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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

A banalização da guerra

15/09/02

 

Rubens Ricupero

Se os 11 anos transcorridos entre a queda do Muro de Berlim e os atentados do 11 de setembro merecem o nome de período pós-Guerra Fria, como deveríamos chamar a fase que veio depois? Nada que sugira paz ou superação da guerra seria apropriado.

Quem melhor descreveu o impasse acarretado durante a Guerra Fria pelo equilíbrio do terror nuclear foi Raymond Aron, com sua síntese irretocável: "Paz impossível, guerra improvável". Ele se referia, é claro, à paz ou à guerra entre as duas superpotências e seus respectivos blocos, o armagedon nuclear para acabar com tudo. Na periferia do sistema, os conflitos eram concebíveis, mas mesmo aí perigosos, devido ao risco de os menores envolverem suas potências protetoras, como quase ocorreu na crise dos mísseis de Cuba.

Muito mais cedo do que se esperava, a profecia de Aron se dissolveu no ar. Afinal, a paz mostrou-se possível entre os EUA e não a URSS, mas a velha Rússia. Enquanto a extrema direita americana adia taticamente o projeto de fazer da China o próximo "adversário estratégico", não se perfila no horizonte o risco plausível de um confronto mundial.

Em compensação a guerra local, limitada, não só deixou de ser improvável como passou a ser cada vez mais acessível, imaginável, quase "normal". A tendência começa com a Guerra do Golfo, sofre um contratempo sério com a intervenção na Somália e ressurge, de início, de forma vacilante na Bósnia, e depois, com vigor, no Kosovo e no Afeganistão. O que existe em comum entre o primeiro e os dois últimos exemplos é que, em todos eles, a vitória foi fulminante, bem antes e mais fácil do que o previsto, o custo em sangue para os vitoriosos sendo mínimo, quando não inexistente. No começo da Guerra do Vietnã, personalidades como Mac Namara estavam certas de que os miúdos guerrilheiros vietcongues não eram páreo para a superioridade aérea e a sofisticação tecnológica americana. Naquela ocasião, no entanto, tais instrumentos não serviram de muito, ou por não estarem no ponto ou porque a natureza do conflito _guerra de libertação nacional, anticolonial_ não se prestava ao seu uso. O trauma vietnamita matou por longos anos o apetite de aventuras bélicas nos EUA, onde o Congresso chegou a proibir as intervenções na África. Aos poucos, todavia, os Estados-Maiores foram polindo suas ferramentas e, a princípio limitadamente, ensaiando a fórmula aperfeiçoada da nova "blitzkrieg", da guerra-relâmpago "limpa", em Granada e no Panamá.

Antes de passar à ação no Golfo, os americanos ainda hesitavam. Saddam ameaçava com a "mãe de todas as guerras". Muitos levavam a sério o que se dizia de o Iraque ter o "quarto maior exército do mundo", com armas ultramodernas. Na hora H, foi o que se viu: os aviões não conseguiram decolar, as baterias antiaéreas não acertaram um só alvo. Ou as formidáveis armas eram imaginárias ou de nada adiantou ter comprado o equipamento sem dispor de sociedade com nível de modernidade capaz de utilizá-lo eficazmente. Esses sucessos foram seguidos por outros. Os sérvios, temidos pela resistência feroz aos alemães, tampouco aguentaram o tranco. Os legendários e supostamente indomáveis guerrilheiros afegãos, invictos diante dos soviéticos, os misteriosos e barbudos terroristas, evaporaram-se. Consolidou-se um padrão: desde que não se mexa com os grandes _China, Rússia, Índia, exatamente os dotados de armas de destruição de massa_ os demais podem ser despachados de maneira sumária, expeditiva e relativamente barata em termos de vidas humanas, as próprias obviamente, uma vez que as perdas se concentram quase com exclusividade do lado alheio, combatentes ou civis, deploradas como os inevitáveis "danos colaterais".

Graças à tecnologia, os americanos parecem perto de realizar o sonho da invulnerabilidade dos antigos gregos, que a atribuíam a heróis míticos como Héracles ou Aquiles, esses mesmos com seu ponto fraco ou seu calcanhar sensível. Se na equação da guerra os benefícios começam de longe a ultrapassar os custos, se deixa de existir o "fog of war", o "nevoeiro da guerra", isto é, sua imprevisibilidade, não admira que o recurso à força militar passe a ser o meio preferido para resolver problemas desagradáveis. A incomparável geração de estadistas americanos que gravitavam em torno de Franklin e Eleonor Roosevelt havia concebido o conceito de segurança coletiva como pedra angular da Carta da ONU. Em caso de grave ameaça à paz e segurança internacionais e esgotados todos os outros meios, o uso da força só poderia ser feito mediante processo decisório coletivo dotado de todos os contrapesos para evitar precipitação ou abuso. Aquela, porém, era geração que sofrera e aprendera com a Grande Depressão e a Segunda Guerra, que fora capaz de criar o New Deal e o Plano Marshall. O perigo hoje é que, em vez de "ultima ratio", a guerra se converta em algo de banal, mercadoria corriqueira e de bom preço, quem sabe competindo com as crises financeiras para ver qual delas se repetirá com maior frequência. Não é, convenhamos, perspectiva civilizatória que nos prometa um século melhor do que o que deixamos para trás.

Na 1ª leitura do Ofício de Matinas de 4ª feira, 11 de setembro, o profeta Habacuc adverte os poderosos do seu tempo: "As riquezas enganam o homem arrogante, e ainda que ele seja insaciável como a morte, que recolha para si todas as nações e ao seu redor congregue todos os povos, ele não permanecerá!". O texto é misteriosamente sugestivo para os dias que correm e recomendo-o a todos (Hab, 2, 5-20). Termina numa bela nota de esperança: "Porque a terra será repleta do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar!".

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