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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Um clima inóspito

29/09/02

 

Rubens Ricupero

AINDA QUE flutuássemos em céu internacional de brigadeiro, a transição de governo no Brasil seria uma das mais perigosas de nossa tumultuada história, pelas razões sobejamente conhecidas. Para remate desses males internos, essa complicada mudança haverá de cumprir-se dentro de horizonte mundial que escurece ameaçadoramente e no qual o espaço para a autonomia política ou econômica se estreita a olhos vistos.

Seria tranquilizador se pudéssemos acreditar que o contexto externo não é tão importante assim. A verdade, no entanto, é que o mundo exterior nos impõe às vezes limitações quase insuperáveis. Por exemplo, por que terá sido que, a partir do golpe brasileiro de 1964, quase todos os países latino-americanos tombaram, um após o outro, sob o domínio de ditaduras anticomunistas repressivas, inspiradas pela doutrina da segurança nacional?

Como se explica que isso ocorresse tanto com países agudamente instáveis, como a Bolívia da época, quanto com modelos até então de estabilidade relativa, como o Chile? Mera coincidência, contágio do exemplo ou reflexo em parte do endurecimento da Guerra Fria nos anos 60, do temor do alastramento da revolução cubana, do ativismo beligerante da política de Johnson, cuja expressão principal foi o atoladeiro do Vietnã, mas também teve influência deletéria na República Dominicana, na Grécia, na Indonésia?

Se fosse fácil abstrair do envoltório que nos cerca, por que será que os anos 80 foram uma década perdida para todas as vítimas da crise da dívida externa, incluindo nações tão diferentes como o México, o Brasil, o Peru e a Argentina?
Em sentido inverso, quantos brasileiros compreendem que o êxito de Juscelino foi viabilizado pela recuperação econômica da Europa e do Japão do pós-guerra, pela fabulosa fase de expansão da economia mundial que os franceses chamam de "os 30 anos gloriosos", pelo retorno dos financiamentos à exportação, que possibilitaram a implantação da indústria automobilística, naval e tantas outras, mesmo após a ruptura com o FMI? Isso sem mencionar o degelo nas relações internacionais que se seguiu à morte de Stálin, ao fim da Guerra da Coréia e à etapa francesa do conflito da Indochina, à relativa predominância de regimes democráticos na América do Sul da segunda metade dos 50.

Não estou querendo sugerir que o contorno internacional nos determina de modo absoluto, o que seria exagero. Não há como negar, todavia, que esse contorno pode complicar-nos a vida no momento preciso em que as agruras internas ameaçam já engolir-nos. Aliás, o agravamento recente das angústias domésticas deve-se, em larga medida, a fatores externos: a recessão americana e mundial de 2001, o colapso argentino, a queda dos preços das exportações, a "fuga para a qualidade" dos capitais etc.

Dessa perspectiva, lamento dizer que o panorama visto de Nova York, onde escrevo, se apresenta carregado e cor de chumbo. Depois de três meses de ausência, encontro país crispado com o presente e assustado com o futuro. O ataque contra o Iraque é percebido como fatalidade inevitável que não entusiasma ninguém. Os discursos de Al Gore e do senador Daschle ousaram clamar o que outros cochichavam: o questionamento dos reais motivos da urgência da operação, a suspeita de alguns democratas de que ela obedece mais à lógica política da vitória nas eleições parlamentares de novembro do que a um risco iminente de parte de Bagdá. Nos meios diplomáticos da ONU, a estratégia de assegurar para sempre a supremacia militar dos EUA e de justificar ataques preventivos parece difícil de conciliar com o princípio de segurança coletiva, base da Carta das Nações Unidas. O espetáculo deprimente dos "bulldozers" demolindo o pouco que resta da Autoridade (sic) Nacional Palestina aumenta a sensação de calado desespero.

As páginas econômicas parecem o Livro das Lamentações: redução do índice de produção industrial, de confiança dos consumidores, quedas brutais da Bolsa, recuo da média dos indicadores, aumento do desemprego, temor de nova recessão, refúgio dos capitais no mercado imobiliário e consequente risco de criar bolha especulativa no setor, paralisia dos bancos devido às perdas gigantescas com os escândalos empresariais, comparações desprimorosas com a depressão japonesa. Por cima de tudo, a incerteza quanto ao efeito de um ataque ao Iraque nos preços do petróleo, nos países importadores como os da Europa (e o Brasil), na própria economia americana.

Nem sempre a adversidade externa é invencível. Um exemplo foi a chamada "Era Vargas", iniciada (e em parte motivada) pela crise de 29 e a Grande Depressão. O país teve de suspender o pagamento da dívida e viveu o estreitamento das opções, espremido entre o stalinismo e o fascismo, culminando com a Segunda Guerra. Não obstante, muito cedo saiu da recessão, impulsionou a industrialização, construiu a usina de Volta Redonda. No seminário pelos 50 anos do BNDES, comentei a declaração de alta autoridade brasileira, que dizia querer superar por completo o legado daquela era, desejando por certo significar outra coisa, a herança negativa daqueles anos, e não sua obra em bloco. Seguramente não faltam crimes e erros a condenar no período, bastando exemplificar com a ditadura fascistizante do Estado Novo e seus terríveis atentados, para sempre apontados à execração dos brasileiros por Graciliano em "Memórias do Cárcere".

O senso de equilíbrio e medida obriga, porém, a reconhecer que tanto na primeira quanto na última e trágica fase da "Era Vargas" houve realizações admiráveis que nem sempre soubemos preservar na sua integridade, tais como o Patrimônio Histórico, o BNDES, a Fundação Getúlio Vargas, a Petrobras e a Companhia Siderúrgica Nacional, que hoje deixamos melancolicamente passar a mãos estrangeiras. De todo o legado da "era Vargas", talvez o mais valioso tenha sido o exemplo de alguns brasileiros da época, capazes de reagir e vencer um clima externo inóspito. Como eles, teremos hoje de provar que, se nos faltar a "fortuna" desejada por Maquiavel, só nos resta um caminho: deveremos redobrar a nossa "virt—", isto é, a capacidade de buscar em nós mesmos as forças para triunfar sobre a adversidade.

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