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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Greta Garbo às avessas

23/06/02

 

Rubens Ricupero

NA FASE mais ideológica do regime militar, quando a diplomacia brasileira parecia comprazer-se em defender solitariamente na ONU causas ingratas como o colonialismo salazarista, o saudoso embaixador Araújo Castro dizia que o Brasil sofria do "complexo de Greta Garbo": "I want to be alone" ("Quero ficar sozinha"). Tem-se hoje a impressão de que saltamos de um complexo ao seu oposto e passamos a sofrer da fobia do isolamento.

Não me compreendam mal. Não quero insinuar que a solidão seja um estado desejável na vida dos indivíduos ou das nações. Ao contrário, é princípio fundamental de qualquer diplomacia procurar sempre evitar o cerco de alianças hostis ou da marginalização em relação a esquemas de cooperação comercial e econômica. Nesse sentido, iniciativas como o Mercosul ou a integração energética e física da América do Sul conservam inteira validade e devem continuar a ser desenvolvidas em todo o seu potencial.

Em alguns casos, porém, o isolamento pode mostrar-se até certo ponto inevitável por decorrer de diferenças objetivas de uma situação única, não-compartilhada pelas demais. Foi essa a condição do Brasil na maior parte do século 19, quando éramos monarquia solitária cercada de repúblicas por todos os lados. Tal circunstância, acentuada pela insularidade do português num oceano castelhano, está talvez na raiz dessa fobia do isolamento que se refugia no inconsciente coletivo brasileiro, para subir à tona em dilemas como o da Alca.

Sempre me impressionou, de fato, que ninguém entre nós, mesmo no setor oficial, tivesse sido capaz de demonstrar de modo objetivo e convincente as razões positivas, os ganhos plausíveis e realistas que teríamos para aderir à Alca. Não digo que essas razões não existam, mas nunca as vi articuladas de maneira persuasiva. O que se vê, ao contrário, de público e ainda mais em privado, quando se conversa com os negociadores, é uma atitude basicamente negativa, defensiva. O argumento mais usual é que não podemos ficar de fora porque os demais tendem a entrar, quaisquer sejam as condições finais. Se dissermos não, afirma-se que, além de consequências políticas não-explicitadas, seríamos alijados do mercado dos EUA pela concorrência dos outros latino-americanos, ao mesmo tempo em que a indústria norte-americana substituiria os manufaturados brasileiros nos mercados desses últimos.

É possível que isso seja verdade, mas existe acaso algum estudo que o comprove? Há mais de um ano, ao publicar o artigo "Pensando o impensável" (18/03/01), eu reclamava a necessidade de tal estudo. Perdemos mais 15 meses e, ao que me consta, continuamos a tocar de ouvido. Por que não aproveitar o setor do comércio exterior do Ipea para criar força-tarefa incumbida de efetuar, em seis meses, o melhor levantamento possível, dentro desse prazo, das implicações das diferentes opções? Sei que pesquisas e projeções possuem valor relativo, mas são sempre superiores ao puro subjetivismo do palpite. Por razões que não posso expor hoje por falta de espaço, penso que uma investigação desse tipo concluiria provavelmente que o temor tem alguma procedência, mas deve ser relativizado. De qualquer forma, só estudos e dados concretos poderão dar consistência a seminários que proliferam sem aportar qualquer valor adicional, pois se limitam a generalidades ou debates ideológicos.

Ao expressar ceticismo em relação ao argumento terrorista da inevitabilidade da Alca, não me inspira alguma posição definitiva e preconceituosa qualquer contra a proposta, o que não é o meu caso. Desejo sinceramente que as negociações em curso possam culminar em resultados benéficos menos desequilibrados para nós. Para isso, seria indispensável que a postura norte-americana sofresse modificações consideráveis no sentido positivo, e o que se tem visto infelizmente são mudanças graves na pior direção possível. Se isso persistir e conduzir a conclusões indesejáveis, parece-me inconcebível ver o Brasil reduzido a sacrificar interesses vitais legítimos devido ao desejo compreensível de evitar o isolamento a todo custo. Esperemos que não se chegue a esse ponto, mas convém não esquecer que as condições dos demais latino-americanos só coincidem com as nossas parcialmente. A excepcionalidade brasileira não é apenas coisa do passado. Hoje como ontem, nenhum dos outros tem território de dimensão continental, população capaz de criar um gigantesco mercado nacional e estrutura produtiva relativamente ampla e integrada. Não vejo por que essas características, que nos tornam exemplo único no continente, devam necessariamente ser consideradas como defeito, e não como vantagem, nas negociações.

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