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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Viajar de 1ª

24/11/02

 

Rubens Ricupero

DESPEITADOS com a desenvoltura internacional dos franceses, alguns dos seus vizinhos europeus gostam de dizer que eles são como passageiros que viajam em 1ª classe, embora só tenham no bolso bilhete de 2ª. Típica da dor-de-cotovelo, a frase vira elogio se o contraventor, em vez de humilhantemente expulso do conforto dos privilegiados, termina a viagem festejado e aplaudido por esses últimos. Afinal, da miríade de definições imagináveis de diplomacia, uma perfeitamente cabível é que se trata da arte de viajar de 1ª, tendo apenas passagem de 2ª.

O que, de fato, se esconde por trás do sarcasmo? O bilhete de 1ª ou 2ª é obviamente o poder internacional, realidade complicada que também admite inúmeros conceitos. O mais simples ou simplista é afirmar que o poder é a capacidade de um Estado de obrigar outro a agir de determinada maneira ou a abster-se de fazê-lo. Nem sempre, contudo, a vontade de um é imposta ao outro por coação. Com frequência obtém-se o mesmo resultado pela persuasão, a promessa de compensações, o apelo ao interesse comum de cooperar, a utilização sistemática de todos os recursos jurídicos, enfim, a enorme gama de instrumentos do que se chama de "soft power", o poder suave ou não-contundente.

Não sei se os leitores têm consciência de que acabamos de assistir a uma das melhores demonstrações de diplomacia dos últimos tempos, tanto da variedade de saber administrar o próprio poder, quando ele chega a ser excessivo, quanto da modalidade que dá título a esta coluna, isto é, nas ocasiões em que ele é insuficiente. O secretário de Estado Colin Powell foi o herói indiscutível do primeiro tipo, o de lidar com o próprio poder em excesso, nem por isso a tarefa mais fácil. Teve, primeiro, de exercer a diplomacia em relação à maioria dos companheiros de governo, persuadindo-os de que dispor de força mais que suficiente para aniquilar o Iraque não é razão bastante para usá-la sozinho.

Buscar o consenso internacional pode parecer caminho mais abrupto, mas compensa: confere legitimidade, amplia a possibilidade de dividir o ônus com aliados, isola o adversário, facilita a colaboração dos árabes. Melhor ainda é quando, graças à dosagem de pressões, paciência e capacidade de transigir no não-essencial, consegue-se o triunfo inesperado de resolução unânime do Conselho de Segurança da ONU, com o voto positivo até de um país árabe acima de qualquer suspeita como a Síria.

Powell confirma, assim, as excepcionais qualidades reconhecidas pelos que o conheceram em Washington. Poderá vir a ser um segundo George Marshall, como ele general, ex-chefe do Estado-Maior, que se tornou um dos maiores condutores da diplomacia americana, dando o nome ao grande plano de reconstrução da Europa. A consolidação de sua influência augura bem para o futuro das relações com o Brasil, país que o secretário de Estado sabe apreciar e valorizar, conforme hão de atestar todos que ouviram o memorável discurso com que agradeceu, na embaixada do Brasil em Washington, em fevereiro de 1993, à condecoração militar de que lhe fiz entrega.

Predomina sem rivais na segunda categoria o presidente Chirac, secundado por seu brilhante chanceler, Dominique de Villepin. Liberado dos constrangimentos da divisão do poder com os socialistas, deixando ao primeiro-ministro a rotina absorvente do dia-a-dia do governo, o presidente devolveu à França as horas mais gloriosas da diplomacia gaullista, sem o mesmo estilo arrogante e ofensivo (salvo em relação a Blair). A reconstituição do eixo com a Alemanha permitiu-lhe alijar para escanteio a pretensão inglesa à liderança européia, com base no apoio de governos mais à direita, como os de Aznar e Berlusconi. Impôs, assim, em Bruxelas decisão que assegura a continuação dos subsídios agrícolas mesmo após a adesão de dez novos membros à União Européia, o que poderá ter sérias implicações para os interesses comerciais brasileiros.

Vitória muito mais saudável para a comunidade internacional como um todo foi a resistência que opôs à tentativa de arrancar do Conselho de Segurança resolução precipitada. As sete semanas desse fascinante braço-de-ferro franco-americano não foram excessivas, dada a extrema gravidade da questão. Deram tempo para que Colin Powell montasse internamente sua contra-ofensiva para prevalecer sobre os falcões e a fim de amolecê-los pelo espetáculo das manifestações de desaprovação dos europeus e árabes. Possibilitaram, sobretudo, que as duas posições opostas se aproximassem gradualmente.
Evitou-se, de um lado, a carta-branca para um ataque imediato, mediante a exigência de dois tempos, o primeiro para as inspeções, o segundo para as eventuais sanções. Definiu-se, por outro, regime rigoroso de verificação, que não deixa sombra de dúvida sobre as consequências nefastas e instantâneas de possível má-fé na implementação. No fim, o projeto americano foi aprovado por todos, após extensamente modificado. A França, os EUA, todos saem ganhando, mas, acima de todos, a ONU, que vê reforçado seu papel de instância mais alta da legitimidade internacional. Recoloca-se também firmemente a questão no terreno de onde jamais deveria ter saído, o único consagrado nas resoluções que puseram fim à Guerra do Golfo: o desarmamento do Iraque em armas de destruição de massa. É essa a base exclusiva da legalidade da resolução, não a mudança de regime ou outro motivo qualquer. Alcançou-se, desse modo, um daqueles raros resultados que o barão do Rio Branco louvava com essas sábias palavras: "As combinações em que nenhuma das partes interessadas perde, e, mais ainda, aquelas em que todas ganham serão sempre as melhores".

Numa época em que o Brasil tinha muito menos poder, tanto em termos absolutos como em relação aos vizinhos, Rio Branco foi capaz de desenvolver política externa de grande criatividade, dando-lhe às vezes a possibilidade de viajar de 1ª classe, sem bilhete apropriado. Cem anos depois muita coisa mudou, mas não se alterou o fundamental. Contrariamente à visão materialista de apenas valorizar a dimensão comercial ou econômica, o exemplo de Chirac sugere que é por dispor de brilhante política externa que a França consegue fazer prevalecer posições comerciais difíceis e isoladas. Hoje, como ontem, só a diplomacia e a política externa que sabem potencializar ao máximo o poder sempre limitado de cada um serão capazes de assegurar resultados propícios no terreno econômico-comercial, e não o contrário.

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