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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

O preço da glória

15/12/02

 

Rubens Ricupero

QUANTO CUSTARÁ essa guerra contra o Iraque, aparentemente inelutável como a morte, apesar dos esforços da ONU, da resistência ou má vontade do mundo quase inteiro? Em sofrimento, o custo das guerras é, por definição, incomensurável. Só a arte pode captá-lo, como tentou fazer Kubrick em 1957, em país mal saído do macarthismo e da Guerra da Coréia. "Paths of Glory" foi seu libelo definitivo contra a estupidez dos comandos, a insensibilidade cruel com que se sacrificam milhares de pobres vidas jovens ao carreirismo e à ambição política dos chefes. O impacto emocional não serviu de grande coisa; pouco depois, os americanos eram arrastados à imensa tragédia do Vietnã. Ao menos o cineasta nos livrou por uns tempos da mistificação retórica da "glória" militar, buscando inspiração no velho verso inglês segundo o qual os caminhos da glória costumam conduzir ao cemitério.

Mas, se com isso perdemos o segundo elemento do título _felizmente ninguém fala em glória nesse caso_, ficamos com o primeiro: qual será o preço da guerra? A melhor tentativa de resposta que conheço é a formulada por William D. Nordhaus, de Yale, no ensaio intitulado apud Keynes "The economic consequences of a war with Iraq" (acessível em www.econ.yale.edu/nordhaus/ iraq.html/; versão abreviada foi publicada em "The New York Review of Books", nº 19, 5/12/02). O estudo parte de fato surpreendente: não obstante a autorização do Congresso e os preparativos avançados _já há 60 mil soldados americanos se exercitando ao longo das fronteiras do Iraque e 45 mil mais podem ser enviados a curto prazo_, não houve até agora nenhuma análise pública e sistemática dos aspectos econômicos do provável conflito. Cuidadoso e ponderado, o autor reconhece que, devido ao "nevoeiro da guerra", suas estimativas dificilmente serão confirmadas pela realidade, mas, citando Keynes, insiste em que "é melhor estar certo vagamente do que precisamente errado".

Jogando com dois cenários básicos, Nordhaus calcula que na melhor hipótese _a de uma guerra curta e sem problemas_ o custo ficaria em US$ 121 bilhões. Já no pior cenário _o de conflito arrastado e sangrento_ as despesas poderiam chegar a mais de US$ 1,5 trilhão ou, mais exatamente, US$ 1,595 trilhão. As estimativas cobrem toda a década seguinte à guerra (2003-2012) e não se limitam ao dispêndio militar direto, abrangendo os gastos de ocupação, reconstrução, assistência humanitária, impacto macroeconômico e nos preços de petróleo. Só a leitura de uma das versões do ensaio pode dar idéia da minúcia, honestidade e equilíbrio que orientaram os cálculos.

Mais que a contabilidade dos custos, o importante são as observações que ela inspira. A primeira, presente no artigo, é que os americanos provavelmente subestimam as consequências econômicas do conflito e minimizam o risco de desencadear um caos geopolítico por longos anos. A região já é tão ou mais turbulenta do que os Balcãs e a África Central. Conflagrada pela guerra atroz entre Israel e os palestinos, ameaçada pelo assustador crescimento do fundamentalismo islâmico, não lhe faltam bombas-relógio prontas a explodir, da instabilidade crônica dos regimes feudais ao potencial destrutivo de situações como a do Líbano ou a do Irã. O perigo não é menor no Iraque, país onde sunitas, xiitas e curdos só vivem juntos porque esmagados por mão-de-ferro. Desaparecida essa, como ocorreu com a de Stálin, no Cáucaso, e a de Tito, na Iugoslávia, quem tomará seu lugar se não for uma prolongada e desgastante presença americana (na Coréia ela já dura 50 anos)?

Pior será se os ideólogos de direita tentarem o desígnio utópico de recriar o Iraque à imagem da democracia americana. Exemplificam com MacArthur no Japão, esquecidos de que tudo praticamente separa a cultura japonesa da islâmica e que os nipônicos haviam sido reduzidos pelas duas bombas atômicas à mais absoluta das submissões. Nordhaus expressa compreensível ceticismo a esse respeito, lembrando que o padrão das intervenções americanas é mais do tipo "destruir e correr" do que o da reconstrução. A ilustração mais recente é o Afeganistão, onde no ano fiscal findo em setembro de 2002 a guerra custou US$ 13 bilhões, ao passo que o esforço total do Pentágono em obras civis e humanitárias alcançou apenas US$ 10 milhões.

A segunda observação confirma a importância secundária que se passou a atribuir aos fatores econômicos desde que os atentados terroristas destruíram muitas das ilusões da globalização e voltaram a recolocar a segurança militar e os elementos geoestratégicos como prioridade indiscutível. Ora, isso vem ocorrendo em cenário de rápido desgaste da posição orçamentária outrora superavitária dos EUA, que se deteriorou em US$ 360 bilhões a partir do início do atual governo, na primavera de 2001. Mesmo uma guerra curta agravará o déficit e tornará mais incerta a recuperação. Quem financiará esse custo? Como fazê-lo com os cortes adicionais de impostos exigidos pelos plutocratas do Partido Republicano?

O autor conclui com a evocação de Barbara Tuchman, para a qual a história da guerra se confundia com a marcha da insensatez humana. Por essa razão, de Tróia ao Vietnã, os dirigentes sistematicamente subestimaram os custos dos conflitos que desejavam iniciar (Saddam Hussein é o exemplo mais acabado desses cálculos desastrados, com seus criminosos ataques ao Irã e ao Kuait). No discurso de aceitação do Nobel da Paz, Jimmy Carter citava outro americano, que mereceu o prêmio pelo seu trabalho na Palestina. O negro Ralph Bunche, grande servidor da ONU, mostrava o contra-senso de querer utilizar a guerra para pôr fim à guerra e à violência. Nós, brasileiros, não precisamos procurar tão longe. O nosso Barão do Rio Branco, ao explicar por que recomendara ao Chile a conciliação no litígio com o Peru, dizia: "É mais prudente transigir do que ir à guerra". E concluía, inapelavelmente: "O recurso à guerra é sempre desgraçado".

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