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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Esperança e ação

18/08/02

 

Rubens Ricupero

SEMPRE ACHEI que os líderes têm o dever de criar e divulgar as razões que justificam a esperança. Essas razões não devem ser utópicas e ilusórias, mas precisam brotar do solo áspero da realidade. Tanto o marxista Antonio Gramsci como o teólogo Albert Schweizer disseram coisas parecidas ao afirmarem que, embora a razão e o conhecimento devessem ser pessimistas ou realistas, era necessário ser confiante e otimista na ação. É essa, no fundo, a essência da esperança.

Compus um livrinho a partir dessa inspiração e com o título que dá nome a este artigo. Ele trata da angústia que invade os corações diante dos rumos desastrosos que vêm tomando a política e a economia mundiais, acentuados após o 11 de setembro. Tentei fazer um balanço provisório do que está ocorrendo, da crise terminal de um modelo de desenvolvimento que se autodestruiu pela liberalização financeira temerária e concentradora, esquecendo-se da economia real, da produção e das exportações e, acima de tudo, agravando a desigualdade, a miséria e a precariedade do emprego.

Busquei mostrar o esforço que se faz na ONU e, em especial, na organização em que trabalho, a Unctad, para propor um modelo mais justo e equilibrado, capaz de evitar as frequentes crises financeiras e, quando elas ocorrem, como na Argentina, ajudar a encontrar saída menos desumana e cruel. Uma atenção particular é dada na obra à causa verdadeira e profunda da instabilidade brasileira _não a imprevisibilidade eleitoral e a turbulência dos mercados, meros sintomas, mas o persistente fracasso em dar solução decisiva à pobreza degradante, à insustentável injustiça na distribuição de riqueza e renda e aos problemas raciais que não queremos ver.

Nesse quadro acabrunhador, qual pode ser o objetivo da ação, o que se deve esperar? A resposta é a sugerida por Bobbio: em vez de comunismo versus capitalismo, esquerda contra direita, o que divide hoje as pessoas é a oposição entre mudança e status quo, entre movimento, transformação, renovação e a manutenção da "desordem estabelecida". Para a direita, a desigualdade e o desemprego são peças inerentes ao sistema, tão inevitáveis na economia capitalista como as leis de gravitação dos corpos celestes. Quem recusa essa construção ideológica está na obrigação de demonstrar que toda modalidade de economia é uma entre várias imagináveis, sempre uma escolha da sociedade, que pode preferir maximizar a igualdade ou a eficiência, o bem-estar coletivo ou a cobiça de uns poucos. Jamais existirão economia e sociedade perfeitas, mas é perfeitamente possível construir modelos sociais e econômicos que mudem para melhor o que está aí, conferindo primazia a valores de dignidade, justiça, igualdade relativa, generosidade solidária. Para isso, porém, não basta mudar "de" vida, isto é, tentar salvar-se sozinho, mas é preciso mudar "a" vida, o conteúdo e o sentido da vida individual e coletiva.

Tem isso muito a ver com o momento angustiante que vive o Brasil. Ninguém mais discute que o país precisa crescer. Até fontes de ortodoxia insuspeita, como o relatório do JP Morgan de 5 de julho sobre a economia brasileira, reconhecem que, mais que as eleições, o verdadeiro problema é o uso de poupança externa para cobrir o déficit de quase 4% em contas correntes sem retorno positivo em matéria de crescimento da produção ou de ganhos significativos na exportação. A conclusão do documento é óbvia: "Isso é insustentável. Ou a economia cresce mais depressa, ou a disponibilidade de investimento se contrairá".

A solução é o futuro governo apresentar uma proposta com credibilidade para aproveitar plenamente o potencial de crescimento de longo prazo da economia, que é muito superior ao registrado nos últimos anos. Será indispensável persuadir o FMI e os mercados financeiros a flexibilizar os critérios atuais que inviabilizam a expansão, já que reforçam as tendências recessivas: juros altos, crédito racionado e superávits primários cada vez mais elevados. O Orçamento tem de ser executado, como se faz nos EUA, para combater, não para acentuar a desaceleração. É exatamente o contrário do que se impõe ao Brasil: reduziram-se os juros 11 vezes, passou-se de saldo para déficit orçamentário, injetaram-se bilhões de dólares de liquidez no sistema. A receita do desastre é a seguida pela Argentina, a combinação de endividamento crescente com quatro anos de recessão. O Fundo Monetário Internacional não pode mostrar-se impermeável aos argumentos e espera-se que tenha extraído lições de crises como a argentina. A fim de ter credibilidade, o programa brasileiro necessita ser ancorado num convincente e efetivo projeto de erradicação da miséria e de distribuição de renda, prioridades declaradamente centrais do FMI, do Banco Mundial, da ONU e condição para obter o apoio ativo da opinião pública internacional. O Brasil conseguiu flexibilizar as normas sobre patentes de remédios porque tinha um programa vitorioso contra a Aids. Não é impossível lograr convencer a comunidade financeira de que, no seu próprio interesse, deve ajudar o país a crescer.

"Esperança e Ação" será lançado em São Paulo, amanhã, a partir das 18h30, na Livraria Cultura do conjunto Nacional. É edição Paz e Terra e traz prefácio de Celso Furtado. Termina com uma meditação sobre a esperança, na qual fui buscar ajuda em Georges Bernanos, que faz uma distinção entre a genuína esperança e aquilo que convencionalmente se chama de esperar, mas não passa de desejar, cobiçar, exigir, isto é, o desejo de desfrutar, a expectativa do gozo. Dizia ele que "o mundo moderno não tem tempo de esperar, nem de amar ou de sonhar. São os pobres que esperam em seu lugar". E evocava as crianças pobres que conheceu no seu exílio em Cruz das Almas, Barbacena, onde criança e pobre eram sinônimos. A resistência desses pequenos à miséria não estava em seus músculos frágeis, "mas nesse olhar magnífico, cheio de uma vontade de viver ao mesmo tempo humilde e feroz, esse olhar estranho que jamais vi em qualquer das nossas crianças, (que) exprime a mesma paciência indomável que a morte não desarmará, pois esse olhar não se desviará dela, como não se desviou da vida... É o olhar de um povo que deverá sua liberdade apenas a si próprio, pois não a recebeu de ninguém, mas a conquistou dia a dia, pagou-a com seu labor obscuro, seus sacrifícios sem número, sua paciência, sua fé...". Sessenta anos depois, ainda é verdade.

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