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Folha de S. Paulo - 2002

São Paulo - Brasil

 

Reconstruindo muros

30/06/02

 

Rubens Ricupero

A IMAGEM do povo demolindo o Muro de Berlim com martelos e picaretas foi o símbolo visual que resumia a promessa dos anos 90: a abolição de todas as barreiras _entre as economias, pela ação da liberalização e da globalização; entre os homens, pelo fim da confrontação da Guerra Fria e do apartheid. Doze anos depois, os dirigentes europeus discutem em Sevilha como edificar muralha contra os imigrantes do Terceiro Mundo, o gabinete israelense decide erguer cerca para impedir a infiltração de terroristas palestinos, o país mais rico do mundo multiplica as barreiras contra o aço, os produtos sensíveis, a agricultura.

O pressuposto da grande ilusão do fim do século 20 era o desaparecimento das ameaças externas com a desintegração da União Soviética. Parecia realizar-se a profecia brandida contra os americanos por Georgi Arbatov, conselheiro de Gorbatchov: "Faremos a vocês uma coisa terrível _vamos privá-los de um inimigo!". Por um momento, o incidente do avião-espia, no início do governo Bush, dava a impressão de que a China tomaria o lugar da URSS como o "inimigo estratégico". Fora os chineses, questão de longo prazo, os problemas de segurança se restringiam a áreas periféricas e irrelevantes: Afeganistão, Somália, Serra Leoa. Pacificados Kosovo e Bósnia, o que impediria que a globalização dos mercados e o enriquecimento ilimitado se impusessem sem rivais sobre todas as outras preocupações?

Os atentados de 11 de setembro, o pânico _até hoje não-esclarecido_ do antraz, o alarma renovado a cada 15 dias contra possíveis ataques iminentes com bombas radioativas "sujas" ou mesmo artefactos nucleares "limpos" mudaram por completo a situação. Mais até que nos tempos da Guerra Fria, as ameaças à segurança entraram no íntimo do coração americano, ferido pela perda de milhares de vidas inocentes. Desde então, não valem mais as certezas e prioridades de ontem. A primeira realidade a afirmar-se é a do Estado sobre os mercados abalados por escândalos e bolhas especulativas. Um governo surgido das forças mais conservadoras americanas, as que propugnam a diminuição do tamanho e a influência do aparato estatal, é paradoxalmente o primeiro em muitos anos a criar um ministério novo, o da segurança interior, com milhares de funcionários e orçamento de US$ 37 bilhões!

Ao mesmo tempo em que a do Estado, impõe-se a primazia do político sobre o econômico, do interesse nacional sobre tratados multilaterais, da perspectiva local sobre a global. Passam a segundo plano as considerações de equilíbrio orçamentário e aprovam-se aumentos de despesas que garantem às indústrias de defesa opulentas encomendas. Engaveta-se o Protocolo de Kyoto, "desassina-se" (o neologismo em inglês é "unsign") o tratado estabelecendo a Corte Penal Internacional, enquanto se firma a Lei Agrícola, que aumenta em 75% os subsídios domésticos. Volta-se a lembrar a famosa frase do congressista americano, segundo a qual "toda política é local". A mensagem é inconfundível: não é o global que determina o local, conforme querem os adeptos da globalização, mas o contrário.

A partir daí, está aberto o caminho para que os interesses dos siderurgistas de Virgínia Ocidental venham antes que os de Volta Redonda ou do vale do Ruhr, os dos produtores de pêras em conserva da Califórnia desloquem os da África do Sul e os de suco de laranja da Flórida deixem à margem os de Ribeirão Preto. A ascensão do nacionalismo econômico não se manifesta só na sucessão de medidas de proteção ao aço, à agricultura, na recusa de regras razoáveis de antidumping. A reforma em preparo da lei de impostos sobre grandes corporações visa a castigar as que transferiram as sedes "offshore" e favorecer as empresas americanas em relação àquelas cujo controle passou a europeus ou estrangeiros em geral. Cai assim outro mito da globalização: o de que a nacionalidade, o controle ou a sede das transnacionais não tinham a menor importância.

Embora aparentemente díspares, todas essas iniciativas apresentam uma certa coerência, pois decorrem da mesma lógica do poder: cada uma delas visa a atender interesses locais ou nacionais e, por esse meio, obter em retorno apoio para aumentar o poder do Estado. Não é outra a razão pela qual se dá satisfação às regiões agrícolas ou siderúrgicas a fim de ganhar as eleições para o Congresso e consolidar a capacidade do governo para usar o poder nacional com desenvoltura. Os europeus queixam-se dos americanos, mas agem da mesma forma. O motivo que inspira as ações contra os imigrantes não é econômico. Por imperativo demográfico, a Europa está condenada a depender da mão-de-obra estrangeira. A questão é política: evitar o avanço da extrema direita. Por outro lado, em matéria de protecionismo agrícola ou de qualquer gênero, os europeus não precisam de lições de ninguém.

É bem sabido que uma anterior encarnação da lógica do poder, a do nacionalismo das grandes potências européias, redundou na Primeira Guerra Mundial, pondo fim à globalização vitoriana. Haverá perigo de que a história se repita como tragédia ou como farsa? É talvez prematuro afirmar, pois os sinais são contraditórios. É indiscutível, porém, que a angústia aumenta à medida que se volta a reedificar muros, a reerguer cercas, a de novo erigir barreiras separando os seres humanos ou fechando as economias às exportações dos fracos e pobres.

Será que os edificadores das novas barreiras terão mais êxito do que os construtores do Muro de Berlim? A julgar pelo que aconteceu à Muralha da China, aos muros erguidos pelos romanos contra os bárbaros ou às fortalezas dos cruzados na Terra Santa, o destino dos muros parece ser, cedo ou tarde, virar curiosidade arqueológica ou atração turística.

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