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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Longe dos olhos, mas...

27/10/02

 

Rubens Ricupero

COMO ESTÁ longe o Brasil desta velha Parma, onde o centenário de Verdi deixou vestígios por toda parte! Estive, por motivos familiares, em Trento e antes em Veneza, a trabalho (acreditem, é verdade). Sem notícias de campanha ou pesquisas, avisto das eleições mais a floresta que as árvores.

O que dizer, nessas circunstâncias, à TV inglesa, que me pediu um comentário? Primeiro, o significado de uma decisão em que os dois finalistas, um, de origem operária, o outro, primeira geração de imigrantes, não pertencem, em caráter pessoal, às classes sociais que invariavelmente governaram o país desde a sua fundação. Segundo, serem ambos o produto político, independentemente do local de nascimento, da urbanização e industrialização do centro-sul, e, especificamente, de São Paulo. Terceiro, culminar a disputa no cotejo entre as duas vertentes principais das forças partidárias de oposição ao regime militar, eliminando a ambiguidade da aliança com antigos sustentáculos desse regime.

Tudo aponta uma conclusão: chegamos ao fim de um ciclo, não meramente político ou eleitoral, mas da própria história brasileira. Os sinais são inconfundíveis. Os velhos protagonistas que decidiram o jogo desde 1930 ou 1964, os remanescentes do trabalhismo varguista ou brizolista, os herdeiros dos interventores, do PSD, da Arena, do PDS, "o maior partido do Ocidente", até os grisalhos veteranos do Partidão ingressaram naquela fase crepuscular de declínio que antecede o olvido. Desta vez, os populistas, de direita ou supostamente progressistas, não conseguiram, como em 1989, suplantar, na faixa eleitoral que disputam, o apelo mais poderoso de movimento autenticamente popular. No entanto seria prematuro anunciar-lhes a morte. Em democracia de massas pobres e sofridas, que jamais receberam do Estado acesso real à educação ou às informações, o populismo será sempre um fator latente, pronto a explorar as decepções e desenganos com os governos, mesmo populares.

É inédito, sem precedentes, ao que me consta, em qualquer país do Ocidente, que esteja a um passo do poder supremo um operário de verdade, cuja história pessoal se assemelha à de tantos pobres: imigrante do Nordeste, perda da mulher e do filho devido a erro de um hospital público. Tentei lembrar exemplo anterior em outro país, mas não encontrei nenhum, nem nos Estados Unidos em mais de 200 anos de democracia nem nos europeus. Em todas as nações ocidentais, a burguesia, de nascimento ou por cooptação de estudos, nunca deixou que o poder lhe escapasse das mãos. Só me ocorre um antecedente: o de Lech Walesa e o movimento Solidariedade, registrado na Polônia, país do Leste Europeu, e apenas na fase de transição do comunismo ao regime atual.

O que significa isso? Fala, sem dúvida, em favor do Brasil, das possibilidades que abre à ascensão social, que tal fato seja possível. Ademais, parece paradoxal que ele suceda justamente no país da desigualdade por excelência. Mas será mesmo um paradoxo verdadeiro ou aparente? No fundo, são apenas as sociedades extremamente desiguais e, por essa razão, desequilibradas, estruturalmente frágeis nas instituições de controle do poder, que acabam criando involuntariamente oportunidades inesperadas de mudança. É mecanismo análogo ao que fez a primeira revolução comunista ter por cenário não a Alemanha, conforme esperavam os marxistas, mas a Rússia, terra de capitalismo atrasado e tardio e, ainda assim, só no contexto desestabilizador da derrota na Primeira Guerra Mundial.

Não quero insinuar que a perspectiva eleitoral brasileira tenha algo de revolucionário ou radical, longe disso. Desejo simplesmente assinalar a absoluta excepcionalidade do que pode vir a acontecer no Brasil, seu caráter de raridade que não se repete em condições normais, quando não cochilam as chamadas elites da teoria de Mosca e Paretto, astutas guardiãs das estruturas pelas quais se chega ao poder: os parlamentos, as direções partidárias, as convenções.

Chegar ao poder é árduo, mas não passa do princípio dos desafios. Mais difícil será fazer a mudança que o poder de hoje cada vez permite menos. Apesar de que a explicação toda destas eleições se encontre no veemente anseio do povo em mudar o que está aí, embora seja clara a rejeição de uma política econômica que não funcionou nem funcionará, não hão de faltar os que, a pretexto de ajudar os eleitos, lhes prodigarão conselhos de continuar o que não deu certo. E não só dar sequência ao governo moribundo mas fazer até o que esse teve a prudência de evitar: tornar irreversível a orientação fatal, dando o caráter de um Estado dentro do Estado ao Banco Central, precisamente as pessoas e a ideologia que nos levaram à deplorável situação a que chegamos, com o obstinado e monumental erro do câmbio!

Giuseppe Tommasi, "duca di Palma e principe di Lampedusa", atribuiu à figura romanceada do seu bisavô, o príncipe de Salina, o "Gattopardo" do romance, a estratégia de que os defensores do antigo regime deveriam aderir a Garibaldi e ao novo porque "é preciso que tudo mude a fim de que tudo continue como antes". Na Sicília, funcionou. Mal sabia Lampedusa que décadas antes, um presidente de Minas, Antonio Carlos, tinha dito mais ou menos coisa parecida, ao preparar-se a aderir à Revolução de 30. É por isso que mesmo uma eleição extraordinária, mesmo a origem ou os compromissos sociais dos eleitos não constituem uma garantia, mas sim uma promessa. Sua realização há de depender da dosagem de continuidade e mudança, do acerto das decisões, da qualidade da implementação. Só assim se poderá assegurar que a excepcionalidade de episódio inédito se transforme em normalidade de condições, que o país da desigualdade se converta finalmente em terra de oportunidades para todos.

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