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Folha de S. Paulo - 2003

São Paulo - Brasil

 

Nem romano, nem império

19/10/03

 

Rubens Ricupero

QUATRO FATOS dominaram a semana: os 25 anos do pontificado de João Paulo 2º; o salto tecnológico da China no espaço; o êxito no Conselho de Segurança de resolução expressiva do retorno dos EUA à abordagem multilateral no Iraque e o avanço em Bruxelas na adoção da Constituição da Europa unificada e ampliada com 25 países, do Atlântico às estepes asiáticas.

Parece difícil, à primeira vista, estabelecer um vínculo entre essas notícias. Uma leitura cuidadosa, entretanto, identifica o traço unificador: tomadas em conjunto, elas indicam que a complexidade das estruturas do poder no mundo contemporâneo não pode ser reduzida a fórmulas simplistas como as das teorias da emergência de novo Império Romano num sistema unipolar.

Muito haveria a dizer sobre o jubileu do papa e o papel que teve na evolução do Leste Europeu e na dissolução do comunismo. O que desejo reter, contudo, é mais recente, sua oposição vigorosa à invasão do Iraque e condenação sem apelo à guerra em geral e à preventiva em particular. Conforme realçou a televisão européia, foi graças aos gestos e às palavras de João Paulo 2º que os ataques sucessivos ao Afeganistão e ao Iraque não foram instrumentalizados como uma cruzada do cristianismo contra o islã, causando dano irreparável às relações com 1 bilhão de muçulmanos.

Quase 60 anos atrás, Stálin fazia pergunta sarcástica: "Quantas divisões possui o papa?". Salvo a memória amarga de pesadelo monstruoso, sobra hoje pouco ou nada das divisões e blindados a serviço do terror stalinista. Em contraste, um chefe religioso armado apenas da força interior da consciência conquistou em todo o planeta, inclusive no islã, influência e respeito incomparavelmente superiores aos de todos os poderosos líderes ocidentais. É que o poder não nasce só da boca do fuzil, como dizia outro tirano. Ele brota também dos "hearts and minds", dos corações e das mentes, das emoções, sentimentos, juízos, da afirmação da consciência moral quando os investidos de responsabilidade têm a coragem de não guardar silêncio diante da violação de valores indiscutíveis.

A colocação do primeiro chinês em órbita é a última demonstração de que, passo a passo, vem a China completando, de modo paciente e metódico, sua transformação, primeiro em potência na economia e no comércio, em seguida na tecnologia de ponta, base para consolidar o poder geoestratégico. Até agora, as derrapagens graves foram raras e logo corrigidas. Fica cada vez mais difícil negar que novo astro desponta no horizonte.

Há alguma semelhança remota entre o processo chinês e o europeu. Nos dois casos, velhas civilizações ameaçadas de perder a irradiação que tiveram no passado, devido ao retardamento econômico-tecnológico ou às divisões debilitadoras, se esforçam em remover as causas do declínio.

De forma também sistemática é o que os europeus estão fazendo a fim de construir a unidade econômica e política entre eles. O público, a imprensa tendem a concentrar-se no episódico, circunstancial _a sobrevivência das divisões_, não vendo às vezes o fundamental. Peça a peça _a política agrícola, o mercado comum, a adesão da Inglaterra, as sucessivas expansões, a moeda comum_ o mosaico da integração vai ganhando contorno e cores. Desde o início da caminhada, após o fim da Segunda Guerra, jamais houve um retrocesso sério em meio século. A adoção da Constituição é um ato fundador gigantesco, uma dessas raras transformações merecedoras da qualificação de históricas.

Encerra sentido positivo a retomada pelos americanos da busca de consenso no Conselho de Segurança e a atitude conciliadora que adotaram para até certo ponto acomodar as preocupações do secretário-geral Kofi Annan e de outros países. Prevaleceram afinal em Washington a moderação e o bom senso, que aconselham a reconhecer os limites do poder ianque. Pode ser que a resolução não resulte em aportes espetaculares de tropas ou dinheiro, como se desejava, mas ela melhora o quadro político, diplomático e jurídico da ocupação do Iraque e do incipiente governo local.

Há algo de comum em todos esses desenvolvimentos. Cada um deles põe em realce uma diferente dimensão do poder: a moral, a tecnológica, a oriunda da unificação política, a da legitimidade internacional derivada de resolução consensual do Conselho de Segurança. Pode-se ir além e mostrar que o poder jamais é monolítico ou redutível apenas à componente militar, segundo expressa a frase atribuída a Napoleão: "Com as baionetas, pode-se fazer tudo, menos sentar-se em cima delas". Isto é, além do terreno estratégico-militar, o poder se exerce em numerosos cenários: o político-diplomático, o econômico, o financeiro, o comercial, o tecnológico, o da legitimidade jurídica, o da moral e da opinião pública.

Cada cenário exige meios distintos, e o tipo de jogo varia de um a outro. No passado, na era da balança de poder dos séculos 18 e 19 na Europa, quando se equilibravam cinco, seis ou sete potências, cada uma era importante em cada cenário particular. Hoje, não. Há países, como o Japão e a Alemanha, que são relevantes em economia, finanças, tecnologia, mas não em termos militares, existindo igualmente um tipo de poder no domínio dos valores e dos símbolos, da moral e da opinião, como o detido pelo papa e por Kofi Annan. A excepcionalidade dos EUA é que eles são os únicos a desempenhar papel de primeira grandeza em praticamente todos os tabuleiros, quase sem exceção. Isso não quer dizer que eles açambarquem a totalidade do poder em cada um deles ou que possam embarcar em infindáveis aventuras militares contra integrantes de "eixos do mal", sem esticar até o ponto de ruptura os limites impostos pela disponibilidade de tropas, a capacidade da economia ou o apoio político da população.

Outrora a configuração do sistema internacional _uni, bi ou multipolar_ dependia do número de participantes principais no jogo de poder envolvendo todos os tabuleiros: um (Roma, a "monarquia universal"), dois (EUA e URSS) ou vários (o sistema europeu antes de 1914). Hoje, o equilíbrio é expressão não tanto do número de atores mas dos meios e cenários diferentes: militar, político, econômico etc.

Só quem confunde unilateral com unipolar é que pode imaginar que os EUA são a nova Roma. Os americanos não podem dar-se ao luxo, como faziam os romanos, de dividir o mundo em vassalos e inimigos. A nova resolução da ONU é expressão dessa realidade. Basta olhar para o que se passa em Bagdá para ver que estamos longe da "imensa majestade da paz romana", de que falava o poeta Juvenal.

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