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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

A maré começa a baixar

21/07/02

 

Rubens Ricupero

NÃO SÃO só os muros do passado que estão voltando, agora contra imigrantes, terroristas-suicidas ou importações. A mesma sinistra ameaça de uma guerra permanente volta a angustiar-nos, como nos dias da construção do Muro de Berlim ou da crise dos mísseis em Cuba. Haverá guerras e rumores de guerra, prevenia-nos o Evangelho. Os rumores continuam agora insistentes sobre o Iraque, enquanto diariamente assistimos às cenas de horror do Oriente Médio e do Afeganistão.

E, no entanto, há outros aspectos em que o passado ameaça repetir-se. Há de novo colapsos da Bolsa, escândalos financeiros, perigos das consequências para a economia mundial de um súbito afundamento do dólar. O que pode, por sua vez, reafirmar a primazia dos problemas domésticos nos EUA e reduzir a prioridade exclusiva à luta militar contra os novos inimigos estratégicos, terroristas ou países fora-da-lei.

Tenho às vezes a estranha impressão de reviver a experiência que senti ao chegar a Washington como embaixador do Brasil, em agosto de 1991, pouco após a vitória na Guerra do Golfo. A sensação era então que os americanos haviam descoberto fórmula infalível para lidar com as crises externas e manter, ao mesmo tempo, elevado grau de apoio interno ao governo. Processava-se a mágica por meio da constituição de coalizões ("coalition-building"), em que os EUA entravam com o substancial dos meios militares, cabendo a outros o financiamento ou as bases logísticas.

A primeira e mais brilhante aplicação da receita tinha sido a fulminante operação para expulsar do Kuait as forças iraquianas invasoras, esmagando-as depois na rápida ofensiva que se seguiu. Foi também a revelação da extraordinária capacidade da tecnologia sofisticada para permitir ataques devastadores a partir de uma distância segura. Com perdas humanas minimizadas para os atacantes, o custo econômico coberto pelo Japão, a Alemanha e a Arábia Saudita, assegurada a sanção do Conselho de Segurança da ONU, inclusive com os votos da China e da Rússia, parecia a solução ideal a qualquer crise que surgisse no horizonte.

De fato, em pouco tempo virou moda negociar coalizões para o que desse e viesse: administrar os desafios oriundos da desintegração da URSS, promover a redemocratização do Haiti, pôr fim à anarquia na Somália. Era essa, em essência, a "nova ordem internacional" de que tanto falava o presidente Bush pai, na época em que lhe apresentei credenciais. A estratégia começou a fazer água na Somália, quando o espetáculo chocante de soldados americanos mortos arrastados pela rua provocou reviravolta na opinião pública. A fórmula ainda viria a ser utilizada por Clinton na Bósnia e em Kosovo, mas de forma mais cuidadosa e limitada e com predominante participação européia. O fiasco da Somália pesou muito, por outro lado, na fatídica decisão de cruzar os braços diante do genocídio em Ruanda.

O golpe de misericórdia a essa política ativista veio de onde menos se esperava, da economia, que, ao entrar em recessão em 1991-92, alimentou a acusação de que o presidente descurava os assuntos internos a fim de concentrar-se demasiadamente nas questões internacionais. A campanha de Clinton acabou vitoriosa na base da célebre frase em que um dos estrategistas democratas indicava qual era a prioridade: "It's the economy, stupid!".

Será que a economia voltará a ser a prioridade? É bem possível, se a atual deterioração econômica se intensificar. Salvo, é claro, se Bin Laden ou algum outro louco homicida do mesmo gênero contribuir para renovar o sentimento de pânico ante a ameaça difusa e indefinida do terrorismo.

É paradoxal que essa hipótese tenha de ser levada a sério em relação ao segundo Bush, que, segundo consta, teria chegado à Presidência obcecado em não dar pretextos a que lhe dirigissem a mesma crítica de indiferença aos temas domésticos que se fizera ao seu progenitor. Não parecia, de início, haver risco de que tal coisa ocorresse, pois não era mistério seu perfuntório interesse pelas complicações diplomáticas. Os atentados, contudo, reviraram a lógica ao avesso e a vigorosa reação do presidente valeu-lhe a conquista da quase unanimidade da nação. Não é dos menores paradoxos da situação que o setor apontado como ponto fraco do candidato eleito por apertada maioria se revelasse capaz de proporcionar-lhe a legitimidade do apoio popular. Após a vitória no Afeganistão, a preparação da ofensiva contra o Iraque dava a impressão de poder manter o elevado grau de mobilização e respaldo desejados pelo governo.

Novamente, porém, ressurge o perigo de direção inesperada. A economia, em lugar de recuperar-se plenamente no segundo semestre, conforme se previa, dá sinais contraditórios. Uma sucessão de desenvolvimentos pouco propícios repõe os temas domésticos no centro das atenções: a erosão constante do dólar, a queda da Bolsa, o recuo do índice de confiança dos consumidores. A isso se soma a crise provocada pelas práticas de contabilidade "agressivas", fenômeno generalizado (cerca de mil empresas tiveram de "retificar" os lucros anunciados desde 1999) e as acusações sobre o passado empresarial do presidente, do vice, do secretário do Exército e outros personagens.

Mais uma vez, comprova-se como é difícil a um país atingir e manter o poder absoluto, o que os antigos chamavam de "monarquia universal", pois, quando escasseiam os desafiantes externos, as limitações costumam vir de dentro. Aonde chegará essa onda é impossível dizer, mas não se pode negar que acumulam-se os sinais de que a maré começa a baixar.

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