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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Afirmação ou declínio da hegemonia

17/02/02

 

Rubens Ricupero

O LIMITE do crédito bancário de um indivíduo, o quanto ele pode sacar além do que possui em conta, varia segundo o peso financeiro de cada um. Da mesma forma se passa com a cota de erro que cada país pode dar-se ao luxo de cometer em política externa sem chegar à ruína: para alguns, a margem é quase inexistente; para outros, dependendo do poder, é incomensurável.

Esse último é o caso (único) dos Estados Unidos, ensinava-nos o saudoso embaixador Araújo Castro. Terminado o trabalho na embaixada em Washington, nos fins de tarde daqueles distantes 1974 e 1975, reuníamo-nos em sua sala para, espantados, contemplar na televisão a "débâcle" americana, o que parecia a queda do Império Romano: Watergate, a renúncia de Nixon, o último helicóptero a alçar vôo do teto da embaixada em Saigon, com um cacho de desesperados pendurados enquanto as tropas comunistas ocupavam a cidade. E, no entanto, dizia-nos o embaixador, não se iludam, daqui a 20 anos o Vietnã virá implorar aos americanos que os ajudem, que lhes abram as portas do comércio.

É lição que se deve ter presente ao constatar que os Estados Unidos são hoje mais fortes do que nunca. Mais certamente do que na fase de apogeu após o término da Segunda Guerra Mundial, quando gozaram de fugaz monopólio nuclear, mas sentiam-se acossados no coração da Alemanha pela gigantesca força convencional do Exército Vermelho, derramado de Vladivostok a Viena e Berlim. Hoje os americanos não têm rivais e são, para todos os efeitos, invulneráveis. Menos, dirão, ao terrorismo e seu impacto sobre a segurança da população civil. Mas, conforme mostrou Renato Guimarães em artigo no "Jornal do Brasil", o terrorismo atinge o símbolo, a imagem do poder do adversário, não seus fundamentos. Ao cutucar a onça com vara curta, o terrorista termina usualmente aplastado por reação que legitima e justifica o reforço adicional de um poderio cuja supremacia o atacante queria destruir.

É exatamente o que está a acontecer no momento em que apenas o aumento do orçamento militar americano (US$ 48 bilhões) representa soma maior do que os gastos totais em defesa de cada um dos países, Reino Unido e França, que ocupam o segundo e o terceiro lugar na lista.

Merece, assim, exame crítico a entrevista à Folha em que Immanuel Wallerstein detecta na hegemonia americana sinais de declínio em relação à década de 1970. Tendo supostamente perdido a vantagem econômica e o absoluto controle dos aliados, só restaria dessa hegemonia da época o componente militar. Será verdade? Nos anos 70, após o fiasco do Vietnã e o desengajamento dos EUA da Ásia, África, em toda a parte, quem tomaria a sério a hegemonia americana no terreno estratégico-militar? Ao contrário, a maioria dos analistas acreditava que a URSS de Brejnev havia alcançado ou mesmo ultrapassado a paridade estratégica com os EUA. Certa ou errada, era essa a percepção generalizada.

O controle dos aliados não foi melhor ou pior então. Basta pensar nas tensões com de Gaulle, na falta de solidariedade ou mesmo na atitude crítica dos ocidentais quanto à política vietnamita seguida por Washington.
Onde, contudo, a linha do argumento parece menos sustentável é na comparação da situação econômica atual com a que prevalecia há um quarto de século. O decênio de 70 foi o dos dois choques do petróleo, da inflação alimentada, desde a administração Johnson, pela simultânea expansão dos gastos com os programas da "Great Society" e a Guerra do Vietnã, culminando com índices de dois dígitos no fim da década. Os problemas agravaram-se com Nixon, levando-o a pôr fim unilateralmente ao sistema de Bretton Woods de taxas estáveis de câmbio referenciadas ao ouro. Foram os anos de estagflação, de produtividade anêmica, desemprego em aumento. O Japão, agora estagnado ou encolhendo, era a estrela do futuro e parecia imbatível. Reagan introduziu complicação adicional, ao inaugurar política econômica que combinava cortes de impostos com aumento maciço dos gastos militares. Gerou-se o fenômeno dos famosos "déficits gêmeos", os gigantescos déficits orçamentários associados aos crescentes rombos na balança de conta corrente, acentuando a dependência da economia em relação aos recursos financeiros externos, em particular os dos poupadores japoneses.

A economia americana sobreviveu a tudo isso e, até o início da curta e moderada recessão da qual parece começar a emergir, conheceu nove anos de uma das mais exuberantes expansões de sua história. O professor Paul Kennedy, figura expressiva da "escola do declínio" na década de 80, confessa ter mudado de posição. Temia o pior em 1985, quando o esforço militar consumia 6,5% do PIB de economia perturbada. Pensa hoje que se tornou barato adquirir a hegemonia ao preço de 3,8% de PIB florescente e produtividade que permite encarar sem susto o momento próximo em que os EUA gastarão com a defesa US$ 1 bilhão por dia, 20% a mais do que na Guerra Fria.

Não quer isso dizer que os americanos sejam onipotentes ou possam ignorar para sempre alguns ameaçadores desequilíbrios de sua economia e as reações do resto do mundo. Significa apenas que a atual configuração do poder mundial tem de ser avaliada com rigor e objetividade, não tomando os desejos por realidade que está longe do declínio. É preciso reconhecer também a extraordinária capacidade que tem um país como os Estados Unidos para recuperar-se de erros como os cometidos nos anos 60 e 70, que para outros seriam provavelmente fatais.

Os bons sentimentos não bastam para fazer boa literatura, muito menos para compreender o que se passa no mundo e, a partir desse conhecimento, estimar suas implicações para nós e os outros. Admitir que a concentração sem precedentes de poder num só país está em vias de aumentar, não de diminuir, não pressupõe que se aprove tal tendência ou se desconheçam os riscos que encerra. Para isso, basta voltar à advertência dos próprios fundadores da república americana contra o perigo da acumulação de todos os poderes em uma só mão, sobre a necessidade de "checks and balance", pesos e contrapesos. Ou lembrar o aviso de Burke: "Quanto maior o poder, mais perigoso o abuso".

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