mercados em expansão perpétua, tornando a política mero exercício monótono de solução de problemas técnicos, conforme escrevia Fukuyama em "O Fim da História"!

Todos os acontecimentos ou tendências relacionados no início deste artigo possuem dois aspectos em comum. O primeiro é a supremacia indiscutível dos fatores políticos até em situações em que aparentemente predominam elementos econômicos. Ante as convulsões argentinas, a atitude de calculada insensibilidade, mesclada a uma dimensão de castigo, só se explica porque, em contraste com a Turquia, por exemplo, o nosso infortunado vizinho carece de importância político-estratégica. De igual modo, foram interesses políticos que ditaram as decisões sobre o aço ou a lei agrícola nos Estados Unidos, assim como a plataforma de proteção continuada à agricultura que saiu vitoriosa das eleições francesas. Em um caso como no outro, a opinião unânime dos mercados e analistas econômicos era contrária, mas de pouco ou nada valeu.

O segundo aspecto _particularmente presente no barril de pólvora do Oriente Médio e nas primeiras rachaduras na fortaleza do dólar_ é que tais fatos aumentam sensivelmente a já alta taxa de incerteza, imprevisibilidade e insegurança do sistema internacional. Não quer isso dizer que se caminha necessariamente para a catástrofe. É possível que o futuro nos reserve boas surpresas, que o conflito palestino-israelense acabe por encontrar o caminho da paz, que as negociações comerciais exorcizem os fantasmas do protecionismo, que aos poucos volte ao normal a situação argentina. Tudo pode acontecer, mas, se quisermos ficar no terreno da "tirania dos fatos", não há como esconder que os tempos se anunciam bicudos. Quando os cães da guerra voltam a correr soltos, é difícil imaginar que haverá o clima de confiança indispensável aos investimentos de longo prazo e ao crescimento acelerado das economias centrais e, por tabela, das dos periféricos como nós.

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