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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Que nos baste o sonho

24/03/02

 

Rubens Ricupero

CATEDRAL de Monterrey, missa das 7h, terça-feira, 19, dia de são José. Para minha surpresa, metade ou mais da vasta nave é ocupada por mexicanos humildes, homens e mulheres com bandeiras e fitas vermelho-e-branco no pescoço. Descubro que passaram a noite em oração e aquele fervor me lembra: "The Power and the Glory", de Graham Greene, as perseguições da época de Calles e Cárdenas contra os "cristeros". Na capital das maquiladoras, cidade industrial a pequena distância da fronteira de San Antonio, no Texas, a inconfundível personalidade cultural mexicana afirma-se com todo o vigor de suas tradições populares e religiosas. O sacerdote fala pouco e bem de são José, homem justo, o servidor fiel e prudente que renunciou ao seu próprio projeto de vida porque, disse, "José tuvo un sueño y el sueño le bastó". Conclama os presentes a que lhes baste o sonho deles.

Saí pensando como a frase se aplicava aos que viemos para a Conferência de Financiamento ao Desenvolvimento e temos de contentar-nos com resultado pasteurizado, documento do mais mínimo denominador comum a fim de tornar possível a participação do FMI e dos EUA. Essa conferência nasceu de resolução apresentada, anos atrás, pelo Brasil, com papel decisivo desempenhado por meu colega Sérgio Florêncio, que teve de enfrentar não poucos dissabores e incompreensões de parte de nossas próprias autoridades. Desejava-se discutir as crises financeiras que se amiudavam com critério mais generoso do que o dos países credores que dominam o Fundo Monetário. Nada mais natural para isso que reatar com a idéia original de Franklin Roosevelt, para o qual Bretton Woods, que viu nascer o FMI e o Banco Mundial, e San Francisco, berço da ONU, eram metades complementares da ordem nova a ser edificada sobre os escombros da guerra. Nela, paz e segurança políticas, de um lado, estabilidade e prosperidade econômicas, do outro, deveriam condicionar-se e reforçar-se mutuamente.

Já se havia tentado retomar a inspiração inicial com as "Negociações Globais Multilaterais" da época dos choques petrolíferos, mas, em Cancún, no limiar dos anos 80, Reagan sepultou a idéia com pá de cal. Dessa feita, a sorte foi um pouco melhor. A moderação dos países em desenvolvimento na ONU, os efeitos do 11 de setembro, a necessidade de levar em conta o movimento de contestação à globalização selvagem aconselharam a aceitar o debate, desde que ele não pusesse em perigo o controle que as grandes potências continuam a exercer nessas matérias.

O preço a pagar foi alto. Teve de renunciar-se a discutir de frente o caráter sistêmico de crises financeiras que se repetem a intervalos cada vez mais curtos, indicando que algo de podre existe em sistema que produz crises quase com a mesma regularidade com que a bananeira dá bananas. Esqueceu-se de reformar a arquitetura financeira até que a próxima crise faça cair o telhado. Ninguém insistiu inconvenientemente na iniquidade e anacronismo de processo decisório que traduz a relação de forças do fim da Segunda Guerra Mundial, concentrando mais de 60% do poder de voto em mãos dos ricos e dando pouca voz no capítulo aos subdesenvolvidos, sobretudo os que só alcançaram mais tarde a descolonização.

Sem embargo, o saldo é modestamente positivo. Pela primeira vez reconheceu-se que as crises financeiras, os desequilíbrios do sistema comercial, o endividamento esmagador, a miserabilidade da ajuda aos pobres possuem dimensões sociais e políticas e têm de permanecer na agenda das Nações Unidas. O importante foi colocar um pé na porta para impedir que ela nos fosse de novo fechada na cara. Será preciso ampliar essa fresta passo a passo, enfrentando os problemas que se evitaram agora, com agenda que equilibre os interesses de credores e devedores, dos que podem dar e dos que necessitam receber.

Não podendo tomar decisões de substância porque todas as matérias concretas _moeda, câmbio, financiamentos, ajuda, negociações comerciais_ pertencem a instituições independentes como o FMI, o Banco Mundial, a OMC e os países doadores, a conferência tinha de concentrar-se em tentar melhorar a coerência entre essas organizações e delas com os objetivos humanos e sociais que lhes são superiores.

Nada tem, nesse sentido, mais pungência e urgência do que a tragédia argentina. Nos cinco minutos de meu discurso, evoquei-a três vezes. Primeiro, para mostrar que o financiamento ao desenvolvimento, longe de ser questão técnica ou abstrata, é problema capaz de causar desespero e dor a milhões de seres humanos. Para chamar a atenção, em seguida, à crueldade do tratamento reservado a um país que, por não ter importância estratégica nem ter sido até agora capaz de contagiar os vizinhos, foi escalado como o exemplo mais fácil para aplicação de castigo exemplar que sirva de escarmento aos demais.

Finalmente, para denunciar a imoralidade dos que punem um povo inteiro _milhões de homens, mulheres e crianças honestos e inocentes_ devido a desvarios de política econômica de governantes anteriores, tolerados e até elogiados durante anos pelos mesmos que se arrogam hoje o papel de açoite dos vícios e palmatória das fraquezas alheias. Desejar ter um dia um sistema financeiro mais solidário e humano será talvez um sonho, mas é sonho que me basta.

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